Perfis

Robert Altman, o provocador
longe da aposentadoria

Publicado em 20/02/03 às 18h38

imagem "Aposentadoria? Você está falando de morte, certo?", esta frase dita por Robert Altman a um jornalista exprime bem sua disposição para continuar a trabalhar num ritmo mais puxado do que qualquer pessoa que se aproxima dos oitenta anos. Um dos mais importantes cineastas americanos em atividade, acabou de filmar The Company, um filme sobre balé, com Neve Campbell e James Franco, e já está produzindo um trabalho que dirigirá para a TV a cabo HBO sobre a mais famosa espiã de todos os tempos, Mata Hari, com Cate Blanchett no papel da misteriosa e sensual mulher que agitou os bastidores da I Guerra Mundial.

Sua inquietação não o permite tirar folgas muito extensas entre um trabalho e outro. Paralelamente ao projeto para a televisão, Altman está definindo o casting do seu próximo filme, Ultraviolet, thriller satírico com vários personagens na linha de Nashville. Com as filmagens programadas para o segundo semestre de 2003, a história tem o foco nos marchands, pintores, falsificadores e críticos que habitam o Lower Manhattan. Idéia original de Altman com roteiro de Jeffrey Lewis, autor do drama para TV Hill Street Blues.

Já durante os anos de colégio, Altman demonstrava sua energia e incrível necessidade de descobrir o mundo quando começou a se interessar por experiências com som - nos jurássicos gravadores da década de 30. Estes experimentos foram abandonados quando ele ingressou na Força Aérea americana durante a 2ª Guerra Mundial, só retomando o contato com a arte em seu primeiro emprego após o armistício.

Ao mesmo tempo que escrevia artigos para revistas e roteiros para o rádio, começou a trabalhar na Calvin Co., em Kansas City - onde fez documentários, filmes institucionais de treinamento e propaganda -, e em obscuros filmes independentes. No final da década de 50, abandonou a empresa e dirigiu o filme independente Os Delinqüentes (1957) e o documentário The James Dean Story, trabalhos que lhe abriram as portas da televisão. Logo, tornou-se um dos diretores mais requisitados do meio, dirigindo episódios das séries Alfred Hitchcock Apresenta, Combate e Bonanza, entre outras.

Com inúmeros trabalhos durante a década de 60 e aclamado pela crítica americana, conseguiu o seu primeiro grande sucesso com a comédia de humor negro, sobre uma equipe médica durante a guerra da Coréia, M*A*S*H*, em 1970. Sem medo de inovar e experimentar, usou uma música composta por seu filho Mike - na época com 14 anos -, Suicide is Painless, como tema do filme. Com este irreverente filme ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e sua primeira indicação ao Oscar, que além de lhe dar prestígio internacional, consolidou o relacionamento com um grupo de atores que a partir daí o acompanharia em outras importantes produções, como Elliott Gould.

A visão crítica da sociedade americana e sua maneira personalíssima de filmar ficaria ainda mais evidente nos seus trabalhos posteriores como Imagens (1972) e Nashville (1975), um devastador painel do estilo americano de ser, usando o ambiente da capital de música country como pano de fundo. Mas Altman também ficou conhecido como um cineasta que cometeu pequenos deslizes - e grandes fiascos comerciais. O mesmo diretor de obras fascinantes como Três Mulheres (1977) e Cerimônia de Casamento (1978), aceitou convites para dirigir filmes que foram um fracasso artístico e comercial como Popeye (1980) e Além da Terapia (1987).

Durante a década de 80, Altman conseguiu conciliar seu trabalho no cinema com inúmeras produções para a televisão. E se os filmes não renderam muito nas bilheterias, seu prestígio nunca caiu. Mas foi só em 1992 que retornou em grande estilo com o vencedor da Palma de Ouro, O Jogador, uma sátira ao mundo irreal dos magnatas de Hollywood. Filme definido por uma frase do diretor: "Não somos uns contra os outros. Eles [os executivos de Hollywood] vendem sapatos e eu produzo luvas".

Nos anos seguintes, reuniria um elenco estelar em Short Cuts - Cenas da Vida (1993), no polêmico Prêt-à-Porter (1994) e na comédia de humor negro A Fortuna de Cookie (1999), prova de que estar nos filmes de Altman dá prestígio e status. Suas produções mais recentes só comprovam isto. Foi assim para Richard Gere, seu protagonista em Doutor T. e as Mulheres (2000), que vinha fazendo filmes sem muita expressão; ou para Jeremy Northan e Clive Owen, que encontraram a fama internacional em Assassinato em Gosford Park (2001).

Agora é torcer para que seu jovem amigo Paul Thomas Anderson, diretor de Magnólia, tenha razão quando diz: "O homem tem a energia de um garoto de 20 anos. Acho que ele ainda estará filmando quando tiver 100 anos".

Curiosidades:
Pais: B.C (vendedor de seguros) e Helen Altman
Esposas e Filhos:
Kathryn Reed (1959 - atual) - Robert e Matthew, mais a enteada, Konni
Lotus Corelli (1954 - 195?) - Stephen e Michael
LaVonne Elmer (1947 - 19??) - Christine
Prêmios:
- Indicado ao Oscar como melhor diretor por Assassinato em Gosford Park (2002); por Short Cuts - Cenas da Vida (1994); por O Jogador (1993); por Nashville (1976) e por M*A*S*H* (1971)
- indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes com Kansas City (1976), Aria (1987), Louco de Amor (1986), Três Mulheres (1977) e Imagens (1972); vencedor com M*A*S*H* (1970) e O Jogador (1992)
- Globo de Ouro de melhor diretor com Assassinato em Gosford Park (2002)
- Urso de Ouro (honorário) do Festival Internacional de Berlin em 2002; indicado ao Urso de Ouro por A Fortuna de Cookie (1999); vencedor do prêmio Forum do Novo Cinema com Secret Honor (1985) - dividido com Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho; vencedor do Urso de Ouro com Oeste Selvagem (1976)

Cineweb-20/2/2003

Ana Vidotti


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