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28o Festival de Curtas de SP consagra sua edição ao "humor em tempos de cólera"

Publicado em 20/08/17 às 13h25

Começa na próxima quarta-feira (23-8), com sessão especial para convidados, a 28ª. edição do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, que se estende até 3 de setembro de 2017. Dirigido por Zita Carvalhosa e organizado pela Associação Cultural Kinoforum, o evento apresentará gratuitamente 365 filmes de 55 países em seis salas de cinema da capital – MIS, CineSesc, Cinemateca Brasileira, Espaço Itaú Augusta, Cinusp, CCSP, além de outras dezessete participantes do Circuito SPCine.
 
Com o tema “Humor em tempos de cólera” e cartaz assinado por Laerte, a edição destaca filmes que utilizam o humor para tratar de questões polêmicas. “É admirável a rapidez e a inventividade do curta-metragem para detectar as questões urgentes do mundo. Nossa seleção é sempre um retrato do momento que vivemos, mas neste ano, notamos uma diferença. O humor, apesar de tudo, vem com força. Utilizado não só como alívio cômico, mas uma ferramenta de reflexão e crítica, nos faz lembrar que é possível rir das situações, de nós mesmos e até do outro, mesmo em tempos de ânimos acirrados e discussões tão polarizadas”, diz Zita Carvalhosa.
 
Mostras principais
 
Mostra Internacional reúne 60 filmes – quase 2500 foram inscritos na categoria, produzidos em 33 países. Além de curtas de nações de forte tradição audiovisual, como Estados Unidos, França e Reino Unido, há preciosidades vindas, por exemplo, do Nepal, Filipinas e Indonésia, permitindo que o público viaje pelo mundo ao entrar numa sala de cinema.
 
Alguns destaques internacionais estão na animação polonesa Periquita, de Renata Grasiorowska, respondendo à onda conservadora de seu país, ou a liberdade sonhada e nunca alcançada pelo garoto em fuga no turco Baran, de Hasan Serin.
 
A urgente questão dos refugiados é tratada em Elene, de Sezen Kayhan, uma coprodução da Turquia e Geórgia, que nos apresenta a adolescente personagem do título, uma imigrante ilegal que trabalha em uma plantação de chá turca e se sente ameaçada na terra estrangeira. Já o norte-americano Lucia, Antes e Depois, de Anu Valia, retrata o drama de uma jovem protagonista que viaja 320 km e espera 24 horas do lado de fora de um órgão do governo do Texas para fazer um aborto. 
 
Diversos filmes de Portugal e da China demonstram o momento de graça cinematográfica vivida pelos dois países, ambos premiados nos maiores festivais de cinema. O chinês Uma Noite Suave, de Qiu Yang, que recebeu a Palma de Ouro em Cannes, mostra uma noite na vida de uma mãe cuja filha está desaparecida. O português Cidade Pequena, de Diogo Costa Amarante, vencedor do Urso de Ouroem Berlim, acompanha o pequeno Frederico após sua descoberta perturbadora de que as pessoas morrem quando o coração delas para de bater. Outro destaque internacional é a animação francesa Dois Caramujos Se Vão, dirigida por Jean-Pierre Jeunet, que alcançou fama mundial pelo seu longa O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.
 
A Mostra Latino-Americana traz 28 curtas de 10 países – selecionados entre mais de 260 inscritos –, que exploram universos particulares e relações interpessoais por meio de temas como luto, tabu, preconceito e a brutalidade entre os homens. No peruano Monopólio da Estupidez, de Hernán Velit, um rapaz tenta conseguir o atestado de óbito de seu pai, mas se depara com a burocracia. Já o porto-riquenho O Presente, de Joel Pérez Irizarry, retrata uma mãe com passado obscuro que faz tudo para impedir sua filha de ser mandada para os EUA.
 
Com seis filmes no programa, a Colômbia atesta o grande momento de sua cinematografia. É deste país Damiana, que integrou a seleção oficial de Cannes em 2017. Dirigido por Andrés Ramírez Pulido, o curta aborda um grupo de meninas mantidas sob vigilância em meio a uma floresta.  
 
Questões indígenas também permeiam a mostra e estão presentes em dois títulos colombianos. Mãe Natureza, de Jorge Navas, conta a história de uma comunidade que busca de vingança após a morte misteriosa de um indígena, e Killing Klaus Kinski, de Spiros Stathoulopoulos, que ficcionaliza um episódio real, durante as filmagens de Fitzcarraldo, no final dos anos 1970, quando um líder indígena propôs ao cineasta Werner Herzog assassinar o ator alemão Klaus Kinski, que causava enormes problemas no set.
 
Programas brasileiros
 
Os Programas Brasileiros incluem 96 curtas, produzidos em 16 estados do país, Na Mostra Brasil estão 45 deles. Muitos tratam de temas sociais e políticos relevantes, como representação negra e indígena, direitos sociais e trabalhistas e a situação dos imigrantes no Brasil e de brasileiros que deixaram o país. O Estacionamento (PR), de William Biagioli, expõe um imigrante haitiano no Brasil que arruma emprego em um estacionamento e passa a morar lá. Casca de Baobá (RJ), de Mariana Luiza, traz uma jovem negra que, nascida em um quilombo, estuda na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Já Terminal 3 (SP), de Thomaz Pedro e Marques Casara, fala de 150 homens resgatados em situação de trabalho escravo na construção do novo terminal do Aeroporto de Guarulhos.
 
