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Clint Eastwood no auge da forma

Publicado em 17/12/02 às 14h08

imagem Não é todo dia que se passa dos 70 anos com seu charme intocado e o prestígio profissional e pessoal em alta - ainda mais na selva de Hollywood. Mas este é, exatamente, o caso de Clint Eastwood, um dos mais impávidos durões que Hollywood deu ao mundo, que chega aos 75 anos no auge da forma como ator e diretor, acabando de embolsar seu segundo Oscar como diretor por Menina de Ouro (o primeiro, há 13 anos, foi por Os Imperdoáveis).

Hollywood, a bem da verdade, não descobriu imediatamente o potencial deste filho de um frentista de posto de gasolina que cresceu nos anos duros da Grande Depressão. Depois de pequenos papéis em filmes B como A Revanche do Monstro e Tarântula, alguns executivos do estúdio Universal acharam que era hora de mandá-lo passear. O ator até desfrutou de um modesto sucesso na TV, no seriado Rawhide. Mas estava na Itália, mais precisamente nos western spaghetti, a grande chance para, finalmente, tornar-se um astro.

O diretor Sergio Leone procurava um ator de boa figura para atuar em Por Um Punhado de Dólares. Mas a sua caça de talentos na América parecia fadada ao fracasso por conta do pequeno cachê oferecido, cerca de US$ 15 mil dólares. Isto e mais a probabilidade de correr o risco de um fiasco em outro país não entusiasmou ninguém - exceto Clint. Do alto de seu 1,92 m e de seu físico malhado de ex-instrutor de natação e fuzileiro naval, ele aceitou. Afinal, uma pequena aventura na Itália não era nada para quem já tinha sobrevivido a um desastre de avião no Oceano Pacífico e sido dado como morto em ação na guerra da Coréia. Ele sabia que sobreviveria a Sergio Leone.

A epopéia italiana deu tão certo que Por Um Punhado de Dólares (64) teve duas seqüências, Por Alguns Dólares a Mais (65) e Três Homens em Conflito (66). A trilogia foi um tremendo sucesso de bilheteria, rendendo mais de US$ 200 milhões, e Leone e Clint ganharam seu conceito e independência para tocar a vida adiante.

Na pele de um tipo de herói taciturno, valente e com poucos amigos, Clint encontrou seu destino artístico. Outro personagem que lhe caiu tão bem quanto o justiceiro sem nome que encarnava nos faroestes foi Harry Callaghan, mais conhecido como Dirty Harry, fruto da associação do ator com outro diretor, Don Siegel. A saga deste policial de San Francisco sempre disposto a passar por cima das regras para caçar os criminosos começou em 71, com Perseguidor Implacável. Mais uma vez, o sucesso gerou seqüências, neste caso, quatro em 17 anos: Magnum 44 (73), Sem Medo da Morte (76), Impacto Fulminante (82) e Dirty Harry na Lista Negra (88).

Os anos 80, em todo caso, estavam destinados a ser a época em que o reconhecimento ao talento de Clint finalmente viria de círculos mais refinados. Em 80, o MOMA, Museu de Arte Moderna de Nova York, homenageou-o com uma retrospectiva de seus filmes. Em 88, era a vez de outra retrospectiva, esta na Cinemateca francesa, com direito a um título de Cavaleiro das Artes e Letras, concedido ao durão americano pelo governo francês. Na cola deste êxito, Clint resolveu tentar a sorte em outro campo: a política. Novamente, um tiro certeiro. Foi, por dois anos (86-88), o prefeito republicano da bucólica cidadezinha litorânea de Carmel, na Califórnia.

Mas o cinema ainda o chamaria de volta. Com o dinheiro que lhe rendeu Dirty Harry, Clint conseguiu a independência necessária para dar vida a projetos bem pessoais e numa área inteiramente diversa: o jazz, uma de suas grandes paixões. Assim, em 88, ele dirigiu Bird, uma sensível biografia do saxofonista Charlie Parker, interpretado com intensidade pelo ator Forest Whitaker. O filme ganhou uma indicação ao Oscar de melhor som, mas ainda faltou reconhecimento ao trabalho ímpar tanto de Eastwood como de Whitaker.

Quem pensou que estava neste filme o máximo de Clint, errou feio. Quatro anos depois de Bird, ele ainda faria uma façanha mais improvável, injetar sangue novo num gênero que todos acreditavam morto, o faroeste. Em 92, lançou Os Imperdoáveis, trabalho que levou quatro Oscar, inclusive os mais cobiçados, de filme e diretor. Fora isso, continuou firme no posto de herói preferencial, como xerife em Um Mundo Perfeito (93), segurança do presidente americano em Na Linha de Fogo (93), sem contar o papel mais romântico de sua vida, como o fotógrafo que balança o coração de uma mulher casada em As Pontes de Madison (95), que ele também dirigiu.

Falando em romance, sua vida amorosa complicada revela que este bravo tem um coração apaixonado. Casado em 54 com Maggie Johnson, teve uma filha, Kimber, com outra mulher (a atriz Roxanne Tunis). Mesmo depois desta história, ele e Maggie tiveram dois filhos, Kyle e Alison (ela mesma atriz de filmes do pai, como Poder Absoluto). O casamento com Maggie ainda sobreviveu até os anos 70, quando Clint iniciou um caso que duraria dez anos com Sondra Locke - uma parceria amorosa que se traduziu em profissional, com o casal atuando lado a lado em filmes como Rota Suicida e Bronco Billy.

Mesmo que Clint e Sondra nunca tenham oficializado sua união no papel, a separação também foi traumática e acabou num tribunal, acarretando a perda de alguns milhões de dólares ao velho caubói - exatamente como no divórcio de sua primeira mulher. Apesar de todos estes percalços, o velho coração não se emenda. Depois de Sondra, ele já esteve ligado a Frances Fisher, que estrelou Os Imperdoáveis, tendo mais uma filha, Francesca (o mesmo nome da heroína de As Pontes de Madison, vivida por Meryl Streep). Separado mais uma vez, Clint uniu-se a uma jornalista 35 anos mais nova, Dina Ruiz, e teve outro filho, Morgan.

Na vida profissional, o 70o. aniversário também não deu ao ator e diretor o pretexto de pensar em aposentadoria, mesmo depois de já ter dirigido 26 filmes. Ultimamente, ele vem se dedicando mais a obras de suspense, policiais e dramas cada vez mais densos, como Poder Absoluto, Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, Crime Verdadeiro, o cômico Cowboys do Espaço - em que ironiza a própria idade avançada ao lado de um elenco igualmente veterano -, Dívida de Sangue e os extraordinários Sobre Meninos e Lobos, que deu Oscar a Sean Penn e Tim Robbins em 2004, e Menina de Ouro, vencedor de outros quatro Oscar em 2005 (filme, diretor, ator coadjuvante e atriz).

Agora, o incansável "velhinho", ocupa-se da pré-produção de seu próximo projeto, Flags of Our Fathers.

Neusa Barbosa


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