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Aleksandr Sokúrov, crítico do poder

Publicado em 17/06/03 às 15h40

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Foto de Ana Vidotti

Um dos mais importantes cineastas europeus da atualidade, o russo Aleksandr Sokúrov nasceu em 1951, na cidade de Podorvikha, na Sibéria. Filho de um oficial do Exército e veterano da II Guerra Mundial, em sua infância e juventude Sokúrov viveu em diferentes lugares, dentro e fora do país. Morando em Gorki, entra para a faculdade de história e começa a trabalhar na emissora local de televisão, como assistente técnico e depois assistente de produção. Foi na televisão que adquiriu uma consistente experiência audiovisual, aí produzindo vários filmes e shows.

Em 1975, diplomado em história, entra para o Departamento de Produção do All-Union Cinematography Institute (VGIK) de Moscou. Por ser ótimo aluno, ganha uma bolsa de estudos, mas enfrenta problemas com a direção da escola. Seus filmes foram considerados "formalistas" e "anti-soviéticos" pela burocracia. O primeiro deles, A Voz Solitária do Homem (1978) chegou a ser rejeitado como trabalho de graduação na faculdade. Mais tarde, porém, o mesmo filme despertou a admiração de Andrei Tarkovsky, o consagrado diretor de O Sacrifício (1986), Nostalgia (1982) e Solaris (1972). Tarkovsky, que morreu em 1986, foi um importante aliado do jovem colega, apoiando-o de modo a conseguir um emprego nos estúdios Lenfilm, onde acabou realizando boa parte de seus trabalhos iniciais.

Depois da abertura do regime russo, com a perestroika de Mikhail Gorbachev, os trabalhos de Sokúrov circulam com mais liberdade, dentro e fora de seu país. A partir daí, ele adquire conceito e prêmios internacionais.

No Brasil, ele começou a ficar conhecido por seus trabalhos mais recentes, como Moloch - Eva Braun e Adolf Hitler na Intimidade (1999) - prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes daquele ano e um de seus poucos filmes exibidos comercialmente no país. É a primeira parte de uma projetada tetralogia sobre homens poderosos, que teve seqüência em Taurus (2001), onde é focalizado o líder da Revolução Russa, Vladimir Lênin.

Nestes dois filmes, é possível identificar a visão ácida que Sokúrov tem do poder. Exercitando sua formação de historiador, o cineasta desmistifica tanto Hitler quanto Lênin, mostrando os dois todo-poderosos em situações de isolamento e despojamento gradual de tudo o que os tornava temíveis aos olhos dos outros. Em Moloch..., Hitler (interpretado por Leonid Mozgovoy) está refugiado em seu bunker, em 1942, cercado por sua entourage mais íntima: a amante Eva Braun e seus fiéis oficiais, Joseph Goebbels e Martin Borman. Nesse castelo aprazível, em meio a fartos jantares, o mais alto círculo do poder nazista coloca-se a salvo das más notícias que chegam do front. Mas já está acelerado o princípio de seu fim. Hitler, aliás, também é o objeto de estudo de outro filme do cineasta russo, Sonata para Hitler (1979), documentário que traça paralelos entre a história alemã e a russa.

Na obra de Sokúrov, destaca-se um grande número de documentários - ele fez mais de 20, incluindo-se no gênero também a sua série de Elegias. O cineasta, porém, tempera este olho de documentarista-historiador com um exercício da linguagem, que é uma de suas principais preocupações como artista, e lhe permite instilar as imagens de uma emoção nem sempre comum neste gênero. Esta originalidade de Sokúrov pode ser vista, por exemplo, em filmes como Dolce... (1999), sobre o falecido escritor japonês Toshio Shimao e sua viúva, Miho, e também em A Pedra (1992) - em que ele imagina uma volta à vida do escritor e dramaturgo Anton Chekhov (Leonid Mozgovoy), em sua antiga casa, hoje um museu, em Yalta.

Contrastando sua opinião depreciativa sobre o poder e os poderosos, Sokúrov nunca deixa de evidenciar o alto conceito que alimenta a respeito da permanência e da transcendência da arte. Assim, em vários de seus filmes o diretor busca inspiração na literatura e no teatro. Em Dolorosa Indiferença (1983), o protagonista é um membro da inteligência britânica saído diretamente das páginas de uma peça de Bernard Shaw (Heartbreak House). Em Salvai e Protegei (1989), a heroína é ninguém menos do que Emma Bovary, a trágica personagem do romance Madame Bovary, do francês Gustave Flaubert. Além disso, é impossível não enxergar na composição elegante de seus planos uma vasta cultura sobre a pintura de várias eras.

Muitas vezes tido como um obcecado pela forma, o cineasta russo identifica-se com a procura de uma nova linguagem, um objetivo que ficou muito visível em Arca Russa (2002) - filmado num único plano-seqüência de 99 minutos, sem cortes. Para conseguir esta proeza, o cineasta teve de fazer um longo planejamento prévio da imagem, da luz, dos cenários, dos figurinos, do som e de cada mínimo detalhe, já que filmaria sem interrupções. Usando câmera digital, ele conduz dois personagens pelos diversos salões do magnífico museu Hermitage, a residência imperial dos czares russos, em São Petersburgo. Neste fantástico passeio no tempo e no espaço, desdobram-se vários momentos da história russa, entre o czarismo e a era moderna.

Em seu mais recente trabalho, Pai e Filho - participante da competição oficial do Festival de Cannes/2003 - Sokúrov voltou a uma pretendida trilogia sobre as relações familiares. O filme é o segundo exemplar da série. O primeiro foi Mãe e Filho (1996). No Festival de Cannes, Pai e Filho suscitou alguma polêmica, já que as cenas de intimidade entre os protagonistas (Andrej Shetinin e Alexei Nejmyshev), que têm muito pouca diferença de idade, levantaram dúvidas se não haveria ali certa dose de homoerotismo - uma sugestão que escandalizou o diretor russo. "Na Rússia, seria muito difícil um espectador fazer esse tipo de associação", indignou-se. "As relações ternas (entre pais e filhos) devem ser a regra. Qualquer tentativa de distanciar uns dos outros é um crime", defendeu Sokúrov na coletiva de imprensa de Cannes, em maio de 2003.

Uma das raras chances de acesso à obra deste cineasta no Brasil foi na 26ª Mostra BR de Cinema - Mostra Internacional de Cinema São Paulo, em 2002, que apresentou uma retrospectiva integral de sua obra. O diretor interrompeu as filmagens de Pai e Filho, que naquele momento ocorriam em Lisboa, para abrir esta retrospectiva, visitando São Paulo, em outubro do ano passado.

Cineweb-17/6/2003

Neusa Barbosa


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