O Filho

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 0 votos

Vote aqui


País


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

18/06/2003

Alguns filmes deveriam vir com uma advertência pela crueldade emocional que lançam sobre o espectador. O Filho é um exemplo oportuno. Quem conhece a filmografia dos irmãos Dardenne sabe que não se trata de uma violência explícita, em que as cenas fortes ferem a sensibilidade do espectador. Trata-se de uma crueldade quase metafísica, de forma e conteúdo, onde as imagens cortam como navalhas e a tensão, o desespero e a inquietação são servidos ao natural pela trêmula câmera na mão.

Embora o filme possa ser visto como uma equação das duas produções pregressas (da loucura visual de Rosetta, somada à estrutura quase documental sobre o trabalho que já se vê em A Promessa), o que nos oferece é um produto novo. Um salto a mais nos complexos e inexplicáveis caminhos da dor, que nos fazem agarrar o mais daninho dos destinos e, assim, conseguir sobreviver.

Jean-Pierre e Luc Dardenne voltam a nos aproximar da angústia humana, desta vez representada por um professor de marcenaria, Olivier (Olivier Gourmet), que inexplicavelmente (à primeira vista, claro) mostra-se obcecado por um novo aluno, Francis (Morgan Marinne). Esse estranho interesse faz a imaginação do espectador voar até a metade da história, quando enfim começam a revelar-se as delicadas ligações entre os soturnos protagonistas.

Esse suspense é potencializado pela composição quase integral de cenas em primeiro plano, com movimentos focados a partir da nuca de Olivier. Como se estivesse seguindo o personagem, o espectador vê-se numa incômoda situação de reconhecer ao mesmo tempo que ele todos os edifícios, esquinas e cenários do filme. Não há como se desprender disso, sequer no final do filme, por mais vontade que se tenha, tal como não se pode penetrar na mente de Olivier.

Mais uma vez os irmãos Dardenne nos colocam como espectadores objetivos e externos, colocando-nos na posição de uma espécie de espectro que sente pelos personagens, ao mesmo tempo que é incapaz de fazer perguntas para aplacar suas dúvidas. No entanto, o desconcerto e desassossego trazidos pelos diretores mostram-se muitas vezes excessivos.

Quando o espectador enfim assimila as chaves para entender O Filho, embora se desconheça as ações que o protagonista tomará, o enredo mostra-se incapaz de comprimir satisfatoriamente toda a tensão criada durante toda a história. O roteiro caminha por um único ponto de interesse, o que deixa os demais inexplorados, como, por exemplo, a história da ex-mulher de Olivier (Isabella Soupart). Também pode ser visto contra a produção seu minimalismo excessivo, que poderá deixar algumas pessoas descoladas da trama.

O prodigioso tratamento dado cena a cena pelos irmãos Dardenne é, de fato, para poucos. O filme não busca uma narração, mas um ensaio, agarrar uma sensação. E isso eles conseguem com um sensível duelo interpretativo de Morgan Marinne e Olivier Gourmet (merecidamente ganhador de melhor interpretação masculina em Cannes, 2002), que se torna difícil de esquecer.

Rodrigo Zavala


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança