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Amy Adams: a Poliana das telas

Publicado em 24/07/13 às 18h55

Ela exibe um sorriso marcante, traço do otimismo e da inocência de seus personagens. Assistindo aos filmes Retratos de Família (2005) ou Encantada (2007), é fácil perceber que não há melhor atriz em Hollywood para interpretar essas “Polianas modernas” do que Amy Adams. Talvez porque, assim como a órfã Poliana (ou Pollyana) do clássico de 1913 de Eleanor H. Porter, a estrela de Homem de Aço (2013) também teve de manter o otimismo e fazer o jogo do contente ao passar por várias desventuras até chegar ao sucesso de hoje.

A atual Lois Lane se sente realizada por interpretar personagens e atuar em trabalhos com os quais sonhava durante a infância, um período muito peculiar na vida dela. A exemplo de Retratos, Adams também viveu em uma família com as suas excentricidades. Nasceu em uma base militar norte-americana em Vicenza, na Itália. Seu pai era militar e levou a mulher e os sete filhos de base em base, até se estabelecer em Castle Rock, no Colorado, quando ela tinha 8 anos. A família era mórmon, mas saiu da igreja quando seus pais se separaram. Depois disso, seu pai virou cantor de restaurante e sua mãe, fisiculturista semiprofissional – sem falar no irmão Eddie, que trabalhou no programa de fofoca TMZ.

Fato é que nada caiu do céu para Amy. Logo que terminou o colégio, foi trabalhar como recepcionista em um restaurante da rede Hooters para conseguir comprar o seu primeiro carro. Quando completou 18 anos, para aumentar o salário, inocentemente, tornou-se uma das famosas garçonetes da rede, conhecidas por usarem roupas sensuais e patins. Mas a empolgação acabou rapidamente, ao perceber que shorts curtos e cerveja não combinam, e três semanas depois, com dinheiro suficiente para comprar um automóvel, largou o emprego. Saiu de lá com experiência para trabalhar como recepcionista na GAP, famosa loja de varejo dos EUA, onde, um dia, a ingênua garota não reconheceu a cantora Whitney Houston.

Era o salário da GAP que sustentava as aulas de teatro musical da menina que cresceu querendo ser bailarina, mas, ao se tornar adulta, viu que os palcos lhe reservavam outra coisa. Seu início na carreira artística foi nos dinner theaters do estado de Minnesota, locais que são tanto restaurante quanto casa de shows, onde atuava e dançava em vários espetáculos – apesar de ter começado no teatro, ela só voltou aos palcos 13 anos depois, quando esteve na montagem de Into the Woods, realizada no Central Park, em Nova York, em 2012.

Certa vez, Adams teve de dar uma parada nos shows, para se recuperar de uma distensão muscular. Mas a situação ruim, à primeira vista, trouxe algo de positivo: ela teve a chance de participar de um teste para um filme que estava sendo rodado na região e passou. Foi assim que conseguiu seu primeiro papel no cinema, em Lindas de Morrer (1999), e, aconselhada pela colega de elenco Kirstie Alley, partiu para Los Angeles em busca de uma chance em Hollywood.

Entretanto, a terra dos sonhos trouxe muitos pesadelos para a recém-chegada. Amy logo conseguiu um trabalho na versão para a TV do filme Segundas Intenções (1999), que fez sucesso entre o público adolescente. Porém, só foram gravados três episódios da série, que, além de nunca ter ido ao ar, foi editada e transformada pela Fox em um filme lançado diretamente em vídeo, com o nome de Segundas Intenções 2 (2000). Na sequência, fez apenas pequenas participações em séries como West Wing: Nos Bastidores do Poder (1999-2006) Smallville: As Aventuras do Superboy (2001-2011) –, mas quem diria que, mais de uma década depois de atuar na história do garoto Clark Kent, ela se tornaria a amada do Super-Homem.

