Perfis

Buñuel, o mestre do surrealismo

Publicado em 31/07/03 às 19h25

imagem Buñuel nasceu em 1900, numa família abastada que lhe propiciou os estudos nas melhores escolas de artes da Espanha. Formado em Filosofia e Letras, queria ser poeta, mas acabou estreando no cinema nos efervescentes anos 20, na companhia do pintor Salvador Dalí. Com ajuda financeira da mãe, dirigiu em Paris o curta Um Cão Andaluz, uma experiência surrealista até as últimas conseqüências.

O objetivo de Buñuel e Dalí era escandalizar as platéias com suas imagens bizarras e desconexas. Numa das cenas iniciais, um bisturi corta ao meio o globo ocular de um cadáver e formigas brotam das mãos de um homem. O diretor assistiu à premiére, em 1928, com os bolsos cheios de pedras, pronto para se defender da ferocidade do público. Mas a reação foi favorável.

Pessimista com o presente e o futuro, vivia em conflito permanente com a razão e a emoção. "Sou católico e ateu, graças a Deus", disse certa vez. Foi um crítico implacável da Igreja Católica, aliada da ditadura franquista, e da burguesia espanhola.

Um Cão Andaluz foi seu único filme inteiramente surrealista. Nem por isso o diretor deixou de utilizar alguns elementos dessa escola em todos os seus trabalhos. É o caso de O Anjo Exterminador (1962), que se passa numa casa de uma família rica cujos membros não conseguem sair do imóvel, presos ao local por alguma força que não conseguem explicar.

Com o início da Guerra Civil Espanhola, viajou para a França e para os Estados Unidos. Não conseguiu bons trabalhos em Hollywood e teve que aceitar projetos modestos. A oportunidade acabou surgindo no México, onde se fixou em 1947. Fez alguns filmes comerciais mas conseguiu também desenvolver um sólido trabalho autoral que projetou seu nome internacionalmente.

São da fase mexicana filmes como Os Esquecidos, um forte drama sobre os meninos de rua da Cidade do México, prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes de 1951, e Nazarín (1958), prêmio internacional em Cannes no ano seguinte.

Em 1960, retornou por pouco tempo a Espanha para filmar Viridiana. O filme, Palma de Ouro em Cannes no ano seguinte, sofreu vários cortes e acabou sendo proibido pela censura franquista. Os espanhóis só puderam vê-lo em 1977.

Sua fase cinematográfica seguinte foi desenvolvida na França. Em 1966, filmou A Bela da Tarde, com Catherine Deneuve, uma bela mulher entediada com sua vida de casada e que passa as tardes trabalhando como prostituta. Em 1972, filma O Discreto Charme da Burguesia, com roteiro de Jean-Claude Carrière, e ganha o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Alfred Hitchcock elogiou o talento de Buñuel dizendo que o diretor espanhol era o melhor e mais modesto de todos os cineastas. Seu último filme foi Esse Obscuro Objeto do Desejo, de 1977. Viveu no México até sua morte, em 1983, onde concluiu sua autobiografia, O Último Suspiro

Luiz Vita


Outros perfis