O Caminho das Nuvens

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Crítica Cineweb

11/09/2003

No país da sexualidade precoce, alguém com a fisionomia jovial de Wagner Moura passa muito bem por pai de cinco filhos, no caso para interpretar Romão, o protagonista da extraordinária aventura humana retratada pelo filme - e que é baseada em fatos reais. Não só este jovem pai de família paraibano, caminhoneiro desempregado e analfabeto, resolve atravessar mais de três mil quilômetros até o Rio de Janeiro, como decide fazê-lo trazendo a mulher, Rose (Cláudia Abreu) e os filhos, inclusive um bebê de colo - a turma toda, de bicicleta. E o detalhe mais inusitado: à procura de um emprego de "mil real".

Parece a busca do Santo Graal e é quase isso, num país bonito por natureza onde o desemprego tornou-se a endemia mais difícil de erradicar, ainda mais com uma expectativa de salário que muito diplomado não encontra. Nada disso abala o ânimo inquebrantável de Romão, que vaga pelas estradas com sua trupe, todos sobrevivendo de bicos, como lavar carros e cantar músicas de Roberto Carlos. Uma trilha que embala o país de norte a sul e garante boa receptividade junto a platéias de qualquer idade ou condição social.

Esse voluntarismo ingênuo, em que se pode enxergar tanto o cúmulo do amor próprio quanto a completa ausência de consciência social e política, é uma das sínteses das contradições do Brasil. Por isso mesmo, é tão apaixonante este Romão que Wagner Moura encarna com tanta naturalidade. O jovem ator de 26 anos, com um currículo cinematográfico invejável, pontuado de trabalhos diversos, de Carandiru a Deus é Brasileiro, tem o mérito de proteger o personagem da caricatura - um risco muito grande, dadas a opção de roteiro e direção (do estreante Vicente Amorim) de ficar circunscrito à história humana destas pessoas.

Havia outros perigos nesta escolha do diretor, mas ele se sai bem, especialmente porque conseguiu contar com um elenco afinado, em que desponta também Cláudia Abreu - cantando com graça Como é Grande o Meu Amor por Você - e a turma infantil, de onde sobressai o talento já quase maduro de Ravi Ramos Lacerda, o menino que muito cresceu desde Abril Despedaçado.Neste filme de estrada caboclo que prefere manter mais o olho nas pessoas do que na estrada, o parentesco cinematográfico deve ser procurado mais em Bye Bye Brasil do que em Vidas Secas, já que prefere deixar a questão social em segundo plano, apostando na riqueza individual dos personagens.

O filme situa-se bem mais longe de O Pagador de Promessas, apesar da passagem por Juazeiro do Norte, onde Romão levanta a pesada mesa que teria pertencido ao padre Cícero. Exceto num detalhe - tanto o Zé do Burro (vivido no clássico de Anselmo Duarte por Leonardo Villar) quanto o Romão de Wagner Moura são o tipo de gente que vive pela fé e que a fome não derrota. Os dois são do tamanho da sua obsessão. E a cara de um Brasil profundo que, se não se entrega à lógica, também não se rende ao imobilismo.

Neusa Barbosa


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