Quando filmou Prenda-me Se For Capaz (2002), de Steven Spielberg, como o interesse amoroso de Leonardo DiCaprio, parecia que a carreira da jovem atriz iria deslanchar. Só que não. Ela ficou um ano desempregada e só voltou à cena em Dr. Vegas (2004-2005), uma série com carreira muito curta.

Com 30 anos de idade, a balzaquiana começou a repensar a vida. Foi justamente nesse momento que um filme independente, rodado em apenas 21 dias, viria a mudar completamente o seu futuro. Ao terminar Retratos de Família, a otimista Adams estava novamente sem nenhum emprego, mas se sentia feliz pelo trabalho realizado. Não é para menos, pois sua atuação como a sonhadora Ashley lhe rendeu o Prêmio Especial do Júri do Festival de Sundance e o Independent Spirit Award, além do reconhecimento do sindicato dos atores e da Academia, com indicações como melhor atriz coadjuvante no SAG’s e no Oscar, respectivamente.

Esse foi o início da sua “trajetória poliana” nas telonas, que se consolidou com Encantada. Entre as mais de 300 atrizes que concorreram ao papel de Giselle, ela foi escolhida porque, segundo o diretor Kevin Lima, se comprometeu com a personagem ao ponto de não julgá-la. “Eu acho que eu sempre fui atraída por personagens que são positivos e vêm de um lugar muito inocente. Eu penso que há muito espaço para descobrir nesses personagens e eu sempre me divirto interpretando”, declarou a estrela, que depois do sucesso do filme da Disney – cujo rumor de continuação ainda não se tornou realidade –, interpretou uma série de tipos assim, para cima, em A Vida num Só Dia (2008), Julie & Julia (2009), Uma Noite no Museu 2 (2009) e Os Muppets (2011).

E, igual às mocinhas das comédias românticas em que atuou, Muito Bem Acompanhada (2005) e Casa Comigo? (2010), ela também conseguiu encontrar o seu par. Ela conheceu seu noivo, Darren Le Gallo, em uma aula de interpretação, em 2001. Os dois tiveram uma filha, Aviana Olea Le Gallo, em 15 de maio de 2010.

Mas se até a inocência da pura Giselle é maculada com a realidade em Encantada, a positividade dos personagens da sua intérprete também foi, aos poucos, afetada. A possibilidade de que algo tão horrível tenha realmente acontecido abala a fé da freira que Amy dá vida em Dúvida (2008), papel pelo qual foi indicada ao Oscar, ao Globo de Ouro, ao SAG e ao BAFTA. E, a partir daí, a atriz trocou o espírito Poliana para experimentar outras facetas da personalidade humana, como a depressiva Rose, que limpa cenas de crime para manter o filho na escola, em Trabalho Sujo (2008), comédia de humor negro co-estrelada pela amiga Emily Blunt.

O diretor David O. Russell, que em seu último longa mostrou ao público como ver O Lado Bom da Vida (2012), quis algo completamente diferente da atriz em sua produção anterior, O Vencedor (2010). O cineasta disse que pretendia tirar da atriz toda “essa coisa de princesa”. Ele realmente fez isso, dando a ela o papel da namorada agressiva e corajosa do protagonista e proporcionando uma nova indicação aos quatro principais prêmios da temporada.

 

Neste ano, a estrela de Curvas da Vida e Na Estrada (ambos de 2012) repetiu o feito, pela terceira vez, no Globo de Ouro e no BAFTA, e também no Oscar, batendo na trave pela quarta vez com o papel da manipuladora mulher de um líder religioso em O Mestre (2012), de Paul Thomas Anderson. Mas como uma autêntica Poliana, com certeza, ela não se deixa abater e, por isso, continua a fazer seus filmes com a densidade dramática que lhe é habitual. Entre seus próximos trabalhos estão o drama Lullaby (2013), a comédia romântica de Spike Jonze, Her (2013), uma nova parceria com Russell em American Hustle (2013) e seu encontro com o excêntrico diretor Tim Burton, na produção Big Eyes (2014). É a sua maneira de fazer o jogo do contente que lhe revelou que, um dia, sua hora vai chegar.

Nayara Reynaud

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