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50 tons de Tarantino

Publicado em 27/03/13 às 22h10

Só temos mais 10 anos de Tarantino no cinema? Isso quer dizer que teremos pouco tempo para apreciar novos trabalhos de um dos mais famosos diretores da então “nova geração” da década de 1990 e que, hoje, é considerado um dos mais importantes cineastas de Hollywood e do cinema independente. Esse reconhecimento foi obtido por meio de uma filmografia recheada pelo uso constante da violência, a exemplo de sua obra mais cultuada, Pulp Fiction – Tempo de Violência (1994), o quarto lugar do Top 250 de filmes dos usuários do IMDb. Com o longa, Quentin ganhou a Palma de Ouro e o prêmio de melhor diretor no Independent Spirit Awards. Mas a mesma estética da violência que o consagrou também o torna alvo de severas críticas daqueles que acreditam que a ficção influencia atos violentos na vida real, como o massacre de 2012 na escola infantil Sandy Hook; questão que o diretor despreza, prefere não falar sobre o assunto e, quando declara algo acerca do tema, afirma que tal relação é desrespeitosa com a memória das vítimas.
 
Com filmes que são verdadeiros mash-ups das referências mais diversas do cenário mundial, ele é praticamente um DJ que “faz colagens” dessas várias citações, a exemplo do que realizou nas duas partes de Kill Bill (Volume 1, de 2003 e Volume 2, em 2004 - na foto ao lado com Uma Turman), com uma mistura de um movimento cinematográfico japonês, artes marciais chinesas, terror italiano e Western Spaghetti. Esse gosto pelos filmes de faroeste realizados por diretores da Itália pode ter sido herdado do seu pai Tony Tarantino, que tinha descendência italiana. Mas essa preferência, estampada em seu último trabalho, Django Livre (2012) não agradou seu colega de profissão Spike Lee, que considerou um desrespeito transformar a escravidão nos EUA em um “western spaguetti de Sergio Leone”. No entanto, a briga entre eles é mais antiga e começou na época do lançamento de Jackie Brown (1997), quando Lee questionou o uso demasiado do termo pejorativo nigger no filme de Quentin. Este, por sua vez, se defendeu afirmando que tem o direito, sendo branco ou negro, de escrever o que acha que seus personagens realmente falariam – e não é nenhuma novidade o uso constante de palavrões em seus longas, como as 272 vezes que fuck foi dito em Cães de Aluguel (1992). Samuel L. Jackson, que trabalhou com os dois diretores, preferiu o lado de Tarantino, ao considerar que o termo no contexto apropriado pode ser utilizado por qualquer artista, seja ele negro ou não. Falando no Samuel, ele atuou – ou emprestou a sua voz – em cinco filmes de QT, que, aliás, costuma “repetir” seu elenco, com nomes como Zoë Bell, Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Uma Thurman e, ultimamente, Christoph Waltz.
 
Nascido em Knoxville, no estado norte-americano do Tennessee, sua família logo se mudou para a Califórnia, onde passou por várias cidades. Foram nas terras californianas que ele iniciou a sua formação de ator, mais exatamente na companhia de teatro James Best. Por isso, geralmente, filma em Los Angeles, embora não deixe de fazer citações em suas obras à terra natal.
 
O trabalho com a atuação vem de berço, já que ele é filho de um ator e músico amador. E do pai e do padrasto, que também é músico, vêm a influência para outra marca de seu trabalho: a música, que tem papel fundamental na sua filmografia, com trilhas sonoras marcantes, como Pulp Fiction (foto ao lado) e a memorável cena de dança ao som de Girl, You Be a Woman Soon, ou Kill Bill e o assobio macabro de Twisted Nerve. Não é por menos que Tarantino é considerado um caleidoscópio da cultura pop.
 
Ele também é extremamente conhecido por seu lado roteirista, que exercita não só em suas produções, mas também para outros cineastas, como em Assassinos Por Natureza (1994), de Oliver Stone, baseado no argumento do primeiro script que escreveu na vida. Outro longa que conta com seu roteiro é Amor à Queima Roupa (1993), do falecido Tony Scott, que por sua vez foi inspirado em My Best Friend’s Birthday (1987), primeira incursão dele no cinema. Após um incêndio no laboratório que queimou quase toda a película, restou apenas 36 minutos desse curta-metragem. No entanto, é com o Robert Rodriguez que ele desenvolve uma parceria duradoura: roteirizou Um Drink no Inferno (1996), foi especialmente convidado para dirigir a sequência do carro entre Clive Owen e Benicio Del Toro em Sin City – A Cidade do Pecado (2005) e co-dirigiu o projeto de homenagem a filmes de terror da década de 1970, Grindhouse (2007). Seu segmento foi o À Prova de Morte, enquanto Rodriguez foi responsável pela história de Planeta Terror.
 
