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Saura, o demolidor da fronteira entre as artes

Publicado em 08/04/04 às 18h25

imagem Um dos grandes cineastas espanhóis da modernidade, ao aragonês Carlos Saura podem ser atribuídas ao menos duas façanhas: ter saído da sombra vigorosa de Luis Buñuel (1900-1983), criando obra própria, e aberto janelas entre o cinema e outras artes - dança, teatro, pintura - de uma forma completamente original.

Favoreceu-o nessa última característica, sem dúvida, ter nascido num ambiente artístico, dominado pela mãe pianista e o irmão pintor. Adolescente, Saura iniciou-se na fotografia. Aos 18 anos, já tinha uma câmera 16 mm na mão, com a qual fez pequenas reportagens. Mas o cinema falou mais alto. Em 1952, inscreve-se no Instituto de Investigaciones y Estudios Cinematograficos, onde vem a descobrir a técnica e a teoria da profissão, ao mesmo tempo em que freqüenta aulas ocasionais de jornalismo, aliás, uma de suas paixões marginais, que alimenta o veio neo-realista da primeira fase de sua obra.

Com o curta La Tarde de Domingo faz sua conclusão de curso, iniciando a carreira de professor no mesmo instituto em que se formou, profissão em que permanece até 1963 - quando é demitido por suas tendências políticas, abrindo um período de enfrentamento com o regime franquista que duraria até a morte do ditador Francisco Franco, em 1975, e marcaria profundamente a filmografia do diretor.

Depois do média-metragem documental Cuenca (1958), Saura parte para um primeiro longa-metragem, Los Golfos, límpido retrato da delinqüência juvenil em Madri que foi exibido no Festival de Cannes de 1959, introduzindo seu nome no circuito internacional. Já seu próximo trabalho, O Pistoleiro sem Lei e sem Alma (1963), um relato picaresco da figura de um fora-da-lei do século XIX, foi mutilado pela censura.

Pressionado por este problema político, Saura parte para a alegoria e o simbolismo, que dão o tom desta nova fase de sua obra, a partir de La Caza (1965) - inédito no circuito comercial brasileiro. Temas como a família, a memória e os efeitos daninhos do puritanismo e da repressão permeiam seus novos filmes: Peppermint Frappé (Urso de Prata no Festival de Berlim); Stress es Tres, Tres (1968); La Madriguera (1969).

El Jardin de las Delicias (1970) será o primeiro filme a evocar diretamente a Guerra Civil Espanhola, desafiando o silêncio imposto pelo franquismo sobre a virulência de sua vitória sobre os republicanos, em 1939. A Prima Angélica (1973) - Prêmio do Júri no Festival de Cannes - vai mais longe, ousando colocar em primeiro plano o ponto de vista de um vencido naquela guerra que dividiu tão fragorosamente a Espanha. Este é, também, o período em que sua então esposa, Geraldine Chaplin, será sua atriz-fetiche, atuando em oito de seus filmes.

Cria Cuervos (1975) marca o início de uma fase de grande repercussão internacional e também de um período em que Saura será o roteirista de seus trabalhos. Quase tão forte será o impacto de Elisa, Vida Minha (1977), onde os temas da criação, memória e morte se entrelaçam profundamente.

A morte de Franco, em 1975, abre um período de grande liberação para a Espanha. Livre do peso da censura, o diretor aborda sem rodeios os temas políticos em Olhos Vendados (1978), Mamãe Faz 100 Anos - indicado ao Oscar de filme estrangeiro - e Doces Momentos do Passado (1981).

Superado o capítulo franquista, Saura renova sua energia criativa em outras direções, retomando a via do realismo social em Deprisa, Deprisa (1981), com o qual vence o Urso de Ouro no Festival de Berlim. A seguir, mergulha na inspiração vital da dança flamenca, uma das raízes mais profundas da hispanidad, a partir do poderoso Bodas de Sangue (1981), inspirado na peça de Federico García Lorca.

Carmen (1983) redescobre o encanto imortal da bailarina cigana criada por Prosper Merimée e vence o troféu de Melhor Contribuição Artística do Festival de Cannes, além de obter para o diretor a sua segunda indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro. O Amor Bruxo (1986) completa a trilogia flamenca, composta com a decisiva parceria do bailarino Antonio Gades.

Se a veia política não se esgotou e brota com um misto de contundência e sentido de humor em Ai, Carmela! (1990), a dança ressurge em diversos trabalhos de plasticidade e energia eletrizantes, onde o diretor desafia as fronteiras entre a ficção e o documentário: Sevillanas(1992), Flamenco (1995) e Tango (1998, nova indicação ao Oscar de filme estrangeiro). E a pintura que ele descortinou tão cedo com a assistência do irmão merecerá um clássico como Goya (1999), em que a crônica dos últimos dias de um dos maiores pintores da Espanha dá oportunidade a uma recriação de sua obra pelos meios técnicos mais apurados e distintos - inclusive a genial reconstituição da série Os Desastres da Guerra pela arte teatral do grupo La Fura del Bals.

Aos 72 anos, se está longe de ser uma unanimidade, Saura é, com certeza, um dos artesãos mais completos da cinematografia mundial.

Neusa Barbosa


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