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Gramado abre sua competição com temas fortes

Publicado em 19/09/20 às 18h16

Pela primeira vez em sua história sem o tapete vermelho, o público e o calor das presenças de artistas e técnicos no Palácio dos Festivais, via Canal Brasil e online, o 48o. Festival de Gramado apostou, em sua primeira noite competitiva, na sexta (18), na contundência de seus longas - cujos temas não foram feitos para embalar sonhos, mas, em compensação, colocaram o dedo em feridas cujo debate é mais do que inadiável. 

O primeiro longa da competição brasileira, Por que você não chora?, da realizadora brasiliense Cibele Amaral, mergulha de cabeça no tema do transtorno mental e do suicídio, construindo uma narrativa em torno de duas mulheres - a estagiária de Psicologia Jéssica (Carolina Monte Rosa) e uma paciente, Bárbara (Bárbara Paz). Bárbara tem toda sua vida desestruturada pelos efeitos do transtorno borderline. Jéssica é introvertida e incapaz de compartilhar emoções ou manter relacionamentos, exceto com a irmãzinha, de quem ela é protetora, projetando nela uma série de expectativas.

O universo feminino predomina aqui, literalmente - 90% do elenco é feminino, incluindo Elisa Lucinda, Cristiana Oliveira e Maria Paula, além de 75% da equipe técnica. O tema do transtorno borderline, por sua vez, é caro à diretora Cibele Amaral, que revelou sofrer dele no debate deste sábado - que aconteceu via zoom.  

Há várias questões complexas enfeixadas no roteiro, de autoria da diretora, inclusive questões de classe - Bárbara vem de uma elite que tem acesso a estudo e viagens, Jéssica é filha de camponeses do interior de Goiás. O que não impede que sejam irmanadas no sofrimento psicológico, cada uma em seu contexto. A atriz Elisa Lucinda observou que o fato de terem feito cenas numa instituição de saúde mental em funcionamento permitiu que ela identificasse o que definiu como “miséria na riqueza” - ou seja, mesmo pessoas nascidas na elite que têm dinheiro e acesso a todos os benefícios já “nascem com seus sonhos sequestrados”, uma vez que não lhes é dado o direito de escolher o papel que irão desempenhar na vida. Tudo já seria predeterminado e imposto, a elas só restando ocupar esse lugar ou sofrer pressões que as levariam também ao desequilíbrio.  

Elisa também comentou a dificuldade da população pobre de ter acesso a atendimento psicológico. “A gente vive numa sociedade muito borderline”, afirmou. 

Preconceito contra terapia

O produtor Patrick de Jongh, por sua vez, criticou como a figura do psicólogo é apresentada muitas vezes de maneira caricata no cinema, ao contrário deste filme. “Há muito preconceito no Brasil em torno da terapia, como se fosse coisa de ‘gente doida”. O brasileiro procura terapia no bar ou na igreja”, lamentou. 

De todo modo, Por que você não chora? constroi várias camadas do universo feminino, a partir do ambiente elitizado mas intolerante de Bárbara, do mundo limitado e preconceituoso onde cresceu Jéssica, e também das possibilidades que essas mulheres encontram no mundo social, acadêmico, judicial (como quando Bárbara tenta reaver a guarda do filho). Por isso, não se trata, meramente, de um filme de “caso psicológico”, embora a situação destas duas personagens tenha sido calcada em pesquisas e seus rumos se inspirem em pessoas reais. Há humanidade infiltrada na composição destas criaturas, capazes também de humor, afeto e empatia. O filme tem uma complexidade capaz de lhe dar relevância. 

Selva argentina

Já o concorrente estrangeiro da primeira noite, o argentino El silencio del cazador, de Martín Desalvo, ambienta-se no parque nacional de Misiones, abordando temas de forte repercussão para o Brasil, como as caçadas ilegais, a exploração das populações indígenas e o persistente boicote dos donos de terras às leis de conservação da natureza e aos direitos dos povos originários. 

