Dom

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Crítica Cineweb

16/09/2003

Produção cuidada, com elenco global, o longa de estréia do diretor teatral Moacyr Góes envereda por uma linha fashion ao adaptar livremente - bote-se livremente nisto - o célebre romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Transferindo o enredo do século XIX para o XXI, ambienta em escritórios, restaurantes e apartamentos de alta classe entre São Paulo e o Rio de Janeiro, um triângulo amoroso, real ou imaginário, segundo o ponto de vista de cada um dos envolvidos. O trio é formado por Ana (Maria Fernanda Cândido), Bento (Marcos Palmeira), que é também conhecido como "Dom" - uma referência explícita a Dom Casmurro, seu livro favorito - e o amigo Miguel (Bruno Garcia).

Na primeira parte, o filme caminha com mais ritmo, já que a apresentação dos personagens ainda é temperada com humor, mantido especialmente pelas intervenções atrevidas de Daniela (Luciana Braga), assistente de Miguel numa produtora de filmes no Rio de Janeiro. Mas o ritmo desanda quando o roteiro falha em estabelecer de maneira convincente a sua espinha dorsal, o ciúme do engenheiro Bento, obcecado pela idéia que a mulher, a atriz Ana, tem um caso com seu melhor amigo, o diretor de cinema Miguel, e pode ser o pai do filho do casal, Joaquim.

No Festival de Gramado 2003, onde Dom foi apresentado em competição, a platéia riu inúmeras vezes nesta parte dramática - como quando Bento diz ter ficado angustiado por sua felicidade (com Ana) ter "custado as lágrimas de outra pessoa" (a ex-noiva, Heloísa, vivida pela atriz Malu Galli). Quando ele anuncia que fará um exame de DNA para saber se Joaquim é ou não seu filho, o Palácio dos Festivais gaúcho veio abaixo, às gargalhadas, como se estivesse diante de um daqueles melosos novelões mexicanos.

As caras e bocas do galã Palmeira não convencem mesmo ninguém. Maria Fernanda Cândido se esforça para passar seu papel, pelo qual venceu o Kikito de melhor atriz em Gramado, e está linda como nunca. Bruno Garcia - ator em alta neste momento, também no elenco de Lisbela e o Prisioneiro -, salva-se num papel simpático, onde ele não tem muito o que fazer e é o que arrisca menos.

Toda a ambigüidade que sustenta o grande romance de Machado de Assis foi, como se poderia esperar nesta opção pela superficialidade, completamente perdida. Ainda assim, a platéia de Gramado aplaudiu educadamente no final, talvez embalada pela inegável bela figura de seu trio de protagonistas - um truque que pode sustentar, quem sabe, uma boa carreira nos cinemas, se o público moderno conseguir acreditar neste conto inconsistente, em que o ciúme arde mas não queima e o mistério da indecifrável Capitu, uma das melhores personagens de todos os tempos da literatura brasileira, foi irremediavelmente perdido.

Neusa Barbosa


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