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Kathy Bates, uma gordinha
que venceu pelo talento

Publicado em 21/03/03 às 18h22

imagem Ela só teve praticamente papéis secundários no cinema até encarnar a "fã número 1" de um escritor (James Caan) em Louca Obsessão e levar para casa um merecido Oscar de melhor atriz. Ainda assim, não se pode dizer que, até hoje, Hollywood tenha feito justiça ao seu talento.

Gordinha, baixinha, Kathy nunca se encaixou no figurino "loirinha bonita" que sustenta uma porção de carreiras de sucesso. Mas é intensa, versátil e muito capaz. Encara com a mesma desenvoltura dramas e comédias, rouba fácil a cena de qualquer outro ator e, com muita freqüência, salva filmes não tão bons com sua simples presença no elenco. É sempre um enorme prazer observar Kathy usar o enorme arsenal de seus recursos em cena e ver como ela dispensa exageros. O mais recente exemplo disso está na comédia dramática As Confissões de Schmidt, onde recebeu uma nova indicação ao Oscar de atriz coadjuvante na pele da desinibida Roberta Hertzel, que provoca arrepios no recatado viúvo Warren Schmidt (Jack Nicholson).

Em 1998, foi a única americana entre as cinco indicadas ao Oscar de atriz coadjuvante, justamente por uma de suas melhores atuações, na comédia política Segredos do Poder. Bates encarna a destemida Libby Holden, a assessora lésbica, ex-paciente psiquiátrica, de um candidato presidencial feito à imagem de Bill Clinton (John Travolta) que se encarrega de alguns serviços sujos - tipo ameaçar chantagistas do patrão sob a mira de um revólver. Apesar desse comportamento nada ortodoxo, Libby revela-se a verdadeira heroína, o centro moral do filme, especialmente a partir do momento em que ficam claras as concessões do candidato para chegar à Casa Branca.

Kathy também teve uma trajetória pouco ortodoxa até chegar a Hollywood. Nascida no sul dos EUA, em Memphis, Tennessee, filha de um engenheiro metalúrgico e uma dona-de-casa, ela trabalhou nas profissões mais variadas antes de chegar ao palco. A mais curiosa foi a de garçonete-cantora num hotel de luxo, um trabalho que lhe rendeu tarimba e até hoje lhe garante algum conceito na área musical: ela é tida como uma compositora muito capaz. Por muitos anos, também, manteve um negócio de sucesso, uma empresa de áudio-livros (livros gravados em cassetes).

Formou-se em teatro na Universidade Metodista do Sul, em sua terra natal, mas logo descobriu que teria de sair do ninho familiar para vencer profissionalmente. O destino: Nova York, onde um de seus primeiros trabalhos para sobreviver foi como caixa da loja de presentes do Museu de Arte Moderna, o famoso MoMa.

Curiosamente, para alguém que não se caracteriza por uma imagem romântica, ela fez sua estréia na TV no início dos anos 70 num episódio da série The Boat Love em que interpretava o papel de uma recém-casada que tenta muito mas não consegue ficar junto do marido.

Ela apareceu pela primeira vez na tela do cinema na comédia Procura Insaciável (1971), primeiro filme americano do diretor tcheco Milos Forman. Como a fita não fez sucesso, a carreira de Kathy no cinema demorou para decolar. Ela tentou o teatro e deu-se muito bem. Depois de estrear no circuito off-Broadway na peça Vanities (1976), ela conseguiu nada menos do que uma indicação ao prêmio Tony (o equivalente ao Oscar do teatro americano) interpretando uma suicida em potencial no drama 'Night, Mother.

Aí, começou uma verdadeira maldição, que se repetiu com Kathy pelo menos três vezes. Seu papel em 'Night, Mother acabou ficando para Sissy Spacek quando a peça foi adaptada para o cinema, em Noite de Desamor. O mesmo aconteceu com a peça Crimes of the Heart e o papel de Kathy no teatro ficou para Diane Keaton na tela, em Crimes do Coração.

Não contou a favor da atriz sulista nem mesmo o fato de o dramaturgo Terence McNally ter escrito especialmente para ela o papel de Frankie na peça Frankie and Johnny at the Clair de Lune. No cinema, foi Michelle Pfeiffer a protagonista de Frankie & Johnny, ao lado de Al Pacino.

Mesmo assim, ela conseguiu aumentar seu status artístico no cinema sob a direção do respeitado Robert Altman no drama James Dean - O Mito Sobrevive. Entretanto, não se limitou a nenhum gênero, aparecendo tanto num filme-catástrofe como O Dia Seguinte como na comédia Arthur 2 - O Milionário Arruinado. Mas continuava esperando sua grande chance.

O ano de 90 finalmente a consagrou, com o Oscar por Louca Obsessão, além de participações no drama Loucos de Paixão, ao lado de Susan Sarandon, e na comédia Dick Tracy, com Warren Beatty, Dustin Hoffman e inúmeros outros astros, em cuja companhia Kathy bem comprovou que merecia estar. Um de seus papéis mais apreciados é o de Evelyn Couch, uma das protagonistas do sucesso Tomates Verdes Fritos, a dona-de-casa insatisfeita que descobre uma nova energia para viver com a convivência com uma velhinha internada num asilo (Jessica Tandy).

Depois que ninguém mais duvidou de sua capacidade, que a levou a atuar sob a direção de Woody Allen (Neblina e Sombras) e até do brasileiro Hector Babenco (Brincando nos Campos do Senhor), a atriz freqüentou até alguns sucessos de bilheteria, o mais notório deles Titanic, onde ela interpretou a descolada nova-rica Molly Brown.

Curiosidades:
Ocupação: Atriz e diretora.
Ex-marido: Tony Campisi (1991-1997).
Prêmios: Oscar de melhor atriz por Louca Obsessão (1990).
Globo de Ouro como atriz dramática pelo mesmo filme.

Cineweb-21/3/2003.

Neusa Barbosa


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