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Morgan Freeman é “O Cara”

Publicado em 01/05/13 às 19h39

 Se existe alguém que pode ser chamado de “The Man” em Hollywood, sem ninguém se opor, é Morgan Freeman. Ele poderia ser “O Cara” apenas pelo seu excelente trabalho, mas existem outros inúmeros motivos para esse título. Poucos atores, por exemplo, podem se dar ao luxo de ter dois filmes em cartaz ao mesmo tempo – Invasão à Casa Branca e Oblivion (ambos em cartaz no Brasil, simultaneamente, em abril de 2013) – ou de interpretar a si próprio em um filme – mesmo que seja apenas uma sugestão, em Um Astro em Minha Vida (2006).

Parece um destino improvável para o filho de uma professora e de um barbeiro, nascido no dia 1º de junho de 1937, em Memphis, Tennessee. Ainda mais para um neto criado pela avó em Charleston, no Mississippi, e em várias cidades norte-americanas, já que a família se mudava constantemente. Mas o menino que teve seu primeiro emprego como datilógrafo não estava predestinado a ter um futuro comum: aos 12 anos de idade ganhou a competição teatral do colégio, o primeiro dos vários prêmios na carreira desse garoto que se inspirava nos filmes de Gary Cooper.

 No entanto, foi quando se mudou para a Califórnia, no início dos anos 1960, que Morgan passou a se dedicar à carreira artística. Teve aulas de atuação e dança, fez “bicos” como dançarino na Feira Mundial de Nova York de 1964-1965 e uma pequena figuração em O Homem do Prego (1964, foto ao lado). Tudo isso o preparou para sua estreia nos palcos, primeiro fora – em The Nigger Lovers, de 1967 – e depois, dentro da Broadway – na versão de 1968, só com atores negros, de Hello, Dolly!. Ele continuou trabalhando no teatro nova-iorquino, onde concorreu a vários prêmios no final da década de 1970 até meados dos anos 1980, como a indicação ao Tony Awards (o “Oscar” do teatro norte-americano, centrado nas montagens da Broadway) e os quatro Obie Awards (premiação para as peças realizadas fora da Broadway) que faturou. O último deles foi pela primeira montagem de Conduzindo Miss Daisy, em 1987, peça que seria adaptada para o cinema dois anos depois, trazendo o ator novamente no papel do chofer Hoke Colburn.

 Na mesma época, realizou alguns trabalhos na televisão e fez seus primeiros filmes, a exemplo de Who Says I Can’t Ride a Rainbow! (1971, foto ao lado). Na TV, participou do programa infantil The Eletric Company (1971-1977), de séries e de telefilmes, como Death of a Prophet (1981), em que deu vida ao líder do movimento negro Malcolm X. E se o notório ativista tinha a oratória como um dos seus trunfos, também se consagrou com o público como a “Voz da Sabedoria”. Tanto como ele próprio – a exemplo do ainda inédito We The People – quanto através de seus personagens – como o Ellis Boyd ‘Red’ Redding de Um Sonho de Liberdade (1994) –, sua narração marcou diversos trabalhos, no cinema ou na televisão, ficção ou documentário. Aliás, ele narrou duas produções que ganharam o Oscar de melhor documentário em longa-metragem: O Longo Caminho Para Casa (1997) e A Marcha dos Penguins (2005). Além disso, “A Voz” ainda estará na dublagem do futuro The Lego Movie (2014).

 Entretanto, não foi só com seu talento vocal que ele chegou a mais famosa premiação do cinema. Somando uma bela atuação a uma narração certeira e poética no papel do zelador do ginásio de boxe em Menina de Ouro (2004, foto ao lado), de Clint Eastwood, Morgan levou finalmente para casa o Oscar de melhor ator coadjuvante, depois de uma espera de 16 anos. Ele já havia sido indicado outras três vezes: a primeira, em 1988, na mesma categoria, por Armação Perigosa; em 1990 por Conduzindo Miss Daisy e, em 1995, por Um Sonho de Liberdade. Nos últimos dois filmes, foi indicado como melhor ator. E, em 2010, recebeu uma nova indicação como o protagonista de Invictus. O próprio, que já afirmou achar chato assistir as suas performances nas telonas, já brincou dizendo que deveria ter ganhado a estatueta por todos esses papéis.

