O Homem do Ano

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Crítica Cineweb

30/07/2003

A morte gratuita, o valor nenhum da vida nas vielas perdidas da periferia do Brasil e um sentido anárquico de justiça marcam o território obscuro deste filme. É uma outra vertente da temática abordada - com tanta exatidão - em O Invasor, só que aqui trilhando a pista movediça da psique de um matador de subúrbio, Máiquel (Murilo Benício), convertido à profissão de matar por um incidente absurdo. Tudo começa com uma aposta de futebol perdida, que acarreta a pena de ter que tingir o cabelo de louro. Máiquel entrega sua cabeça à cabeleireira Cledir (Cláudia Abreu) e começa, nessa noite, a trajetória que define seu novo destino.

De passagem pelo bar, Máiquel encontra um marginal do bairro, Suel (Wagner Moura). Uma piada do outro acende uma briga, que termina com a marcação de um duelo para o dia seguinte. Um compromisso não levado a sério por Suel, mas ironicamente tomado a peito pelo até então inofensivo Máiquel - que mata o outro com um tiro certeiro, diante da namorada adolescente, Érica (Natália Lage)

A partir daí, o que Máiquel espera que lhe traga o inferno começa revertendo em presentes, comida, sorrisos, tapinhas nas costas, uísque de graça no bar. Nem a polícia dá a mínima para a morte de Suel. "Um a menos", é o comentário geral do bairro. Mas a felicidade a curto prazo tem um preço: Máiquel não pode mais parar de matar.

Os agentes para a continuidade da ação do matador são todos de classe média. O dentista, dr. Carvalho (Jorge Dória), é o primeiro da fila, para a eliminação de um suposto estuprador de sua filha (Mariana Ximenes). Não será o último pedido, nem do dentista, nem de seus amigos, Sílvio (José Wilker) e Zilmar (Agildo Ribeiro), sempre com a conivência total do delegado Santana (Carlo Mossy).

Adaptando o livro Matador, de Patricia Melo, pela primeira vez roteirizando um texto que não era originalmente seu, o escritor Rubem Fonseca, pai do diretor José Henrique Fonseca, traça as regras de um universo paralelo ao das instituições sociais. Aqui, o que vale é a lei do mais forte e a falta de perspectivas dos excluídos, como o próprio Máiquel, um desempregado urbano sem nenhum preparo escolar.

O personagem é bastante diverso de um outro matador interpretado por Benício, o Toninho de Os Matadores, de Beto Brant. Toninho era vaidoso, cheio de si, enquanto Máiquel é ignorante de tudo, quase um bicho. Ele é apenas o anjo exterminador que concorda em tornar-se o braço armado de uma diabólica aliança formada por aqueles que o patrocinam. Ele não só não enxerga a grande engrenagem que está por trás dele, como concorda alegremente em tornar-se a mão que aperta o gatilho, usufruindo sem culpa das benesses que vêm colorir um cotidiano que se afigurava nulo. Seu instinto rápido de ascensão social é o único traço que o une aos seus financiadores. E assim não sobra espaço algum para a ética. Só o próprio matador poderá encontrar seu limite.

Neusa Barbosa


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