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Cate Blanchett, entre fantasmas e rainhas

Publicado em 04/03/04 às 18h21

imagem Há alguns fantasmas na vida da australiana Cate Blanchett, como ela mesma admite. O primeiro deles é o do pai, que morreu quando ela tinha apenas 10 anos. Por muito tempo, a garota insistiu que ainda o via. Depois, na escola primária que freqüentou, havia uma torre inacessível para os alunos e uma lenda sobre o local. Uma menina se atirara do topo e acabou morrendo. Mais tarde, já na faculdade, assistindo a um programa de TV, ela descobriu que um moça havia sido morta em seu quarto alguns anos antes. Embora ela e uma amiga tenham tentado fazer um contato paranormal com a vítima, tudo foi em vão. Mas o maior fantasma que Cate foi obrigada a enfrentar foi o da rainha Elizabeth I.

Em 1998, quando conseguiu o papel da Rainha Virgem, que desempenhou no filme Elizabeth, a virtualmente desconhecida Cate tinha em mente que seu trabalho seria comparado ao de ícones como Bette Davis e Glenda Jackson, que representaram a mesma monarca com maestria. Porém, não se intimidou. Mergulhando na personagem, conseguiu uma performance arrebatadora, que lhe valeu uma indicação ao Oscar. Mas, acima de tudo, consagrou-se como uma intérprete versátil e determinada.

Em 1999, Cate perdeu o Oscar para Gwyneth Paltrow, mas ironicamente, sua carreira foi mais meteórica e bem administrada do que a da colega oscarizada. Vindo de uma sólida formação de teatro, já havia conquistado diversos prêmios na Austrália, entre eles o da crítica teatral de Sydney, em 1993. Porém, mais interessada em fazer um bom trabalho do que ganhar prêmios, a jovem já havia chamado a atenção de Hollywood em 1997, quando estrelou ao lado de Ralph Fiennes o drama Oscar & Lucinda. Totalmente produzido na Austrália, o filme não fez sucesso em outros lugares, mas apresentou Cate ao mundo.

Depois de Elizabeth vieram uma série de pequenos papéis com os quais Cate conseguiu roubar cenas de muitos atores consagrados. Em O Marido Ideal (1999) ela esteve ao lado de Julianne Moore, Jeremy Northan e Rupert Everett; em Alto Controle (1999), com John Cusack, Billy Bob Thornton e Angelina Jolie. Mas foi em O Talentoso Ripley (1999), contracenando ao lado de Gwyneth (aquela que lhe roubou o merecido Oscar), que Cate conseguiu mostrar como a Academia errou feio na hora de conceder o prêmio. Embora nenhuma das duas dividam as cenas, toda vez que Cate está na tela tudo se ilumina, numa interpretação precisa e profunda da milionária expatriada Meredith Logue.

Mostrando segurança em seu trabalho, Cate transita entre diversos gêneros sem dificuldades. Logo após ter vivido uma sensitiva, assombrada com visões de um assassinato no suspense gótico O Dom da Premonição (2000) - onde com certeza usou sua experiência anterior com o sobrenatural - , brilhou ao lado de Bruce Willis e Billy Bob Thornton na comédia Vida Bandida (2001). Neste filme ela é uma entediada dona de casa que se envolve com dois famosos bandidos em busca de adrenalina e carinho. Além disso, mostrou seus dotes vocais cantando músicas como Holding out for her' e Walk on By, que ficou imortalizada na voz de Aretha Franklin.

Porém outra nobre também estava destinada ao talento de Cate. Quando aceitou participar da trilogia O Senhor dos Anéis, no papel da rainha élfica Galadriel, a atriz levou consigo o seu talento e beleza para um mundo tão masculino como é o universo ficcional de Tolkien. É inesquecível a sua participação em A Sociedade do Anel (2001), quando ela mostra ao pequeno Frodo o destino daqueles que sucumbem ao poder do anel.

Sem rompantes de vaidade, a atriz não pensa duas vezes em sacrificar-se pelo personagem. Tanto que para o filme Paraíso, do alemão Tom Tykwer, raspou completamente os cabelos. No longa, Cate é uma terrorista involuntária que conta com a ajuda de um policial (Giovanni Ribisi) para fugir da polícia.

Após ter cumprido sua missão em O Senhor dos Anéis, a atriz voltou a se dedicar a projetos menores e mais intimistas, como O Custo da Coragem (2003), no qual interpreta Veronica Guerin, jornalista irlandesa assassinada por ter confrontado o tráfico de drogas. Dividindo seu tempo entre a família em Londres e gravações em Hollywood, em 2003 Cate rodou The Aviator, dirigido por Martin Scorsese, com Leonardo DiCaprio e Kate Beckinsale. Nesta biografia do milionário Howard Hughes, a atriz interpreta uma outra espécie de rainha, desta vez a do cinema, Katharine Hepburn.

Parece que Cate descobriu como usar o cinema para superar seus medos e fantasmas. Em Desaparecidas (2003), havia uma cena em que uma enorme aranha escalava a saia da personagem de Cate. Como tinha um medo mortal de aracnídeos, a atriz se recusava a fazê-la. Porém, Ron Howard conseguiu convencê-la do quanto inofensiva era aquela aranha. Ironicamente, a cena acabou cortada na montagem final do filme.

O ano de 2004 promete para Cate Blanchett. Além de The Aviator, ela também está em The Life Acquatic, de Wes Anderson. Mas a grande realização do ano será seu segundo filho com o diretor e roteirista Andrew Uptown, como quem é casada desde 1997. Seu primeiro filho, Dashiell, ganhou o nome em homenagem ao escritor Dashiell Hammet . Com ou sem fantasmas, a verdade é que Cate Blanchett é sempre bem-vinda às telas, mostrando seu talento e charme inegáveis.

Marido: John Uptown
Filho: Dashiell John Uptown Prêmios no cinema: Globo de Ouro de Melhor Atriz em Drama e indicação ao Oscar de Melhor Atriz (1999), por ElizabethCuriosidade na filmografia: Estrelou quatro filmes que têm nomes de mulher no título: Thank God He Met Lizzie (1997), Elizabeth (1998), Charlotte Gray (2001) e Veronica Guerin (2003, que no Brasil recebeu o título O Custo da Coragem)

Cineweb - 04/03/2004

Alysson Oliveira


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