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Michael Caine, um operário com estilo

Publicado em 28/02/03 às 18h58

imagem Um dos maiores galãs ingleses da década de 60, jamais foi um deslumbrado com a profissão de ator. E sempre admitiu que se o dinheiro era ótimo, não via problemas em fazer péssimas escolhas - como o trash A Mão (The Hand, 1981), de Oliver Stone. Atitude coerente para este filho de um carregador do mercado de peixes de Londres, que gastava todo o dinheiro em jogo, e mãe faxineira.

Nascido no período da Depressão anterior à II Guerra Mundial, passou sua infância num pequeno apartamento que sequer dispunha de energia elétrica. Durante a guerra, mudou-se com a mãe e o irmão menor, Stanley, para uma área rural de Norfolk. Mas nem por isto sua vida melhorou. Aliás, foi bastante conturbada, inclusive com passagens por orfanatos e a descoberta de um segredo familiar, após a morte da mãe em 1989 - a existência de um meio-irmão mais velho, David, deficiente mental que passou a vida internado em hospitais.

Adolescente pobre e rebelde, abandonou a escola aos 15 anos para fazer pequenos serviços, antes de ingressar no exército britânico e atuar na Guerra da Coréia. Quando retornou, foi trabalhar como assistente de palco num teatro londrino e para complementar o orçamento trabalhava também numa lavanderia.

O seu primeiro papel no teatro, ainda como Maurice Micklewhite, foi na peça Elephant and Castle, mas seu primeiro trabalho importante aconteceu quando foi escalado para substituir Peter O´Toole na peça The Long and the Short and the Tail. Por indicação de seu agente, que considerava seu nome pouco artístico, adotou o Michael Caine atual, tirado do filme The Caine Mutiny (A Nave da Revolta, 1954).

Casou-se com a atriz Patricia Haines em 1955, mas o casamento durou pouco, pois, segundo ele mesmo, "era imaturo e os problemas com a falta de dinheiro minaram a relação". Desta breve ligação restou uma filha, Dominique, e o quase pânico com relações duradouras. Foi neste período que estreou no cinema com o filme A Hill in Korea (1956).

A situação financeira de Caine demorou anos para melhorar. Após o divórcio teve que dividir apartamento com Terence Stamp e, tempos depois, com o compositor John Barry. Foram longos anos de batalha nos palcos. Autodidata, compensou sua deficiente educação formal observando o mundo através de viagens e lendo compulsivamente, até 15 livros por semana. Seu esforço o levou a ter um gosto refinado para as artes plásticas - é um colecionador de quadros de pintores famosos como Matisse, Picasso, Toulouse-Lautrec, Marc Chagall, e um gourmet reconhecido principalmente pelo cardápio de sua rede de restaurantes.

Após atuar em inúmeros programas de TV, conseguiu a grande oportunidade no cinema com o filme Zulu (1964), o que despertou a atenção dos produtores. Em 1965, interpreta Harry Palmer, o agente de Icpress - Arquivo Confidencial, personagem que encarnou em outros filmes. Em 1996, viveu um sensual conquistador em Alfie - Como Conquistar as Mulheres, papel que lhe renderia a primeira indicação ao Oscar e a fama de solteirão convicto, que perderia em 1973 ao se casar com a modelo Shakira, de origem indiana.

Os anos 60 foram vividos intensamente e com grande sucesso para quem veio da classe média baixa, usando óculos com grossas armaduras de tartaruga (marca inconfundível do ator) e forte sotaque cockney. "Sempre fui um rebelde e expresso a minha contestação através do sotaque. Na Inglaterra, somos rotulados a partir da maneira de falar. Odeio isto."

Nas décadas de 60 e 70 fez papéis importantes como em Funeral em Berlim (Funeral in Berlin, 1966); Jogo Mortal (Sleuth, 1972), segunda indicação ao Oscar (1973); O Homem que Queria Ser Rei, ao lado de Sean Connery (1975); California Suite, com Maggie Smith em sua primeira comédia (1978); mas o de maior destaque foi Get Carter (1971), onde interpretou um assassino que vinga a morte do irmão. No inferior remake, O Implacável (2000), com Sylvester Stallone, fez o gângster que enfrentou na primeira versão.

Mas, nesta mesma época, ficou marcado pelos filmes medianos que fez apenas por questões financeiras, como a comédia grosseira Feitiço do Rio (Blame it on Rio, 1984), no qual Demi Moore interpreta sua filha. E, com o humor característico dos ingleses, disse: "Eu estou na maioria dos filmes apresentados de madrugada na televisão, o que leva as pessoas a pensar que eu estou morto."

Superada a fase do galã sensual, os anos 80 e 90 foram de vários e importantes papéis, que lhe renderam inúmeras indicações aos mais importantes prêmios do cinema: O Despertar de Rita (1983); Hannah e suas Irmãs (1986), com o qual ganhou seu primeiro Oscar; Regras da Vida (1999), segundo Oscar. Com O Americano Tranqüilo novamente tem uma indicação ao Oscar, mas ironicamente minimizou sua interpretação quando disse: "Antigamente, eu costumava ficar com a garota e depois passei a ficar apenas com o papel. Neste filme, fiquei com o papel e com a garota. Isto é uma honra para mim, pois pode ser a última vez que eu consigo a garota. Afinal, estou próximo dos 70."

Cineweb-28/02/2003

Curiosidades:
Família:
Maurice e Ellen Micklewhite (pais)
David e Stanley (irmãos)
Esposas:
Shakira Caine (1973 - atual) - uma filha (Natasha)
Patricia Haines (1955 - 1958) - uma filha (Dominique)
Outras atividades:
Produtor
Empresário:
Dono de seis restaurantes - cinco em Londres e um em Miami
Escritor:
"Michael Caine's Moving Picture Show" (1988) - coletânea de piadas
"What's It All About?" (1993) - autobiografia

Ana Vidotti


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