Notícias

Stanley Kubrick, a perfeição acima de tudo

Publicado em 09/07/12 às 17h08

Autor de apenas 12 longas e dois curtas em quase 50 anos de carreira, o diretor americano Stanley Kubrick poderia passar por preguiçoso. Isso se ele não tivesse sido o obsessivo perfeccionista, criador de obras-primas como Glória Feita de Sangue (1957), 2001, uma Odisséia no Espaço (1968), Laranja Mecânica (1971) e Nascido para Matar (1987). Em 1997, aos 69 anos, foi homenageado pelo Festival Internacional de Cinema de Veneza, dois anos antes de sua morte, no dia 7 de março de 1999.

Fiel como sempre ao seu low profile, o novaiorquino Kubrick não deixou seu refúgio na Inglaterra, onde se radicou durante 36 anos, para receber o Leão de Ouro especial. Preferiu entregar a missão à bela Nicole Kidman, atriz de sua décima-terceira e última produção, De Olhos Bem Fechados, na qual contracenou com o então marido, Tom Cruise. Rompendo um silêncio criativo que já durava dez anos - o último filme de Kubrick havia sido Nascido para Matar - De Olhos Bem Fechados foi seu testamento. Não teve tempo de iniciar seu próximo projeto, A. I. - Inteligência Artificial, que incumbiu Steven Spielberg de executar.

Em De Olhos Bem Fechados, Kubrick, conhecido por ser muito exigente com seus atores, chegou a inacreditáveis 100 takes de uma única cena. Não se sabe se foi este o motivo de Harvey Keitel ter abandonado o cast no meio da produção, sendo substituído por Sydney Pollack. As cenas de sexo entre Tom e Nicole foram filmadas pelo próprio Kubrick que dispensou toda a equipe técnica e ficou sozinho com o casal no estúdio.

Se Kubrick podia enlouquecer seus intérpretes, não raro tinha o poder de extrair o melhor deles. Assim, trabalhar sob sua batuta tinha o sabor de um troféu por si mesmo.

Juntamente com Orson Welles, Stanley Kubrick compartilhou a precocidade, a genialidade e a incompreensão de Hollywood. Sensato foi mesmo o pai de Stanley, um médico, que sabia exatamente em que direção apontava o talento do filho quando lhe deu uma câmera fotográfica, em 1941, quando o rapaz tinha apenas 13 anos de idade. Quatro anos depois, o jovem Stanley já trabalhava como fotógrafo profissional na revista Look, uma das mais importantes publicações da época. Uma façanha, sem dúvida, mas que não bastou para saciar sua fome do novo por mais de quatro anos.

Cinéfilo fanático, Kubrick juntou US$ 3.900 em 1950 para produzir seu primeiro curta-metragem, o documentário Day of the Fight, com o pugiliosta Walter Cartier, que já havia fotografado para a Look. Deu sorte: conseguiu vendê-lo à RKO por US$ 4.000, o mais alto preço já pago até então pelo estúdio por um filme do gênero.

Animado com o sucesso e os US$ 100 de lucro, largou o emprego na Look e lançou-se à produção do segundo curta, outro documentário para a RKO, The Flying Padre, também de 1950.

Aí, já entendeu que era hora de pensar num longa-metragem. Juntou US$ 40 mil com empréstimos de parentes e amigos e assim nasceu Fear and Desire (1953), inédito até hoje no Brasil. Da mesma forma que nos curtas, Kubrick acumulou todas as funções: produziu, dirigiu, operou a câmera, fez pessoalmente a montagem. No segundo filme, A Morte Passou por Perto (1955), foi a mesma coisa.

Só a partir de seu terceiro longa, O Grande Golpe (1956), o diretor passou a contar com uma estrutura profissional. Isto aconteceu em parte porque ele mesmo fundou uma produtora, associado ao produtor James B. Harris. Outra razão foi ter atraído para o projeto o ator Sterling Hayden, cuja presença convenceu a United Artists a investir US$ 200 mil, uma soma bastante elevada para a época. A mesma United desembolsou US$ 1 milhão para financiar o quarto trabalho do diretor, Glória Feita de Sangue (1957). Apesar do sucesso de crítica, Kubrick fez mau negócio ao abrir mão do salário em troca de um porcentual da renda destas duas fitas, que foram mal na bilheteria. Por causa disso, passou dois anos desempregado e só saiu do ostracismo em 1960, quando substituiu Anthony Mann na direção de Spartacus.

De volta à estrada, o diretor iniciou uma fase áurea na carreira, que começou com Lolita (1962), seguida pela sátira negra à bomba atômica Dr. Fantástico (1964) até o magnífico 2001, Uma Odisséia no Espaço (1968). Por seu simbolismo plástico e sua sofisticada concepção visual, 2001... tornou-se um divisor de águas no campo do cinema de ficção científica. Além disso, obteve para seu autor o único Oscar de sua carreira, pelos efeitos especiais da obra, que levou quatro anos para ser concluída. Muito pouco para quem sempre esteve à frente de seu tempo.

O polêmico Laranja Mecânica (1971) foi quase profético ao antecipar o comportamento de uma gangue juvenil no futuro - não falta nem mesmo uma cena em que os jovens ateiam fogo a um mendigo. No Brasil, o filme foi proibido pela censura por oito anos. Ao ser finalmente liberado, em 1979, a cópia exibia ridículas bolinhas pretas tentando, inutilmente, cobrir o sexo dos atores nas cenas de nudez. O que era drama, quase virou piada. Essa profanação de seu trabalho irritou profundamente Kubrick, que também reclamaria contra a má qualidade das cópias brasileiras de Barry Lyndon (1975).

O Iluminado (1980) e Nascido para Matar (1987) pareciam a chave de ouro de uma carreira esplêndida, até chegar a De Olhos Bem Fechados, onde sua obsessão perfeccionista voltaria a se manifestar.

Indiferente aos egos que feria pelo caminho, até o fim Kubrick permaneceu apenas fiel a si mesmo. Foi assim desde o primeiro filme, o que contribuiu para consolidar uma fama de difícil, que o diretor nunca ergueu um dedo para atenuar.

Kubrick era um desbravador de caminhos, desses que o cinema leva muito tempo para produzir e parece incapaz de assimilar.

Filmografia

1999 – De Olhos Bem Fechados
1987 – Nascido para Matar
1980 – O Iluminado
1975 – Barry Lyndon
1971 – Laranja Mecânica
1968 – 2001: uma odisseia no espaço
1964 – Dr. Fantástico
1962 – Lolita
1960 – Spartacus
1957 – Gloria Feita de Sangue
1956 – O Grande Golpe
1955 – A Morte passou por Perto
1953 – Fear and Desire

Curiosidades:
Viúva: Christiane Kubrick, com quem se casou em 1958. Antes havia se divorciado duas vezes.
Ocupação: Fotógrafo, produtor, montador, diretor
Principais prêmios: Oscar de efeitos visuais por 2001: Uma Odisséia no Espaço (1967); Leão de Ouro de Carreira no Festival de Veneza (1997); Prêmio da Crítica do Festival de Veneza por De Olhos Bem Fechados (1999); Melhor diretor do New York Critics Circle por Laranja Mecânica (1971).

Neusa Barbosa


Outras notícias