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Katharine Hepburn, o fim de uma lenda

Publicado em 30/06/03 às 16h10

imagem Foram 96 anos de uma vida intensa e proveitosa, mas finalmente a lenda se foi. Katharine Hepburn morreu na noite deste domingo (29), na mesma casa em que nasceu, em Hartford, Connecticut, em 12 de maio de 1907. Na bagagem, guardava quatro Oscar, doze indicações, 42 filmes - fora produções para teatro e televisão - dois livros (um deles, sua autobiografia, Me, de 1991), alguns amantes famosos (o diretor John Ford e o milionário Howard Hughes entre eles) e um grande amor - Spencer Tracy (1900-1967), com quem ela dividiu o trabalho e a vida de 1942 até sua morte, apesar de o católico Tracy nunca ter se divorciado da esposa Louise.

Tracy foi seu parceiro mais assíduo na tela - fizeram juntos nada menos de oito filmes: A Mulher do Dia (1942), O Fogo Sagrado (1942), Mar Verde (1947), Sua Esposa e o Mundo (1948), A Costela do Adão (1949), A Mulher Absoluta (1952), Amor Eletrônico (1957) e Adivinhem quem Vem para Jantar (1967). Boas companhias para Katharine, aliás, nunca faltaram. Ela contracenou com muitos dos maiores atores de todos os tempos - Cary Grant e James Stewart (Núpcias de Escândalo, 1940), Robert Taylor e Robert Mitchum (Correntes Ocultas, 1946), Humphrey Bogart (Uma Aventura na África, 1951), Sidney Poitier (Adivinhe que Vem para Jantar, 1967), Laurence Olivier (na inédita produção para TV de George Cukor, Love Among Ruins, 1975), John Wayne (Justiceiro Implacável, 1975) e Henry Fonda (Num Lago Dourado, 1981). A atriz sobreviveu a praticamente todos.

Na vida profissional, o encontro decisivo para Katharine foi George Cukor (1889-1983), um grande diretor de estrelas de primeira grandeza, como Greta Garbo, Marilyn Monroe, Joan Crawford e Judy Garland. Foi por suas mãos que estreou no cinema, em 1932, no drama Vítimas do Divórcio, interpretando a filha de um monstro sagrado da época, John Barrymore. O destino quis que ela, entre tantas outras, se tornasse a atriz-fetiche de Cukor. Foi sob sua batuta que Kathy realizou mais filmes - nove ao todo, inclusive alguns de seus melhores trabalhos, como a deliciosa comédia A Costela de Adão (1949). Aqui, Kathy e Tracy interpretam marido e mulher advogados, empenhados numa guerra por atuarem de lados opostos num mesmo processo.

Por ironia, nenhum de seus quatro Oscar foi numa obra de Cukor. O primeiro veio ainda em sua juventude, por Manhã de Glória (1933). Os outros três custaram mais a chegar, conquistados depois dos 60 anos: Adivinhe Quem Vem para Jantar (1967), O Leão no Inverno (1968) e Num Lago Dourado (1981). Em mais de seis décadas de carreira, Kathy interpretou rainhas astuciosas, solteironas amarguradas, tias bonachonas, socialites, mães dominadoras e profissionais independentes. Quase nenhum tipo de papel lhe escapou. Assim, ela provou ao pai, que se opunha à sua escolha profissional, que não estava mesmo brincando quando estreou, aos oito anos, no teatrinho improvisado que ele construíra no quintal de sua casa em Connecticut. A peça era A Cabana do Pai Tomás.

Família de atriz foi assombrada por repetidos suicídios
A longevidade de Katharine Hepburn foi um verdadeiro desafio à maldição que, há mais de um século, pesava sobre as famílias de seu pai, o eminente urologista Thomas Norval Hepburn (falecido em 1962) e a mãe, uma pioneira na defesa do voto feminino e do controle da natalidade, Katharine Houghton (falecida em 1951). Os dois clãs foram assombrados por repetidos suicídios, como o do avô materno, Fred Houghton, em 1892, logo seguido pelo de seu irmão, Charlie. Dois tios paternos, Sewell e Charlie Hepburn, tiveram o mesmo fim, no começo do século passado.

Mas nenhum episódio marcou mais profundamente a vida de Kathy do que a morte de seu irmão mais velho, Tom, em 1921. Ele tinha apenas 15 anos. A primeira a entrar no sótão onde ele se enforcou foi justamente ela. Com apenas 13 anos, os sentimentos da menina dividiram-se entre o choque e a culpa. "Porque eu não abri aquela porta antes?" foi uma dúvida que martelou sua consciência por muitos anos. Os dois irmão sempre foram muito ligados porque, desde que Kathy começou a dar seus primeiros passos, Tom assumiu o encargo de cuidar dela.

Não se sabe até que ponto esta tragédia pode ter ajudado a moldar a altivez, a independência e a força de personalidade que ninguém deixava de reconhecer em Katharine Hepburn. "Ela é uma força da natureza", define a escritora Barbara Leaming, autora de uma ótima biografia não-autorizada, publicada em 1995 (Katharine Hepburn). Mas sua própria vida vitoriosa sempre forneceu claros indícios de que Kathy optara por seguir uma outra tradição da família, especialmente pelo lado materno: a das mulheres fortes. A avó, Carrie Garlinghouse, sobreviveu ao marido Fred menos de dois anos. Tempo suficiente, porém, para garantir às três filhas, Katharine (mãe da atriz), Edith e Marion, um testamento que obrigava o cunhado despótico, Amory Houghton Jr., a encaminhar as meninas à Bryn Mawr, uma pioneira escola superior para mulheres (onde a própria Katharine também se formou, em 1928). Não era nada fácil. Na virada do século, o pensamento corrente era que a educação provocava "sérios distúrbios físicos e psíquicos" ao sexo feminino.

Uma outra suposta conseqüência da perda do irmão é associada à tendência de Kathy de apaixonar-se por homens autodestrutivos, como numa tentativa de salvá-los, o que não pudera fazer por Tom. Dois bons exemplos estão no diretor John Ford e no próprio Spencer Tracy. Ambos eram de origem irlandesa, católicos que nunca criaram coragem de divorciar-se de suas esposas e alcoólatras irrecuperáveis. Conta-se que, várias vezes, Kathy agachou-se como um cachorrinho assustado diante da porta de um quarto de hotel, onde Tracy se embriagava até perder a consciência. Um comportamento difícil de entender num temperamento tão altivo quanto o da atriz, que pertence, sem dúvida, àquelas contradições da natureza humana a que não escapam mesmo espíritos indomáveis como o dela.

Neusa Barbosa


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