Longe do Paraíso

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Crítica Cineweb

02/07/2003

O diretor Todd Haynes deixa de lado o glam rock que ele tão bem retratou em Velvet Goldmine (Prêmio Especial do Júri em Cannes/98) para embarcar neste belo filme de época, ambientado nos anos 50. É tempo de macarthismo, segregação racial, repressão sexual e feminina. A talentosa Julianne Moore está tão parecida com Marilyn Monroe quanto tem direito para compor a protagonista, Cathy Whitaker, uma dona-de-casa e mãe emparedada no que parece uma vida feliz, mas artificial como um seriado de televisão. A partir do momento em que flagra seu marido, Frank (Dennis Quaid), com um homem, o sonho começa a quebrar. Entra em cena a amizade dela com o jardineiro negro, Raymond (Dennis Haysbert), e está montada a moldura para um conto sobre amor e preconceito.

É curioso imaginar porque um diretor moderno e jovem como Haynes (nascido em 1961) foi seduzido a embarcar num melodrama clássico ao estilo do dinamarquês radicado na América Douglas Sirk (1897-1987), autor de trabalhos como Imitação da Vida (54), Tudo o que o Céu Permite (56) (que tem até um enredo ligeiramente parecido com este) e Palavras ao Vento(57). Em todo caso, o desafio deu certo. O filme respira e nunca parece datado, exceto nas roupas - aliás, lindíssimas.

A possibilidade de olhar todas estas situações dentro da estrutura de um filme de época, recobertas por figurinos e cenários impecáveis, permite aos espectadores o distanciamento necessário para enxergar que os preconceitos que dificultam a felicidade de pessoas comuns como Cathy, Raymond e Frank não mudaram tanto assim. O politicamente correto pode até perfumar tudo e já não se fala abertamente da inteligência das mulheres, dos direitos dos negros ou da sexualidade dos homossexuais da mesma maneira canhestra que nos anos 50. Mas, no fundo, muita coisa não evoluiu tanto assim. Mudaram as roupas mas a estreiteza mental de muitos é a mesma - basta olhar para a onda neoconservadora que varre a América e alguns países europeus.

Algumas das características que a época do filme e a nossa - e provavelmente todas as outras - têm em comum são a hipocrisia e o moralismo. Nem por isso, as delicadas emoções entre Cathy e Raymond deixam de vibrar com incrível força. Particularmente tocantes são as cenas dos dois dançando num bar e uma conversa no jardim da casa dele, quase no final.

Mesmo o apuro com que foram tratados todos os detalhes, das cores das roupas à iluminação, não sufoca a história. Ao contrário, tudo serve para fazê-la caminhar, seja a obsessão de Cathy pela arrumação e a limpeza, seja a contenção da voz e dos gestos de todos os personagens. Muito do que se pretende contar aqui está nas coisas que não são ditas, naquilo que se vê por uma brecha nesta superfície tão colorida, tão engomada, tão brilhante, mas pronta a quebrar-se ao mínimo golpe de realidade.

Por toda a sua composição esmerada, o filme funciona como um túnel do tempo, uma caixinha de música, onde tanta perfeição aparente é um contraponto ao sufocamento da voz natural das coisas que teima por resistir atrás das portas das casas, que escondem tantos escândalos discretos. Para manter tantas aparências, só resta o sacrifício.

Para explicar o funcionamento deste universo ficcional ao mesmo tempo tão rígido e tão denso, nada melhor do que uma declaração do próprio Douglas Sirk, falando à revista Cahiers du Cinéma, em 1967: "Meu ideal é a tragédia grega, em que tudo se passa em família, num mesmo lugar. E essa família é idêntica no mundo, é o símbolo desse mundo". Todd Haynes revisitou esse conceito e o aproximou do século XXI. Não é pouco para um diretor.

No Festival de Veneza 2002, onde participou da competição oficial, o filme conquistou dois prêmios importantes: melhor atriz para Julianne Moore e outro, criado especialmente pelo júri, de melhor contribuição individual de peculiar relevo para o diretor de fotografia, Ed Lachman.

Neusa Barbosa


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