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Roman Polanski supera pesadelos na vida e nas telas

Publicado em 18/03/04 às 21h02

imagem É impossível separar o cinema de Roman Polanski de sua vida pessoal. Cercado de polêmicas e tragédias, o cineasta fez de seus pesadelos uma válvula de escape no trabalho. Mesmo enfrentando problemas que teriam feito muitos desistirem, o cineasta nunca parou de produzir. Bem verdade que sua carreira registrou altos e baixos em originalidade e qualidade, mas ressurgiu em 2002, com O Pianista.

Desde cedo, Polanski enfrentou perdas e sofrimentos. Dois anos antes do início da II Guerra Mundial, seus pais abandonaram a França e foram para a Polônia, onde acabaram perseguidos por serem judeus e enviados para o campo de concentração de Auschwitz, onde sua mãe acabou morrendo.

O menino Polanski conseguiu fugir e se refugiou na região rural da Polônia, onde conseguiu abrigo com várias famílias católicas. E mesmo numa época em que a maioria das pessoas ignorava o cinema, que mostrava em sua maior parte filmes alemães, o futuro diretor não se preocupava com a nacionalidade dos filmes e assistiu a tudo o que pode.

Foi só em 1945, com o fim da guerra, que Polanski voltou a se reunir com o pai, que o matriculou numa escola técnica. Porém, decidido a seguir carreira no cinema, o rapaz começou a atuar e estreu nas telas, em 1955, no filme Pokolenie, de Andrzej Wajda. Mas foi na escola de cinema de Lodz que Polanski começou a trabalhar como diretor. Seu primeiro curta, Bicicleta, foi feito com filmes coloridos cedidos por uma estudante de fotografia. Durante a revelação, os negativos foram extraviados, indo parar na União Soviética.

Durante seus estudos em Lodz, Polanski produziu diversos curtas, a maioria deles muito experimentais. Para Vamos Arrombar a Festa, ele organizou um baile de alunos de Lodz e, sem ninguém saber, contratou um bando de hooligans para invadir a festa. O resultado é uma mistura de ficção e documentário, que acabou lhe criando problemas com a direção da escola..

Seu primeiro projeto de longa, Faca na Água, foi recusado, de início, pela comissão selecionadora do Ministério da Cultura polonês por não apresentar uma temática social. Eram os tempos do comunismo e todas as formas de expressão artísticas deveriam estar a serviço do partido. O longa acabou sendo um sucesso, ganhou um prêmio em Veneza e indicação para o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Após sua bem-sucedida estréia, Polanski se mudou para Paris, onde se tornou amigo de Gerard Brach, com quem trabalharia posteriormente em Repulsa ao Sexo e Armadilhas do Destino, rodados na Inglaterra e premiados no Festival de Berlim com os Ursos de Prata e de Ouro, respectivamente. Ainda em Londres, o diretor fez seu primeiro filme produzido por capital americano, A Dança dos Vampiros. Além de dirigir e escrever o roteiro, Polanski atuou. Foi nessa produção que conheceu a atriz Sharon Tate, com quem se casaria.

Mas foi em 1968 que o cineasta deu um passo decisivo na carreira, quando foi para Hollywood e dirigiu O Bebê de Rosemary. O filme foi um sucesso de crítica e bilheteria, se tornando um marco no cinema de terror, estabelecendo um gênero que teria seguidores como O Exorcista e Carrie, a Estranha.

Porém, o brutal assassinato de Sharon Tate, grávida de oito meses, pela gangue de Charles Mason, traumatizou de tal forma o cineasta que ele preferiu abandonar o país e voltar para a Europa. Ele só retornaria aos EUA em 1974, para dirigir Chinatown. Saiu de lá fugido com a denúncia de que teria violentado uma menina de 13 anos numa festa na casa de Jack Nicholson. Polanski passou alguns dias na cadeia, mas foi solto para tratamento psiquiátrico. Buscando refúgiu na Europa, o diretor nunca mais voltou para os Estados Unidos, onde tem a prisão decretada até hoje.

Em 1979, trabalhou na adaptação do romance Tess, de Thomas Hardy. O filme, estrelado pela jovem Nastassja Kinski, surgiu de uma idéia dada por Sharon Tate, que lera o livro pouco antes de morrer. O filme é considerado atípico em sua obra. É um romance de época, que se passa numa região campestre. Na ocasião, o diretor comentou que se sentiu seduzido pelo tema da inocência traída e a influência da casualidade do destino. Tess fez um relativo sucesso, recebendo diversos prêmios, como o César de melhor Filme, Direção e Fotografia e o BAFTA de fotografia. Também rendeu ao diretor indicação ao Globo de Ouro e ao Oscar.

Na década de 1980 Polanski se exilou na França, realizando poucos e pequenos filmes, como Lua de Fel e Busca Frenética, no qual conheceu Emmanuele Seigner, com quem se casou.

Contradizendo a opinião de muitos críticos, o diretor conseguiu dar um novo ânimo em sua carreira. Em 2002, ganhou a Palma de Ouro em Cannes, por O Pianista. O filme, embora não seja autobiográfico, repassa diversas experiências enfrentadas por Polanski durante a II Guerra. No Festival do Rio, em 2002, o cineasta disse que tudo o que tinha feito até então fora uma preparação para este filme. Mas foi categórico ao dizer que está não é sua autobiografia. "Usei minhas memórias e material da época, mas jamais quis fazer a minha biografia", declarou.

Além do prêmio em Cannes, O Pianista deu para Polanski o Oscar de Melhor Diretor, em 2003. E embora não pudesse ir receber a estatueta - sob a ameaça de ser preso - o prêmio foi lhe entregue meses depois por Harrison Ford. Atualmente, o cineasta trabalha em uma adaptação do livro Oliver Twist, do escritor inglês Charles Dickens.

Alysson Oliveira


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