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Para sempre Julianne Moore

Publicado em 21/02/15 às 12h35

Apelidada durante a infância de “morango sardento”, Julie Anne Smith, a garota que se mudava de cidade ou de país constantemente, transformou em literatura, quando adulta, o bullying que sofreu nas várias escolas por onde passou. Seu livro infantil Morango Sardento (Freckleface Strawberry) foi adaptado em um musical da Broadway e se transformou em uma série literária, com mais duas publicações. Não, essa não é apenas a história de superação de uma escritora, mas de uma das atrizes mais renomadas de Hollywood, que tem a escrita como uma atividade paralela à sua arte de atuar.
 
A famosa ruiva em questão é Julianne Moore, cuja atuação em Para Sempre Alice (2014), como a professora especialista em linguística que é surpreendida por um precoce mal de Alzheimer, lhe rendeu o seu primeiro e muito merecido Oscar. Mas se só na pele de Alice Howland ela finalmente levou a estatueta para casa, não é por sua culpa. Não é preciso forçar a memória para lembrar as muitas personagens marcantes que interpretou, principalmente mulheres no tênue limite da fragilidade e da força à beira de um colapso, e que, com todos os méritos, poderiam ter-lhe garantido o prêmio antes: Marian Wyman, Carol White, Amber Waves, Sarah Miles, Cathy Whitaker, Laura Brown, Havana Segrand, entre outras.
 
Mas aquelas que marcaram o início da sua carreira, na realidade, são duas. Depois de se formar em Teatro na Universidade de Boston e tentar a sorte no teatro e na televisão em Nova York, foi, em 1985, com as meias-irmãs Frannie e Sabrina Hughes na novela As The World Turns (1956-2010) que ela teve destaque, chegando a ganhar um Daytime Emmy em 1988, antes de sair da produção. O papel duplo lhe garantiu a presença em outras novelas, telefilmes e suas primeiras participações no cinema, como em Contos da Escuridão (1990), A Mão Que Balança o Berço (1992) e O Fugitivo (1993).
 
Sua grande entrada na sétima arte, porém, foi na coletânea de contos da obra de Robert Altman, Short Cuts – Cenas da Vida (1993), estrelada por um extenso elenco, vencedor de um prêmio especial do júri do Festival de Veneza e do Globo de Ouro. Sua cena chamou atenção no longa, mas não pela nudez, que ali era só um indício da intimidade matrimonial em meio a uma discussão do casal Wyman sobre um caso extraconjugal, mas pelo domínio do texto que ela e Matthew Modine demonstram. Daí, foi um pulo para fazer sua primeira protagonista em Tio Vanya em Nova York (1994), adaptação cinematográfica da peça que encenou anos antes.
 
Para completar o trio de filmes que a firmaram no cinema, veio o tenso drama psicológico Mal do Século (1995), de Todd Haynes, no qual sua interpretação de uma mulher que se diz quimicamente sensível ao meio ambiente poluído do século XX é hipnotizante dentro da interessante estranheza do longa. Mas se Julianne ganhou espaço no cenário independente, também soube abrir caminho em Hollywood em comédias românticas e blockbusters, a exemplo de Nove Meses (1995), O Mundo Perdido: Jurassic Park (1997) e O Mito das Digitais (1997), este último dirigido por Bart Freundlich, que viria a ser seu segundo marido – o primeiro foi o ator John Gould Rubin – e pai de seus filhos Caleb, 17, e Liv Helen, 12.
 
Em 1998, recebeu sua primeira indicação ao Oscar com a Amber Waves de Boogie Nights: Prazer Sem Limites (1997), uma estrela pornô veterana que busca restabelecer a relação com o filho, no segundo trabalho do então desconhecido Paul Thomas Anderson. Ela viria a repetir a frutífera parceria com o diretor dois anos depois, em Magnólia (1999). Neste ínterim, entre as várias produções em que esteve envolvida, estão o cult O Grande Lebowski (1998), dos irmãos Coen; Psicose (1999), o remake fracassado de Gus Van Sant; e Fim de Caso (1999), de Neil Jordan, pelo qual foi indicada novamente ao prêmio da Academia vivendo Sarah Miles, uma esposa dedicada que se encontra com seu antigo amor.
 
