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No coração da selva colombiana

Publicado em 20/08/19 às 10h10

Diretor que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro com “O Abraço da Serpente”, Ciro Guerra, ao lado da codiretora Cristina Gallego, volta ao centro da cultura indígena de seu país em “Pássaros de Verão”, que retrata a destruição da comunidade Wayyu a partir da expansão do tráfico de drogas em sua terra. 
 
Aos 38 anos, Ciro Guerra é o nome mais visível do cinema moderno colombiano. Com uma obra centrada nas culturas ancestrais de seu país, ele recebeu uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro em 2016, por seu impactante terceiro longa, O Abraço da Serpente, uma aventura na natureza e no universo indígena, em torno da busca de uma flor rara, compondo um cativante relato sobre choque entre a cultura indígena e a ciência etnocentrista do colonizador europeu.
 
Seu longa seguinte, codirigido por Cristina Gallego, Pássaros de Verão, que abriu a Quinzena dos Realizadores em Cannes em 2018 - e percorreu festivais como Locarno, Lima, Chicago, Cairo e Haifa -, igualmente coloca os indígenas, no caso, os Wayyu do norte colombiano, no centro da história - que resgata a brutal transformação de seu modo de vida a partir da expansão do tráfico de drogas em seu território.Este filme representou a Colômbia nas indicações ao Oscar de filme estrangeiro (não entrou na lista final). 
 
Em entrevista exclusiva ao Cineweb, por telefone, o diretor colombiano comenta sobre esta projeção exterior do filme. Na verdade, segundo ele, estas indicações ao prêmio mais famoso do mundo “dão visibilidade às questões indígenas não só fora do país, mas dentro da Colômbia também”. Cerca de 2 milhões de habitantes da Colômbia, de um total de 49 milhões, identificam-se como indígenas. Como o Brasil, comenta o diretor, a Colômbia é um país em que são muito evidentes tanto a mestiçagem quanto o racismo. “Socialmente, na Colômbia, não existe muito diálogo entre as diferentes populações do país; somente quando ocorrem tragédias, ou alguma situação assim”, afirma.
 
Quatro anos
Em compensação, a obra de Guerra e Gallego traduz uma aproximação crescente com este universo indígena. No caso dos Wayyu, este primeiro contato com os diretores ocorreu há 10 anos, quando Ciro e Cristina, que trabalhou como produtora, fizeram Las Viajes del Viento, vencedor dos prêmios de melhor direção e melhor filme no Festival de Cartagena, na região norte da Colômbia, onde Guerra, aliás, nasceu, em Rio de Oro.
 
Já naquela altura, a comunidade Wayyu manifestou o desejo de contar, de seu ponto de vista, os dramáticos acontecimentos agora retratados em Pássaros de Verão - que acompanha a chegada dos jovens norte-americanos que integravam os chamados Corpos de Paz, com intenção de doutrinação anticomunista, e que, ávidos consumidores da maconha local, estimularam os indígenas a aumentar seu plantio e comércio, com consequências econômicas e sociais desastrosas ao longo das próximas décadas.
 
Embora seja crítico, de várias maneiras, a esse papel desempenhado pelos Corpos de Paz, o diretor deixa claro que seu filme não tem intenção de satanizar os norte-americanos. “Esse consumo deles entrou de maneira muito ingênua. Afinal, a marijuana na época ali era legal. Não queremos atribuir responsabilidades. O que nos interessa é retratar a complexidade dessa entrada da droga e da violência naquele universo”.
 
Os próprios Wayyu, segundo o diretor, são bastante francos sobre seu próprio papel naquela época. Para eles, de acordo com Guerra, aquele foi “um período áureo, de desenvolvimento econômico, já que ganharam muito dinheiro, só que a um custo altíssimo do ponto de vista das mortes, da violência e da destruição cultural”. Ainda assim, interessava aos Wayyu ter essa memória, permitindo aos diretores elaborar com eles um roteiro longe de qualquer imagem idealizada, apontando para um relato humano e complexo das dramáticas situações vividas.
 
Casting e línguas locais
Todo esse processo de desenvolvimento do roteiro - assinado por Maria Camila Arias e Jacques Toulemonde Vidal, a partir de uma ideia original dos diretores - e do casting, feito todo no território Wayyu, levou cerca de quatro anos, permitindo também a tradução dos diálogos nas línguas locais, faladas no filme.
 
Três atores profissionais - José Acosta, Natalia Reyes e Carmiña Martínez - integram o elenco, todos com raízes na região. Segundo Guerra, o filme lhes permitiu, inclusive, “voltar a conectar-se com suas raízes familiares, já que retomaram a língua de seus ancestrais”. Esse processo de aprendizado linguístico durou cerca de três meses. 
 
Concluído o filme, a comunidade Wayyu foi a primeira a assisti-lo em seu próprio território. Segundo o diretor, foi aprovado. “Para eles, ver-se retratados em seu próprio idioma, em sua cultura, mesmo trazendo recordações tristes, deixou-os satisfeitos, pois sentiram que havia respeito”.
 
Novos projetos
No final de agosto, Ciro Guerra leva à competição em Veneza seu novo filme, o primeiro em língua inglesa, Waiting for the Barbarians. Baseado em romance do sul-africano J.M. Coetzee, trata-se de um drama de época, estrelado por Mark Rylance, Johnny Depp e Robert Pattinson. Ele se diz satisfeito com esta sua primeira experiência de produção internacional: “O tratamento que demos ao romance contemplou todos os pontos que me interessavam”, garante.

Neusa Barbosa


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