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Jennifer Lawrence: a itgirl levou um Oscar para casa

Publicado em 26/02/13 às 00h05

Pode soar estranho quando uma estrela de Hollywood diz que atuar é “estúpido”. Mas coloque-se no lugar de uma garota que, há três anos, vive um turbilhão midiático, sob a pressão de ser admirada e observada por críticos, diretores e espectadores de todo o mundo. Acrescente-se o fato de essa atriz, de apenas 22 anos, ser apontada como uma das melhores da sua geração e já ostentar um Oscar no seu currículo. E não se esqueça que a primeira imagem para o mundo ao receber o prêmio, domingo à noite, foi um tombo digno de criança que ainda não controla totalmente os passos. Mas que sabe dar a volta por cima.
 
Nascida em 15 de agosto de 1990, ela nunca fez aulas de teatro, mas ainda criança atuava em peças na sua cidade natal, Louisville, no Kentucky. Aos 14 anos, Jennifer Shrader Lawrence viajou para Nova York, onde fez testes que impressionaram agentes locais e permitiram que ela pudesse passar o verão na cidade, participando de alguns comerciais e gravando o filme Devil You Know (que só seria lançado em 2012).
 
Para continuar a carreira, ela mudou com a família para Los Angeles e fez pequenas participações em séries como Monk (2006) e Medium (2007-2008), até entrar para o elenco da sitcom The Bill Engvall Show (2007-2009), que mostrava o dia-a-dia de um terapeuta no trabalho e com a família. Depois de um pequeno papel em Garden Party (2008), outros dois filmes fizeram com que os “olhos” da indústria cinematográfica se voltassem para “Jen”, como é mais conhecida pelos parentes e amigos. Interpretando a filha mais velha de uma mãe viciada em drogas, a jovem foi premiada com a melhor performance no Festival de Los Angeles por The Poker House (2008). Já a sua atuação em Vidas Que Se Cruzam (2008) lhe rendeu o Prêmio Marcello Mastroianni no Festival de Veneza, como atriz mais promissora.
 
Não demorou muito para que a promessa logo se concretizasse. Inverno da Alma (2010), o longa-metragem vitorioso do Festival de Sundance de 2010, mostrou Jennifer Lawrence para o mundo. No papel de Ree Dolly, uma adolescente determinada na busca pelo pai que usou a casa da família como garantia para a liberdade condicional e sumiu do mapa, ela chamou a atenção da crítica, se tornando a grande revelação daquele ano. A intensa interpretação no filme independente lhe garantiu indicações em diversas premiações, entre elas ao Oscar de melhor atriz em 2011.
 
A partir desse momento, mais oportunidades surgiram. Ela foi coadjuvante no ganhador do Festival de Sundance do ano seguinte, o romance dramático Loucamente Apaixonados (2011), e participou do drama Um Novo Despertar (2011); curiosamente, os dois filmes eram co-estrelados pelo jovem ator russo Anton Yelchin.
 
Entretanto, foi mostrando a origem da famosa mutante Mística, na pele de Raven em X-Men: Primeira Classe (2011), que conseguiu angariar a sua primeira legião de fãs. A segunda viria já no anúncio de “JLaw” (apelido dado pelos admiradores) como a protagonista do filme Jogos Vorazes (2012), adaptação do primeiro livro de uma trilogia de best-sellers que conquistou o público juvenil. Com o papel de Katniss Everdeen, a jovem recebeu prêmios de votações populares, como o People’s Choice Award e o MTV Movie Awards, transformando-a em ídolo pop.
 
Contudo, 2012 seria ainda mais generoso em sua filmografia. Além de participar do filme de terror A Última Casa da Rua (2012), ela estrelou O Lado Bom da Vida (2012), comédia romântica de David O. Russel, que ganhou evidência no circuito de festivais e potencializou a produção para a temporada de premiações. Entre excelentes atuações de Bradley Cooper, Robert De Niro e Jacki Weaver, quem novamente se destaca é Jennifer Lawrence. Interpretando Tiffany, uma jovem viúva que entra em depressão e vira ninfomaníaca após a traumática morte do marido, a atriz mostra uma paleta de emoções, às vezes em uma única cena ou olhar. Foi mais do que suficiente para uma série de prêmios: Critics’ Choice Awards, Globo de Ouro, SAG Awards (do sindicato dos atores), Spirit Awards (premiação do cinema independente norte-americano), entre outros, até culminar no Oscar de Melhor Atriz em 2013.
 
Não há dúvidas de que Jennifer é uma itgirl, a garota do momento em Hollywood. O reconhecimento da crítica e dos colegas comprova isso, mas outros fatores corroboram tal status. Há mais de um mês, seu nome é o primeiro do STARmeter, ranking dos artistas mais populares, baseado nas pesquisas realizadas pelo público no IMDb. Seu rosto está à frente da nova campanha da grife Dior. A capa da edição de fevereiro da Vanity Fair a define como a “mulher mais desejada do mundo”.
 
Aliás, foi justamente em entrevista à publicação que a atriz deu a controvertida declaração do início desse texto. “Todo mundo diz: 'Como você consegue manter os pés no chão?' e eu digo: 'Por que eu deveria ficar metida?’ Não estou salvando a vida de ninguém. Há médicos que salvam vidas e bombeiros que entram em prédios em chamas. Eu faço filmes. É estúpido”, disse à revista. Porém, sua afirmação parece mais uma tática de autodefesa de alguém que se desenvolveu muito rápido profissionalmente e permanece constantemente sob os holofotes da mídia (mesmo mantendo-se reservada quanto à vida pessoal), mas ainda é apenas uma garota.
 
A dureza e a maturidade de seus personagens contrastam com o ar espontâneo observado nas premières, entrevistas e premiações. Nesse ímpeto do espírito juvenil, Lawrence se arrisca em frases polêmicas, como no desabafo para a revista Elle de que, em Hollywood, ela é considerada “obesa”; ou na citação incompreendida “Eu derrotei a Meryl” no discurso de aceitação do Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia, categoria também disputada pela hors-concours Meryl Streep. No entanto, tal naturalidade a beneficia em saias-justas, a exemplo do tombo que levou ao subir as escadas para receber o Oscar, quando brincou: “Vocês estão de pé aplaudindo só porque eu caí”.
 
E se o rótulo de it girl é passageiro, Jennifer Lawrence tem tudo para se consolidar como uma estrela da nova geração. Além do talento e carisma, não lhe faltam trabalhos para os próximos anos. Seja nos blockbusters e continuações de franquias (Jogos Vorazes: Em Chamas, com estreia prevista para novembro, e X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, em 2014), seja no cinema autoral e independente, repetindo parcerias com seus companheiros de O Lado Bom da Vida (ela divide a cena com Bradley Cooper em Serena, que será lançado no segundo semestre, e no provisoriamente denominado American Bullshit, dirigido por David O. Russel, que reencontrará a sua musa inspiradora em The Ends of the World), a atriz não sairá tão logo das telonas.

Nayara Reynaud


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