No entanto, se nunca havia sido agraciada na premiação, a edição de 2003 prometia ser inesquecível para Moore, ao ser duplamente indicada. Uma delas como Melhor Atriz Coadjuvante em As Horas (2002), pelo qual havia recebido o Urso de Prata no Festival de Berlim, dividido com Meryl Streep e Nicole Kidman pela atuação do trio no longa de Stephen Daldry, que conecta a vida de Laura Brown e outra leitora com a da escritora Virginia Woolf. A outra foi como Melhor Atriz no melodrama Longe do Paraíso (2002), outra parceria dela com Haynes, que lhe rendeu prêmios em Veneza pela sua interpretação da Sra. Whitaker, dona de casa dos anos 1950 que vê seu casamento perfeito desmoronar quando descobre que seu marido é gay, tendo de enfrentar também o racismo da época ao encontrar um ombro amigo. Porém, mais uma vez, ela foi esnobada pela Academia.
 
A ruiva seguiu sua carreira, alternando filmes bons e ruins, grandes ou pequenas produções: Hannibal (2001), Leis da Atração (2004), Filhos da Esperança (2006), Não Estou Lá (2007) e Ensaio Sobre a Cegueira (2008) – adaptação do brasileiro Fernando Meirelles para a obra-prima do português José Saramago – são alguns deles. Uma curiosidade é que neste período, Moore rodou o longa Pecados Inocentes (2007), baseado em uma história real de incesto e assassinato, com o então novato Eddie Redmayne fazendo seu filho e, anos depois, os dois seriam os principais favoritos às categorias principais do Oscar.
 
Sua nova retomada nas temporadas de premiações ocorreu na última década, começando com o drama Direito de Amar (2009) e a comédia indie Minhas Mães e Meu Pai (2010), pelos quais recebeu sua quinta e sexta indicações ao Globo de Ouro, respectivamente. Contudo, só veio a ganhar, individualmente, o prêmio em 2013 por um trabalho na TV: o telefilme Virada no Jogo (2012), com o qual faturou também um Primetime Emmy por dar vida a Sarah Palin, candidata republicana à vice-presidência dos Estados Unidos em 2008. Enquanto isso, aparecia nas salas de cinema em Amor a toda Prova (2011), Pelos Olhos de Maisie (2012), Como Não Perder Essa Mulher (2013), Carrie, a Estranha (2013), Sem Escalas (2014) e Jogos Vorazes : A Esperança – Parte 1 (2014).
 
Mas foi com a traumatizada e histérica atriz Havana Segrand no mais novo filme de David Cronenberg, Mapas para as Estrelas (2014), e com o drama da linguista com Alzheimer que Julianne alcançou o reconhecimento que lhe faltava. Pela primeira brilhante interpretação, que para alguns é a melhor dela no ano, recebeu o prêmio de interpretação em Cannes, consagrando-se como a segunda atriz na história, depois de Juliette Binoche, a ganhar os três grandes festivais. Mas é pela sua atuação em Para Sempre Alice, também excelente na medida em que consegue equilibrar as emoções da personagem sem ser piegas, que ela conquistou sua quinta indicação na Academia, o Globo de Ouro, o SAG’s, etc.
 
Como sua vitória era praticamente certa, as distribuidoras programaram uma espécie de “maratona Julianne Moore” nas semanas seguintes à premiação, para aproveitar o burburinho. O ácido longa de Cronenberg estreia no Brasil no próximo dia 26, enquanto a esperada história de Alice e a postergada fantasia O Sétimo Filho (2014) serão lançados em 12 de março. E, antes da atriz completar 55 anos no dia 3 de dezembro, ainda virão mais três produções estreladas por ela: a cinebiografia Freeheld, a comédia Maggie’s Plan e mais uma participação como a Presidente Alma Coin no capítulo final da saga Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 2.
 
E, por fim vale a pergunta: como ela consegue se desdobrar em tantas e tão bem? A explicação, segundo a própria atriz, está justamente nas constantes mudanças da família durante sua infância, indo do Alasca ao Panamá, da Virgínia à Alemanha. Para a filha de um juiz militar e uma escocesa, essa vida itinerante deu a ela a capacidade de se reinventar, de se tornar mutável dependendo do ambiente, que ela iria usar em seu trabalho.

Nayara Reynaud


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