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Festival Internacional de Curtas começa em S. Paulo

Publicado em 22/08/18 às 16h51

Começa nesta 5ª feira, 23 de agosto, a 29ª edição do Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo . Dirigido por Zita Carvalhosa e organizado pela Associação Cultural Kinoforum, o evento exibe gratuitamente 323 filmes de 53 países em seis salas de cinema da capital – MIS, CineSesc, Cinemateca Brasileira, Espaço Itaú Augusta, Cinusp, CCSP, além de 17 espaços participantes do Circuito Spcine – até o dia 2 de setembro.
 
Com o tema “Em Busca do Tempo de Agora”, a edição destaca filmes pautados em questões do presente, no Brasil e no mundo: a comunicação digital, a representação política, a imigração e nova vida dos refugiados, o feminismo e a luta diária das mulheres por direitos iguais, a homossexualidade e a transexualidade, o empoderamento de minorias e ainda o preconceito racial. Mas também faz um resgate do passado, buscando referências que nos ajudam a compreender o momento que vivemos.
 
A programação é dividida em três partes: as mostras principais Internacional, Latino-Americana e Programas Brasileiros, que revelam um panorama do cinema atual; os Programas Especiais, com atrações já tradicionais do festival, como a Mostra Infantojuvenil e o retorno da sessão de terror, além de novidades a cada edição; e as Atividades Paralelas, que incluem debates e workshops, como o Curta & Mercado e os Kinoforum Labs.
 
MOSTRAS PRINCIPAIS
 
Mostra Internacional reúne 64 filmes, selecionados a partir de 2477 inscritos na categoria. Além de curtas de nações de forte tradição audiovisual, como França, Reino Unido e Estados Unidos, há preciosidades como Outro dia de Sol, de Tim Huebschle, da Namíbia, o que permite que o público faça uma viagem ao redor do mundo ao entrar em qualquer uma das suas sessões.
 
Os deslocamentos humanos seguem na pauta internacional. O documentário suíço Hamama & Caluna, de Andreas Anuuk Muggli, acompanha os dois personagens do título que, esquecidos em um campo de refugiados no norte da Itália, decidem cruzar a fronteira pelos Alpes. Mas também há obras que abordam estes imigrantes já nos locais em que se estabeleceram, como o francês Deglet Nour, de Sofiane Halis, sobre Ismael e seu novo trabalho: cobrir o guarda e cuidar do cachorro em uma obra.
 
Grandes nomes da literatura estão na mostra. Da França, Ele disse Amor, dirigido por Inés Sedan, traz Charles Bukowski lendo seu poema “Love” para uma plateia animada em São Francisco. Já o norte-americano Hiato, de Vivian Ostrovsky, apresenta Clarice Lispector, pouco antes de sua morte, na Copacabana de 1977.
 
Curtas premiados nos principais festivais de cinema do mundo também integram a seleção. É o caso de Essas Criaturas Todas, de Charles Williams, da Austrália, que recebeu a Palma de Ouro em Cannes 2018, e Três centímetros, de Lara Zeidan, do Reino Unido, vencedor do Teddy Bear em Berlim 2018. 
 
Mostra Latino-Americana tem 29 curtas, escolhidos entre quase 250 inscritos, que percorrem a região de ponta a ponta, do México ao interior da Argentina.
 
Mais uma vez, a Colômbia recebe grande espaço no programa e aponta diversidade de formatos – ficção, documentário e animação – e temáticas. Exibido nos festivais de Sundance, Veneza e Clermont-Ferrand, Terra Molhada, de Juan Sebastián Mesa, é um representante do país. Conta a história de Oscar, que vive com os avós em uma humilde casa de campo, que está no meio de um grande projeto hidrelétrico.
 
Negra Sou, de Laura Bermúdez, é o primeiro filme de Honduras a participar do Festival. Ele retrata três mulheres e uma menina da primeira comunidade garífuna – grupo étnico formado pela miscigenação de índios caraíbas com escravos africanos – da história do país.
 
O argentino As Flores, de Renzo Cozza, eleito o melhor curta do Bafici – Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires – e com participação da conhecida atriz Inés Efron, acompanha Ana, que vive em silêncio, mas precisa pedir um favor a uma amiga. Também da Argentina, Eva conta a história de uma mulher transexual que dedica a vida a ajudar crianças como assistente social em sua pequena cidade.
 
A espiritualidade também é tema da mostra e está presente no curta mexicano Águas Tranquilas, Águas Profundas, de Miguel Labastida González. Depois de tentar o suicídio, Aurora se vê presa entre o misticismo da religião e medidas psiquiátricas prescritas pela mãe.
 
Os Programas Brasileiros reúnem 109 curtas, de 18 estados, selecionados em meio a 711 inscritos de todo o país, revelando um panorama diverso do audiovisual nacional.
 
Na Mostra Brasil estão 53 deles e questões sociais são vistas até nos filmes mais subjetivos, como O Órfão, de Carolina Markowicz (São Paulo). Inspirado em fatos reais, conta a história de Jonathas, que é adotado, mas é devolvido logo depois, por ser diferente dos outros garotos. Com Clarisse Abumjara no elenco, o curta que estreou na Quinzena do Realizadores  em Cannes, recebeu o Queer Palm, prêmio para filmes com temática LGBT.
 