E a Academia devia tomar cuidado antes de votar, pois se ele é o Cara, é porque não interpreta qualquer um. O ator já esteve na pele do cafetão Fast Black em Armação Perigosa, o pistoleiro Ned Logan do faroeste Os Imperdoáveis (1992), o poderoso gânster “The Boss/O Chefe” de Xeque-Mate (2006) e o misterioso líder da Fraternidade de O Procurado (2008).

 Mas não só destes e de outros tipos duvidosos é pavimentada sua carreira. O astro também deu vida a personagens que combatiam o crime ou injustiças. Ele foi o companheiro de aventuras de Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões (1991) e administrador dos negócios de ninguém menos do que o Batman na franquia mais recente do herói – Batman Begins (2005), Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008) e Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012, foto ao lado). Também interpretou dois ex-escravos: um abolicionista em Amistad (1997) e um militar em Tempo de Glória (1989), que Freeman considera o filme mais importante dos mais de 100 trabalhos que já fez.

Além disso, representou duas vezes um famoso detetive e psicólogo da literatura, o Dr. Alex Cross, em Beijos Que Matam (1997) e Na Teia de Aranha (2001). No primeiro filme, ele perseguia um serial killer, assim como em Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995). E se a tarefa é desvendar mistérios, o ator fará um desmistificador de mágicos em Truque de Mestre, que estreará em junho de 2013. Apesar disso, os segredos de outros dois de seus próximos trabalhos, The Last Knights (2013) e Transcendence (2014), ainda não foram revelados.

 O Cara também está nas altas escalas do poder, especialmente no centro do governo do país mais poderoso do mundo. De diretor da Central de Inteligência (CIA) e braço-direito do comandante dos Estados Unidos em A Soma de Todos os Medos (2001, foto ao lado) para porta-voz que se torna o presidente interino em Invasão à Casa Branca, Morgan ainda esteve na pele de outro governante norte-americano em momento de crise no longa Impacto Profundo (1998). Mais especial ainda foi encarnar o líder da luta contra o apartheid e então presidente da África da Sul durante a Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, na produção Invictus.

A verdade é que para Freeman, nem o céu é o limite. O jovem que era mecânico na Força Aérea Norte-Americana, entre 1955 e 1959, e tinha o sonho de voar, não alcançou a sua aspiração imediatamente. Mesmo assim, não desistiu da ideia e, aos 65 anos, ganhou a licença para pilotar e tem seu próprio jatinho. Até um de seus personagens também se arriscava nos ares: o salto de paraquedas foi uma das tarefas da lista de coisas para fazer antes de morrer do mecânico Carter de Antes de Partir (2007), que co-estrelou com Jack Nicholson. Aliás, no final do ano deve sair outra produção com protagonistas sexagenários em que participa, Last Vegas (2013, foto abaixo), uma versão para a terceira idade de Se Beber, Não Case! (2009).

 Falando em curtir a vida, o ator está solteiro desde 2010, quando se divorciou de sua segunda esposa, Myrna Colley-Lee. Com a primeira mulher, Jeanette Adair Bradshaw, teve a filha Morgana e a enteada Deena – ele também é pai de Alfonso e Saifoulaye, nascidos de relacionamentos anteriores. Dois anos antes de se separar de Myrna, ele sofreu um grave acidente de carro em uma rodovia do Mississippi, no qual o automóvel capotou várias vezes ao sair da pista. O astro e a sua acompanhante foram resgatados, ele passou por cirurgia e ainda se recupera dos danos em seu ombro e braço esquerdos.

Mas para quem já interpretou Deus em Todo Poderoso (2003) e na continuação A Volta do Todo Poderoso (2007), sobreviver a um susto desses é coisa pequena. Brincadeiras à parte, um grande feito mesmo é Morgan Freeman manter a humildade e se considerar apenas um cara de sorte ao ser apontado como o maior ator em atividade no cinema.

Nayara Reynaud


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