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A fantasia na vida e na obra de Tim Burton

Publicado em 19/02/04 às 19h24

imagem A vida de Tim Burton se parece com o roteiro de um de seus filmes. A começar por seu tipo físico: só se veste de preto, tem os cabelos desgrenhados e um olhar tristonho. O filme Tim Burton por Tim Burton poderia começar quando, aos 12 anos, fugiu da casa dos pais para viver com a avó. Passou a maior parte da infância enfurnado dentro de casa fazendo desenhos e vendo filmes de Vincent Price, que mais tarde se tornaria seu ídolo e ator de um de seus filmes (Edward Mãos-de-Tesoura). Quando adolescente ganhou um prêmio da companhia de coleta de lixo por desenhar um cartaz para a empresa.

Parece incrível mas o início de sua carreira aconteceu na Disney. Burton foi trabalhar no estúdio após estudar animação no California Institute of the Arts. Embora tenha feito alguns trabalhos seguindo os padrões do estúdio, como A Raposa e o Cão, de 1981, o animador logo percebeu que aquele não era o tipo de filme que tinha em mente. E acabou convencendo a Disney a dar-lhe uma chance de fazer um filme a seu modo. Burton produziu o curta Vincent (82), de 6 minutos, uma homenagem a seu ídolo Vincent Price, ícone do cinema de terror. Mais tarde trabalhou em Frankenweenie (84), uma animação baseada em Frankenstein que nunca estreou, porque foi considerada forte demais para crianças.

Quando o ator Paul Reubens, mais conhecido como Pee-Wee Herman, assistiu ao curta Frankenweenie decidiu que Burton era a pessoa certa para dirigir a sua estréia no cinema, em A Grande Aventura de Pee-Wee (85). O filme foi um sucesso de público, o que ajudou o diretor a conseguir verba para seu projeto seguinte, a comédia sobrenatural Os Fantasmas Se Divertem (88).

Em 1989, o cineasta acabou aceitando a oferta da Warner para dirigir Batman (89), estrelado por Michael Keaton e Jack Nicholson. O filme foi um estrondoso sucesso de bilheteria e, embora fosse o menos autoral de Burton, acabou lhe dando carta branca para produzir um de seus trabalhos com maior apelo visual: Edward Mãos-de-Tesoura (90) . Este foi o primeiro longa de Burton estrelado por Johnny Depp, e marcou o início de uma longa amizade e parceria entre os dois.

Anos depois voltaram a se reunir em Ed Wood (94), um filme parte cinebiografia, parte homenagem do diretor a Ed Wood, considerado o pior cineasta de todos os tempos. No filme, inteiramente rodado em preto e branco, Johnny Depp interpreta o protagonista, cujo hobbie preferido é se vestir de mulher. Este longa marca o retorno de Burton a seus projetos mais pessoais, depois do sucesso de Batman Eternamente, que, aliás, não agradou muito ao estúdio Warner. Ed Wood concorreu à Palma de Ouro em Cannes.

Ainda fazendo homenagens ao cinema e usando a metalinguagem, Burton escreveu e dirigiu Marte Ataca! (96), uma comédia de ficção-científica que fazia referência às fantasias dos anos 50 sobre as invasões alienígenas. Usando poucos efeitos e muitas trucagens de câmera, esse é um filme que provavelmente deixaria Ed Wood orgulhoso. Seu elenco trazia sua então noiva, Lisa Marie, com quem manteve um relacionamento até 2001, quando conheceu Helena Bonham Carter.

Seu projeto seguinte é um de seus filmes mais sombrios: A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (99). Retomando a parceria com o amigo Depp, Burton adaptou e dirigiu o popular romance de fantasia americano The Legend of Sleep Hollow. Dando asas à imaginação, Burton criou um filme de aspecto gótico, escuro e fascinante. Inegavelmente, ele é um dos diretores americanos que mais ousa no apelo visual em seus filmes.

Muitos críticos acusaram Burton de ter se vendido para os grandes estúdios quando dirigiu em 2001 o remake de Planeta dos Macacos. O filme estrelado por Mark Wahlberg foi um fracasso de crítica e rendeu apenas 180 milhões de dólares, tendo custado mais 100. Os fãs do cineasta ficaram decepcionados com as mudanças de rumo em sua carreira, por ter abandonado seus filmes autorais e feito uma obra bem comercial. No entanto, Burton não saiu perdendo com o projeto. Foi durante as filmagens que conheceu Helena Bonham Carter, com quem se casou e teve um filho em 2003.

Embora o filme seguinte Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas (2003) não fosse escrito por Burton, é, de certa forma, seu retorno ao território da fantasia. Com um roteiro de John August, baseado no romance de Daniel Wallace, o diretor pode fazer um filme de alto impacto visual, repleto de personagens estranhos mas cativantes. E além de tudo, um filme que toca fundo sua vida pessoal. O diretor perdera os pais nos últimos três anos, sem ter se reconciliado. Por isso, a história do filho que volta para reencontrar o pai moribundo acaba sendo um dos trabalhos mais pessoais de Burton.

Mesmo que involuntariamente, o filme se transformou numa catarse para o diretor. Recentemente declarou à revista Première norte-americana ter mais coisas em comum com o filho de Peixe Grande do que imaginava. "Meu pai era um cara legal. Todo mundo gostava dele. Por que tenho esse tipo de problemas de relacionamento com ele?". Exatamente o tipo de conflito que cerca a vida de William, personagem do filme.

Burton assinou também o remake de A Fantástica Fábrica de Chocolate, que foi produzido por Brad Pitt e sua então mulher Jennifer Aniston e marcou a retomada da parceria entre o cineasta e seu amigo Depp. O ator fez o papel do excêntrico milionário dono da fábrica de chocolate. Depp voltou a protagonizar o trabalho seguinte do diretor, Sweeney Todd, uma adaptação do musical-shock da Broadway sobre um barbeiro muito louco.

Curiosidades
Prêmios: Nunca foi indicado ao Oscar como diretor; em 1995, concorreu à Palma de Ouro em Cannes, com Ed Wood, mas perdeu para Underground, de Emir Kusturica
Marcas Registradas: Gosta de começar seus filmes com a câmera seguindo ou atravessando alguma coisa; adora palhaços nos seus filmes
Parceiros profissionais mais freqüentes: Johnny Depp (ator), Danny Elfman (compositor)

Cineweb - 19/02/04

Alysson Oliveira


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