Protagonizado por Lea Garcia, Acúmulo, de Gilson Mendes Junior (Rio de Janeiro), segue o dia-a-dia de Lete, uma senhora frágil que passa os dias recolhendo nas ruas de Nilópolis tudo o que seu marido carpinteiro poderia consertar. Também do Rio, Adeus à Carne, dirigido por Julia Anquier, mostra três garotas que se divertem durante o Carnaval em uma festa movida a drogas, mas um homem cruza o caminho delas e comete um erro terrível.
 
Do Acre, estado que só teve quatro representantes em toda a trajetória do Festival (e que não aparece na seleção desde 2001), é Xinã Bena, filme de Dedê Maia, que revela as transformações sociais, políticas, econômicas e culturais vividas pelo povo Huni Kui, do rio Jordão. E de São Paulo, vêm outros dois destaques da mostra: Uma Bala, de Piero Sbragia, documentário que aborda o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, que quase cinco meses depois permanece sem solução, e Maria, de Vinicius Campos, uma adaptação do conto homônimo de Conceição Evaristo, sobre uma empregada doméstica que reencontra o pai do seu primeiro filho.
 
Para o Panorama Paulista foram escolhidos 24 curtas da capital e interior de São Paulo, em que temas como moradia e o direito de ir e vir são assuntos recorrentes.
 
Em Kairo, de Fabio Rodrigo, a atriz Vaneza Oliveira (da série “3%”, da Netflix) interpreta uma assistente social que precisa tirar um menino da escola, na periferia da cidade, para uma difícil conversa. O Sonho de Eder, de Sofia Amaral, documenta a vida do universitário indígena Eder, entre a falta de alternativas de subsistência e a forte influência da religião evangélica.
 
Dois nomes conhecidos no Brasil, mas não como curta-metragistas, estão na mostra estadual. Diretor de novelas, minisséries e longas, como Olga e O Vendedor de SonhosJayme Monjardim apresenta Diário de um Compositor em Viagem, um registro da rotina do compositor Alexandre Guerra durante a gravação da trilha de um filme, em Budapeste e Paris. Já o artista visual Nuno Ramos dirige Lígia, uma edição do Jornal Nacional em que seus apresentadores e repórteres “cantam” a música homônima de Tom Jobim.
 
No Cinema em Curso estão curtas realizados em 14 escolas de audiovisual, de oito estados brasileiros. Entre os inscritos brasileiros, os filmes de estudantes representaram 30% do total, destacando produções bastante engajadas, como Afronte, de Bruno Victor e Marcus Azevedo (Distrito Federal), que mistura ficção e documentário para mostrar o processo de transformação e empoderamento de um jovem negro e gay. O Caos, as Trevas e a Mulher, de Maria Clara Arbex (Bahia), aborda a construção da feminilidade e as imagens que foram impostas às mulheres.
 
 Entre as mostras especiais da 29ª edição do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, a Cavideo: 21 anos em 21 curtas é mais que uma homenagem ao realizador e empreendedor do audiovisual Cavi Borges, é a celebração da “vitória da resistência cultural no Brasil”, em suas palavras.
 
Produtora que mais faz filmes no país (10 longas e 15 curtas por ano, em média) e distribuidora que mais lança filmes no cinema brasileiro (4 por ano, segundo a Ancine), é também uma das últimas locadoras que existem. Inspiração para quem faz e vive do cinema independente, o projeto está representado em curtas como Depois da Chuva, dirigido pelo próprio Cavi Borges, sobre uma mulher solitária e exilada numa cidade distante, que escreve sua vida num diário. Ele também participa da tradicional sessão Do Curta ao Longa com o novo documentário Salto no Vazio, que tem codireção de Patricia Niedermeier.
 
Dois grandes representantes do cinema alemão são tema de A Juventude de Herzog e Wenders, que apresenta os primeiros curtas realizados pelos dois diretores. Hércules (1962) é o trabalho de estreia de Werner Herzog, que busca já a sutil transgressão do mero documentário e evoca um tema central de suas obras: o ridículo da revolta titânica. Já Silver City Revisitada (1968) revela uma obsessão de Wim Wenders por paisagens vistas de uma série de janelas de apartamentos em Munique.
 
A parceria do Festival com a Quinzena dos Realizadores resulta em dois programas neste ano. O primeiro apresenta cinco destaques da última edição de Cannes, como o colombiano Nossa Canção Para Guerra, de Juanita Onzaga, que investiga personagens da floresta para entender como espíritos e humanos se encontram para aprender a vida após o fim da guerra. O filme integra também a Mostra Latino-Americana. O segundo programa reúne curtas do projeto A Fábrica, de Dominique Welinski, que estará presente no Festival.
 
Serviço
 
29º FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURTAS-METRAGENS DE SÃO PAULO
Abertura para convidados: 22 de agosto, no CineSesc
Programação: 23 de agosto a 02 de setembro de 2018 – Entrada gratuita
Locais: MIS, CineSesc, Cinemateca Brasileira, Espaço Itaú Augusta, Cinusp, CCSP e Circuito Spcine de Cinema.
Co-realização: Sesc SP, Spcine, Ministério da Cultura (edital FSA e Lei de Incentivo à Cultura), Superfilmes, MIS, Cinemateca Brasileira, Secretaria de Estado da Cultura (Proac ICMS). 
Patrocinio: Apsen e Sabesp
Informações: www.kinoforum.org/curtas / www.facebook.com/kinoforum
 

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