Um trio de personagens carrega a trama, impregnada de forte tensão: o guarda florestal Ismael Guzmán (Pablo Echarri), empenhado na luta contra caçadores ilegais, o mais contumaz deles o rico fazendeiro Orlando Venneck, ou “Polaco” (Alberto Ammann); entre eles, está a médica local, Sara (Mora Recalde), mulher de Guzmán mas que no passado foi namorada do Polaco. 

Entre eles, flui a familiaridade de pessoas que cresceram juntas, mas também toda a fricção das diferenças de gênero e classe - como fato de que o pai de Guzmán foi empregado na fazenda dos Venneck. Fora o ressentimento da exploração de seu pai pelos ricos proprietários, há ainda o ciúme das relações de Sara com Polaco, com potencial dramático crescente. 

Incendiando um ambiente já altamente carregado, surge ainda um jaguar na floresta, que está atacando o gado dos fazendeiros da região. Isto leva a outro conflito com os guardas florestais, que querem preservar o animal, procurando estimulá-lo a deslocar-se a outro ponto da mata, enquanto os fazendeiros querem simplesmente matá-lo. 

A história constroi também um elemento que tem ressonância no Brasil, mostrando o choque entre o idealismo de Guzmán em prol da preservação e as conveniências sociais que seus chefes procuram manter, evitando punições aos Venneck, por temer um confronto aberto com a elite local, protegida por instâncias policiais e judiciais, eventualmente corrompidas. 

Ecos do real

Na coletiva online, o diretor contou que a história trouxe inspiração em notícias de jornal. Entrevistas de guardas florestais de Misiones serviram de base ao roteiro, assinado por Francisco Kosterlitz. Sobre as queimadas que abalam neste momento regiões brasileiras, como o Pantanal e a Amazônia, Desalvo comentou que o mesmo problema ocorre em algumas regiões da Argentina, como o delta do rio na região de Rosário. A diferença, neste momento, é justamente o governo - no caso argentino, o presidente Alberto Fernández está empenhado em lutar contra o problema. 

Respondendo a uma pergunta sobre demarcações de terras indígenas, Desalvo comentou que no governo anterior, de Mauricio Macri, grupos privados foram muitas vezes estimulados a invadir terras dos povos originários, caso especialmente grave na Patagônia. 

Curtas

Dois curtas-metragens abriram a competição do festival. O concorrente mineiro, 4 bilhões de infinitos, de Marco Antônio Pereira, retratou de maneira delicada o mundo da imaginação de um menino e sua irmã - que, sofrendo privações numa casa em que a luz vive cortada, sonham com formas alternativas de energia para criar uma sala de cinema ao ar livre.

Já o concorrente paulista, Receita de Caranguejo, de Issis Valenzuela, focou no intimismo da relação entre uma mãe (Preta Ferreira) e a filha adolescente (Thais Melo), depois da partida do pai, construindo uma nova intimidade a partir do preparo de um prato com caranguejos. 

Na coletiva, Preta Ferreira, ativista do Movimento Sem Teto de S. Paulo, comentou sua intenção de que suas memórias da prisão - “Minha Carne - Diário de uma Prisão”, em lançamento pela Boitempo - sejam adaptadas para o cinema. Já a diretora Issis Valenzuela anunciou que a série Empoderadas, centrada nas questões das mulheres negras, será lançada em dezembro. 

Segunda noite

A segunda noite competitiva do festival será transmitida a partir das 20h no Canal Brasil. Confira detalhes abaixo:

20H

MOSTRA COMPETITIVA

CMB  Inabitável (PE), de Matheus Farias e Enock Carvalho / 19′

CMB  Subsolo (RS), de Erica Maradona e Otto Guerra / 08′

LMB  Todos os mortos (SP), de Caetano Gotardo e Marco Dutra / 120′

LME  La Frontera (Colômbia), de David David / 89’36”


LMB e LME | Longas-Metragens Brasileiros e Estrangeiros

Única exibição em televisão pelo Canal Brasil, a partir das 20h.

CMB | Curtas-Metragens Brasileiros

Única exibição em televisão pelo Canal Brasil, de acordo com a programação;

Disponível 24h no Canal Brasil Play, o serviço de streaming. 

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Neusa Barbosa


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