Atriz cultuada na cena do curta-metragem, Gilda Nomacce está presente em quatro produções paulistas, Minha Única Terra é a Lua, de Sergio Silva, Febre, de João Marcos de Almeida e Sergio Silva e as estreias mundiais Filme-Catástrofe, de Gustavo Vinagre e A Passagem do Cometa, de Juliana Rojas – este último, abordando situações numa clínica de aborto por ocasião da passagem do cometa Halley.
 
Outros destaques da mostra são Em Busca da Terra sem Males (RJ), de Anna Azevedo, sobre crianças de uma tribo indígena nos arredores do Rio de Janeiro, crescendo entre as antigas tradições e a cultura urbana, que foi selecionado para festivais como de Berlim e Hamburgo, e a animação Torre (SP), de Nadia Mangolini, que faz estreia no festival, uma criativa animação revelando as lembranças de infância de quatro irmãos, filhos do sindicalista Virgílio Gomes da Silva, o primeiro desaparecido político da ditadura militar brasileira.
 
Para o Panorama Paulista foram escolhidos 23 curtas do estado de São Paulo. Super Oldboy, de Eliane Coster, segue um idoso que trabalha como office boy e se envolve em um assalto a banco inusitado. Com Laerte e Elke Maravilha, recebeu prêmio do júri popular no Festival de Gramado. The Beast, de Michael Wahrmann e Samantha Nell, se passa na África do Sul, em um dia divertido de safari, e foi exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes. Também está na seleção o documentário Meninas, de Carla Gallo, que conta a trajetória de ginastas olímpicas como Daiane dos Santos, Daniele Hypolito e Jade Barbosa.
 
Da internet para a TV e agora para as telas do cinema, o coletivo Porta dos Fundos apresenta uma seleção de suas esquetes que abordam a fé e suas implicações no mundo moderno. Sorrindo à Francesa reúne filmes de humor particular que revelam que, apesar da impressão de seriedade, os franceses gostam de rir e sabem fazer rir. Já o programa MUMIA é uma parceria com a Mostra Udigrudi Mundial de Animação, de Belo Horizonte, com obras desde a década de 1990 de autores como Otto Guerra e Allan Sieber.
 
Homenagens
 
A 28ª edição do festival presta homenagem a dois ícones do cinema em mostras especiais. Jacques Rivette (1928 – 2016) foi um grande expoente da Nouvelle Vague, integrando o grupo de críticos da revista Cahiers du Cinéma, ao lado de François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Claude Chabrol. Serão exibidos três títulos inéditos do autor, todos em preto e branco e silenciosos. Produzidos entre 1949 e 1952, os curtas ficaram esquecidos durante quase sete décadas, sendo encontrados por sua viúva, Véronique, no apartamento do casal, no ano passado.
 
A Revolução do Desejo – Carole Roussopoulos (1945-2009) celebra a cineasta e ativista feminista, nascida na Suíça e radicada na França. Roussopoulos foi uma das pioneiras na arte do videomaker e registrou o movimento pelo direito das mulheres e a luta contra o preconceito homossexual e racial em mais de 150 documentários, produzidos entre 1960 e 1990. Entre os filmes, está S.C.U.M. Manifesto, baseado na obra da feminista radical norte-americana Valerie Solanas, e Genet Parle D'Angela Davis, em que o escritor Jean Genet denuncia a política racista dos Estados Unidos, apoiando os Black Panthers e a ativista Angela Davis, presa em 1970.
 
Cineastas integrantes da Associaçãodos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) assinam a curadoria de Mulheres Negras – Mergulho Ancestral e Mulheres Negras – Identidade Polifônica, com filmes feitos por e sobre mulheres negras, abordando representativa e ancestralidade, e também Empoderadas, com episódios da websérie idealizada pela cineasta paulistana Renata Martins, que luta contra o racismo e o machismo da nossa sociedade.
 
Diferente como Todo Mundo traz filmes escolhidos pelo Festival International du Film sur le Handicap, da França, a respeito de pessoas com deficiência e uma seleção brasileira, incluindo Conferência, primeiro filme dirigido por Ariel Goldenberg, protagonista do longa-metragem Colegas. Já Lusofonia é uma parceria com o Arte Institute, organização sem fins lucrativos que promove a cultura de Portugal, e apresenta filmes de língua portuguesa produzidos em países como Angola, Cabo Verde, Moçambique e Timor Leste.
 
Em comemoração à 70ª edição do Festival de Cannes, a mostra Cannes 70 exibe os curtas brasileiros que estiveram na competição oficial da premiação francesa ao longo de suas sete décadas de história. Entre os filmes, Quimera (2004), de Erik Rocha, e A Janela Aberta (2002), de Philippe Barcinski. Os 50 Anos do Festival de Cine de Viña del Mar também são celebrados, com a seleção de produções latino-americanas premiadas nas últimas edições do FICVIÑA.
 
 
28º FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURTAS-METRAGENS DE SÃO PAULO
Abertura para convidados: 23 de agosto
Programação: 24 de agosto a 03 de setembro de 2017 – Entrada gratuita
Locais: MIS, CineSesc,  Cinemateca Brasileira, Espaço Itaú Augusta, Cinusp, CCSP  e Circuito SP Cine de Cinema.
Informações: www.kinoforum.org/curtas / www.facebook.com/kinoforum
Patrocínio: Petrobras e Sabesp

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