Amém

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Crítica Cineweb

06/10/2003

A primeira vez que o cineasta grego radicado na França Constantin Costa-Gavras pensou em criar uma história que, afinal, resultaria no filme Amém, foi pensando não nos milhões de vítimas do Holocausto mas naqueles que fizeram funcionar aquela que foi uma das mais infernais máquinas de morte da História. "Sempre quis fazer um filme não sobre as vítimas do nazismo, mas sobre o outro lado, sobre o qual tão pouco sabemos. Cerca de 50.000 pessoas trabalharam na administração dos campos de concentração. Ou seja, eram aqueles que capturavam as vítimas, traziam-nas para os campos, e, finalmente, as exterminavam aos milhões. Eu pensava em como eles acordavam todos os dias e iam trabalhar", afirmou o cineasta, durante o Festival do Rio de 2002, em entrevista exclusiva a Cineweb.

A idéia ficou no fundo de sua memória até que, em 1964, o diretor assistiu em Paris, onde vive, uma adaptação teatral da peça Der Stellvertreter, do alemão Rolf Hochhuth, feita pelo escritor espanhol Jorge Semprún - um velho conhecido de Costa-Gavras, co-roteirista de um de seus filmes mais premiados, Z (1968). Desde então, o diretor lutou para obter os direitos de filmar a história que, a princípio, estavam em outras mãos. Apenas em 1997 ele finalmente conseguiu adquiri-los. Assim começou a tomar forma Amém, que conta a história do químico e oficial alemão Kurt Gerstein (Ulrich Tukur). Personagem verídico, Gerstein foi o inventor do gás zyklon B que, originalmente, servia apenas para fins de desinfecção. Durante o regime de Adolf Hitler, o químico viu sua invenção ser desviada para o fim macabro de eliminar os judeus em massa nos campos de concentração.

O filme trata do dilema moral do oficial alemão, um patriota que decide não fugir depois de descobrir a terrível verdade para servir de testemunha e tentar desmontar a máquina de destruição. Para isso, tenta alertar seus amigos na Igreja Protestante e, quando tudo o mais falha, aproxima-se da Igreja Católica. Em Berlim, consegue a adesão à sua causa de um obstinado jovem jesuíta, Riccardo Fontana (Matthieu Kassovitz), que procura em vão sensibilizar o Papa Pio XII para abrir mão da lentidão da diplomacia e intervir pelos judeus. Este personagem do jesuíta é uma fusão de vários religiosos que existiram realmente e testemunharam os horrores da "solução final"dos nazistas e informaram o Papa.

Para o diretor, se por um lado o tema central do filme é a omissão de todas as autoridades procuradas pelo oficial e pelo padre, está aí também embutido o tema da resistência. "Acredito que, mesmo na pior situação possível, há sempre uma possibilidade de resistência, mesmo que isso possa custar sua vida. É isso o que nós aprendemos. Venho de uma família cristã. Vivi entre dois países [Grécia, onde nasceu, e a França, onde mora] onde eles lhe dizem que você deve se sacrificar por suas crenças, por seu país, sua família. Isto é verdade. É muito mais do que palavras", assegura.

Por declarações como essa e filmes como o já citado Z, que aborda a ditadura dos coronéis gregos dos anos 1960, mais Estado de Sítio (1972), que retrata os horrores do regime militar uruguaio, e do mais famoso de todos, Missing-Desaparecido (1982), que narra o desespero de um pai americano (Jack Lemmon) em busca do filho morto sob a ditadura chilena, é que o sereno mas consistente Costa-Gavras forjou para si a imagem de cineasta político, cujas obras embasaram o pensamento de mais de uma geração, particularmente a que foi jovem entre as décadas de 1960 e 1970.

Ironicamente, porém, o diretor rejeita veementemente o rótulo de "diretor político"."Digo isto porque eu não sei o que quer dizer 'diretor político'. O que é isso? Sou um cineasta. O que me atrai na arte é a ética de uma situação, de uma história, de um ser humano. E eu também acredito que todos os filmes são políticos", esclarece.

Convidado a explicar esta última frase, ele acrescenta: "Provavelmente, aqueles que se dizem não-políticos são apenas inocentes. Cada filme é uma espécie de monólogo que se tem com uma platéia. Uma porção de pessoas estão ali para ouvir o que temos a dizer. E eles trazem alguma coisa com eles. Então, se eu faço um filme estúpido como um filme de ação qualquer, jovens o assistem e pensam: 'isto é real'. Porque se espera que os filmes representem a vida de certa maneira. Sendo o cinema a arte mais popular, o impacto sobre as platéias é automático - portanto, político".

Costa-Gavras comentou ainda a enorme polêmica que cercou o cartaz de Amém, por ocasião do lançamento do filme na França, no começo de 2002 - porque nele a cruz católica e a suástica nazista aparecem unidas. "Toda essa polêmica foi muito cínica. Quem fez toda essa polêmica na França? Pessoas de extrema-direita, partidários de Jean-Marie Le Pen. Como não podiam atacar o filme, atacaram o pôster", acusa. Por conta desse ataque dos lepenistas contra o cartaz, o assunto chegou a ser levado aos tribunais, que o liberaram. O diretor lamentou que o bispo de Paris tenha sido "envolvido pelos extremistas de direita e sequer tenha assistido ao filme".

Curiosamente, nenhuma polêmica semelhante cercou o lançamento do filme em países católicos bem mais conservadores do que a França, como a Polônia, terra do Papa João Paulo II, ou mesmo na Itália, onde o filme circulou sem os mesmos problemas.

Neusa Barbosa


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