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Alfred Hitchcock: o suspense na vida do mestre

Publicado em 04/03/13 às 22h01

No dia 29 de abril de 1980, Alfred Hitchcock saía de cena, mas sua presença no mundo não foi, nem de longe, breve e discreta como mostrava em seus próprios filmes. Se na ficção ele fazia pequenas participações – embarcando em um trem em Pacto Sinistro (1951) ou sentando ao lado de Cary Grant em um ônibus, em Ladrão de Casaca (1955) –, na vida real nunca passou despercebido: tornou sua figura e obra cinematográfica inesquecíveis, consagrando-se como o mestre do suspense.
 
Esse título se mantém até hoje, não apenas pelo gênero ser predominante em sua filmografia, mas pela maestria com que criava, dominava e revelava o suspense na telona. Não é a toa que o momento mais significativo da cinebiografia Hitchcock (2012) é aquele em que Anthony Hopkins, no papel de Alfred, literalmente rege a plateia assustada com a célebre cena do chuveiro, durante a estreia do clássico Psicose (foto abaixo, de 1961). Uma homenagem ao cineasta que sabia usar como ninguém cada elemento para aumentar a tensão no espectador, desde a trilha sonora marcante (quase sempre de Bernard Herrmann, seu compositor preferido), passando pela iluminação, edição (Festim Diabólico, de 1948, teve oito cortes imperceptíveis, dando a impressão de ter sido filmado em uma única tomada) e por movimentos de câmera, como o dolly zoom, o efeito de vertigem utilizado em Um Corpo Que Cai, de 1958.
 
Educado em um colégio jesuíta, os anos de dura disciplina, repressão e castigos marcaram sua vida e carreira. Ele próprio admitia o terror que sentia diante dos jesuítas e da polícia. O adolescente Alfred também alimentava sua curiosidade pelo crime ao visitar o museu da Scotland Yard e assistir a julgamentos de assassinatos no tribunal londrino. Daí surgiram as primeiras inspirações para seus thrillers psicológicos (Disque M Para Matar, de 1954), sobrenaturais (Rebecca, a Mulher Inesquecível, de 1940) e políticos (Interlúdio, de 1946).
 
Uma recorrência nos filmes de Hitchcock é o fato de o protagonista ser uma pessoa simples que tem a vida revirada por um acontecimento inesperado, como em O Homem Que Sabia Demais (primeira versão de 1934 e refilmagem de 1956). Talvez um reflexo da vida do próprio realizador, filho de um verdureiro e que viria a se tornar um cineasta de renome. O londrino, nascido em 13 de agosto de 1899, teve sua vida afetada com a I Guerra Mundial e a morte do pai, em 1914. Para ajudar a mãe, foi obrigado a trabalhar em uma empresa de telégrafos; porém, os cálculos referentes aos cabos elétricos não o agradavam. Conseguiu, após alguns meses, se transferir para o departamento de publicidade, onde pode exercitar a sua criatividade.
 
Aos 21 anos, viu na criação de um estúdio de cinema em Londres a oportunidade de entrar para o ramo. Começou como desenhista de letreiros, passou pela concepção de cenários e assistência de direção, até alcançar o posto mais alto da equipe técnica. Após a fama na Inglaterra, foi para Hollywood, onde se consagrou e tornou sua figura conhecida de todos, principalmente na série de TV Alfred Hitchcock Presents (1955-1961).
 
Outra marca de sua obra é o peso da injustiça na vida das pessoas. Frequentemente, seus personagens principais, mesmo inocentes, são confundidos e perseguidos. Essa troca de identidade é o mote de O Homem Errado (1956) e Intriga Internacional (1959), por exemplo. Ele sabia do que falava, pois também foi injustiçado pela Academia, que nunca lhe concedeu o Oscar de direção. Apesar de ser indicado cinco vezes, perdeu em todas e, apenas em 1968, recebeu um prêmio honorário, quando agradeceu dizendo somente “obrigado”.
 
O voyeurismo é mais uma característica de seu estilo, seja como cineasta ou como pessoa. A espionagem, profissional ou não, é tema constante de sua obra, como em Os 39 Degraus (1935). No entanto, encontra a sua máxima na observação da vida alheia realizada pelo fotógrafo Jeff de Janela Indiscreta (foto ao lado, de 1954), interpretado por James Stewart, um dos atores com quem mais trabalhou.
 
Da mesma maneira, o próprio diretor era um “espião” controlador de seus atores e, especialmente, um voyeur fervoroso de suas atrizes principais (curiosamente, ou não, a maioria era loira), entre elas Ingrid Bergman, Janet Leigh e Kim Novak. Segundo alguns relatos, Hitchcock desenvolvia uma ligação com as musas de seus filmes e, de maneira doentia, queria dirigi-las e controlar suas ações não apenas no set como em suas vidas pessoais. 
 
Vera Miles foi uma de suas vítimas. Ele queria torná-la uma estrela, após O Homem Errado, escalando-a para Um Corpo Que Cai. Mas sua gravidez foi interpretada pelo cineasta como traição. Outra “infiel” foi Grace Kelly, que se casou com o príncipe de Mônaco, após participar de três filmes dele. Contudo, quem mais sofreu com a obsessão de Hitchcock foi Tippi Hedren, história que rendeu, inclusive, o telefilme The Girl (2012). A jovem modelo foi descoberta por ele e estreou no cinema em Os Pássaros (foto ao lado, de 1963). Mas seu “guia” desejava moldá-la, controlando seu penteado, suas roupas, quem deveria tocá-la e fazendo insinuações pornográficas ao seu ouvido.
 
Desde 1926, o diretor era casado com Alma Reville, uma colega de trabalho dos tempos de estúdio em Londres. O casamento, que durou até a morte do diretor, nada tinha a ver com os fetiches que idealizava com suas atrizes. Mas, de certo modo, o “Mac Guffin” dele era sua própria mulher. No termo e na técnica utilizada e difundida pelo cineasta, um objeto serve de motivação para os personagens e, consequentemente, para o desenvolvimento da trama, mesmo que não tenha tanta importância na história. Um exemplo é o dinheiro roubado que leva Marion Crane ao Bates Motel; somente um pretexto para colocá-la sob o olhar maníaco de Norman, em Psicose. Por trás do gênio Alfred Hitchcock, estava sua esposa para lhe dar apoio, sugestões e até soluções criativas para seus grandes sucessos. Sob a sombra dos holofotes no marido, Alma “Mac Guffin” é uma das principais razões para que, até hoje, admiremos o mestre do suspense.

Nayara Reynaud


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