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Dia de Han Solo e índios do Brasil no Un Certain Regard

Publicado em 16/05/18 às 11h40

Cannes – Se a passagem de um norte-americano, Spike Lee, acendeu a competição com seu rastilho de criatividade, relevância e polêmica com BlacKkKlansman, em compensação seu compatriota David Robert Mitchell foi uma grande decepção, com seu esquisito Under the Silver Lake.
 
Parece que bateu em Mitchell um complexo de “quero ser Alfred Hitckcock, David Lynch e Brian De Palma” tudo ao mesmo tempo. O resultado é uma salada cheia de penduricalhos e que resulta insossa no final. Sam (Andrew Garfield) é um jovem de 33 anos, desempregado e deslocado numa Los Angeles assombrada por personagens bizarros – louras fatais, um desenhista de quadrinhos sinistros e até um matador de cães. Em 2h19, toda essa mistura, em torno de um personagem obcecado em “ler os sinais” passados pela mídia, que ele acredita destinados apenas a alguns eleitos, e também pelo desaparecimento de uma sua vizinha (Riley Keough), mostrou-se uma provocação pretensiosa e boba, nada mais.
 
A origem de Solo
Fora da competição, a aventura Han Solo – Uma História Star Wars – que estreia no Brasil no dia 24 próximo – mostrou-se mais divertido, ao retratar a juventude de um dos personagens mais queridos da saga Star Wars, Han Solo (aqui, interpretado por Alden Ehrenreich).
 
Basicamente, o filme dirigido por Ron Howard dedica-se a apresentar uma série de peripécias em que o nosso jovem herói se verá envolvido, sempre em busca de tornar-se piloto e conhecer seu bom e velho Chewbacca (Joonas Suotamo). Antes disso, ele encontra a bela Qi’ra (Emilia Clarke), com quem arma a fuga de um planeta medonho, mas eles são separados por um incidente. Voltarão a ver-se bastante tempo depois, quando a moça já estará engajada em outra parada, como braço direito de um mega-vilão, Dryden Vos (Paul Bettany).
 
Basicamente, as aventuras em que se envolvem Solo, Qi’ra e também Beckett (Woody Harrelson) e outro piloto, Lando Calrissian  Donald Glover), além de uma co-piloto androide feminista e libertária (um aceno para os tempos modernos, ligados nas questões de gênero), giram em torno de um poderoso combustível em que todo mundo quer pôr a mão e custa a vida de não poucos pelo caminho. No meio disso, nosso pequeno Han Solo mostra que já sabe muito bem o que fazer, não só a bordo de uma nave como numa mesa de jogo. Não é o tipo de filme que muda a história do cinema, é certo, mas entretém.
 
Indígenas do Brasil na UCR
Na seção Un Certain Regard, a atração desta quarta (16) foi a coprodução luso-brasileira Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, do diretor português João Salaviza e da brasileira Renée Nader Messora. Na verdade, uma obra semidocumental, acompanhando cenas da vida da aldeia de Pedra Branca, comunidade Krahô, seguindo especialmente o adolescente Ihjãc (Henrique Ihjãc Krahô), que atravessa uma dramática passagem à vida da adulta.
 
Ihjãc perdeu seu pai e deve fazer um ritual para que seu espírito possa viajar em paz para a aldeia dos mortos. Mas, amedrontado por ouvir a voz do pai morto, o que é um sinal de que ele possa estar recebendo um chamado para tornar-se xamã, ele decide partir para a cidade – onde o mal-estar que sente é identificado como hipocondria e ele não encontra tratamento, resposta ou compreensão.
 
De todo modo, esta viagem do rapaz ao mundo dos brancos retrata com clareza a disfunção vivida pelos índios nesse ambiente, em que não encontram lugar ou o devido respeito, já que suas referências não são conhecidas ou entendidas. Tudo isso transcorre, na história, com muita sutileza, nenhum discurso, diante da câmera atenta aos movimentos destes índios, que com certeza entregaram ao filme suas imagens, canções, modo de vida, compartilhando-os com os espectadores. Provavelmente, Darcy Ribeiro, se estivesse vivo, aprovaria esta aproximação respeitosa à cultura indígena que o filme promove.

Neusa Barbosa, de Cannes


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