Mais recentemente, a obra de Tarantino traz como tema a vingança, fazendo um resgate histórico de setores oprimidos da sociedade: as mulheres em Kill Bill, os judeus em Bastardos Inglórios (2009) e os negros no recente Django Livre (foto ao lado). Em relação aos dois últimos, o diretor anunciou uma possível produção, chamada Killer Crow (com lançamento previsto para 2015), que concluiria essa “trilogia da vingança”, em que soldados negros prejudicados por militares brancos resolvem começar uma matanças nas bases dos EUA, em plena Segunda Guerra Mundial – por isso, o grupo judeu anti-nazista de Bastardos faria uma participação nessa nova história. Mas antes disso, ou logo depois, ele pensa em fazer um filme menor, ou um de gângster, ou mais algum que tenha o personagem perfeito para Johnny Depp, ator com quem ainda deseja trabalhar; sem falar nas continuações e derivados que não deram certo, como Kill Bill 3 e Vegas Brothers.
 
A grande questão é saber se ele vai ter tempo para fazer tudo isso, já que anunciou que irá se aposentar aos 60 anos para virar escritor de romances e livros sobre cinema. Não deixa de ser uma surpresa para alguém que resolveu não casar e ter filhos para se dedicar completamente aos seus filmes. Mesmo assim, ele nunca deixou de ter seus casos amorosos, namorando com as atrizes Mira Sorvino e Julie Dreyfus, a diretora Sofia Coppola e a comediante Kathy Griffin, entre outras mulheres. E sobre os rumores de um possível relacionamento com a atriz Uma Thurman, a sua “musa” de Pulp Fiction e Kill Bill, ele declara que é apenas platônico.
 
Seu primeiro longa, Cães de Aluguel (1992, foto ao lado), fez tanto sucesso, que ele recebeu convites para fazer os blockbusters Velocidade Máxima (1994) e MIB – Homens de Preto (1997); propostas que recusou para viajar a Amsterdam e poder se dedicar em seu próximo roteiro – o de Pulp. Falando na capital dos Países Baixos, seus trabalhos costumam utilizar elementos holandeses, como personagens de sobrenome holandês. Outra particularidade é a utilização de pseudônimos pelos protagonistas. Geralmente, estes também dirigem carros da GM. Mais uma característica é a importância que maletas e pastas ganham em suas tramas. E toda essa confusão provocada por esse parágrafo não é nada perto da verborragia dos textos de Quentin, em que personagens falam bastante, mas não dizem quase nada. Assim, ele cria diálogos memoráveis, por serem ao mesmo tempo surpreendentes, desconcertantes e cômicos – principalmente quando abusa do humor negro.
 
Entretanto, existem lados desconhecidos desse profissional multifacetado, e um deles é seu trabalho como produtor, não só de filmes hollywoodianos como O Albergue (2005), mas também trazendo produções estrangeiras para o mercado norte-americano. Sua outra faceta é como ator, sua formação inicial. Ele costuma fazer breves participações em seus próprios filmes, uma atitude à la Alfred Hitchcock, diretor a quem homenageou no segmento The Man From Hollywood de Grand Hotel (1995), fazendo um remake de um episódio do Alfred Hitchcock Presents (1955-1962). E a TV não é um terreno desconhecido para ele, pois QT já dirigiu o final da quinta temporada de CSI: Investigação Criminal (2000-) e o penúltimo episódio da primeira temporada de ER/Plantão Médico (1994-2009). Mas essa ligação com a área da saúde não ficou restrita à série, já que sua mãe é enfermeira e essas profissionais são figuras recorrentes em sua filmografia, a exemplo da enfermeira Bonnie da cena deletada de Cães de Aluguel, mesmo nome da mulher de Jimmy em Pulp Fiction, e de Daryl Hannah vestida como uma na icônica cena de Kill Bill – Volume 1.
 
Além de tudo isso, ainda é notório seu amplo conhecimento cinematográfico. Sem frequentar faculdades ou escolas de cinema, grande parte da sua formação ocorreu quando trabalhou em uma locadora de vídeos. Foi no local que conheceu Roger Avery, um colega de balcão que se transformou em seu parceiro de texto e produção. A dupla dividiu o Oscar de Melhor Roteiro Original por Pulp Fiction, sendo o primeiro dos dois prêmios da Academia que Quentin ganhou – o segundo foi em 2013, na mesma categoria, por Django Livre. Com os roteiros de ambos os filmes, ele também venceu duas vezes o Globo de Ouro e o BAFTA. Não é a toa que foi com o curta The Writer que o publicitário brasileiro Edson Oda ganhou a chance de conhecer o cineasta que se consagrou pelo seu texto. E uma das marcas registradas de Tarantino é justamente a construção de roteiros com engenhosa narrativa não-linear. A propósito, Quentin Jerome Tarantino nasceu no dia 27 de março de 1963 e, nesta quarta-feira, ele apagará 50 velinhas.

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Nayara Reynaud


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