Kill Bill Vol. 1

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Extras

Entrevista com diretor e elenco
Clipe-bonus com cenas inéditas
Filmografia
Fotos


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Crítica Cineweb

24/07/2003

A primeira dica da entrada num universo em que nada deve ser levado a sério - se é que alguém precisa deste tipo de aviso num filme de Quentin Tarantino - é o lema que abre Kill Bill 1: "A vingança é um prato que se come frio", que é identificado como um "velho ditado Klingon". Com esta homenagem aos vilões de Jornada nas Estrelas, abre-se a porta para um vendaval de referências à cultura pop que vai dos quadrinhos ao cinema B de Hong Kong, nada menos do que a bagagem básica do diretor-roteirista Quentin Tarantino.

Seis anos após seu último trabalho como diretor (o subavaliado Jackie Brown), Tarantino voltou ao auge do estilo que o consagrou. Ou seja, adrenalina no ponto máximo de ebulição, montagem alucinante, música na mesma voltagem, litros de sangue inundando a tela. Uma violência gráfica, que sai das mãos de personagens de cartum, movidos por desejos e motivações sempre unidimensionais. Fantasia pura que desafia os limites do cinema de entretenimento. Ninguém entra num filme de Tarantino para refletir sobre o sentido da vida.

A heroína sem nome - referência clara aos faroestes - é a Noiva (Uma Thurman, encarnando a personagem que ela inventou junto com Tarantino). Sobrevivente de um massacre na própria cerimônia de casamento, promovida a mando do suposto pai do filho que ela carregava na barriga, Bill (David Carradine, que neste capítulo nunca mostrará seu rosto), ela fica quatro anos em coma. Mas nem mesmo inerte numa cama de hospital ela fica a salvo de exploradores, como um enfermeiro com vocação para cafetão. Ironicamente, é uma simples picada de mosquito quem traz a moça de volta à consciência. E é na própria enfermaria, ainda sem reflexos nas pernas, que ela promove sua primeira revanche exemplar.

É a vingança que anima esta Noiva de volta à vida. E ela demonstra uma energia única, encarnando uma heroína com mais fôlego e instintos letais do que a tenente Ripley de Sigourney Weaver, especialmente porque armada com uma impecável espada de samurai. Um dos charmes do filme, aliás, é apoiar-se numa galeria de heroínas mortais - contrariando a lógica do universo dos filmes de ação, sempre masculinos. Assim, o primeiro embate da Noiva fora do hospital será com antigos desafetos que participaram do massacre no casamento. A primeira delas, Vernita Green (Vivica A. Fox). Mas O-Ren Ishii (Lucy Liu) não perde por esperar.

Outro diferencial tarantínico é que, ao mesmo tempo que se apóia no imaginário dos filmes B e da literatura "pulp", investe pesado nos recursos tecnológicos de última geração do cinema de Hollywood. Mesmo quem torcer o nariz para este tipo de história não poderá negar a qualidade da montagem (de Sally Menke), direção de fotografia (Robert Richardson), desenho de produção (Yohei Tanada e David Wasco), figurino (Kumiko Ogawa e Catherine Marie Thomas), além do trabalho do consultor de artes marciais Yuen Woo-ping (o mesmo de Matrix). Há mesmo o luxo de contar com uma seqüência de animação de 7 minutos, dirigida por Tarantino e executada pelo estúdio japonês Production I.G., para contar o passado da líder do submundo japonês O-Ren.

Tarantino compõe um cinema que não é de idéias, mas de referências - devidamente recicladas naquilo que ele entende como a ordem deste seu universo paralelo que remete ao mundo das artes marciais de Hong Kong mas nunca pretende atingir a poesia de O Tigre e o Dragão. O diretor joga com regras bem claras e que pertencem a um outro território. Com todo o tempo e os recursos que teve para produzir este novo filme - a jogada decisiva para a continuidade de sua carreira, depois do fracasso de bilheteria do ótimo Jackie Brown -, ele renova o arsenal acumulado pelo cinema para produzir emoções, abusando do sangue de tinta e do humor negro. Quem se divertir neste mundo pop, entre e fique à vontade.

Neusa Barbosa


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