Tolerância Zero

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Crítica Cineweb

04/06/2003

Contradição ambulante, Daniel Balint (Ryan Gosling) é um jovem judeu que renega a formação religiosa de forma tão extrema a ponto de tornar-se militante de um movimento neonazista - e é capaz não só de vestir uma camiseta com a suástica como de espancar um jovem de quipá e profanar uma sinagoga. O anti-semitismo é o limite de uma atitude de contestação que começou numa discussão religiosa do menino Daniel com o rabino sobre a natureza de Deus, um dilema que impressiona o garoto a ponto de dividir sua personalidade em dois extremos inconciliáveis - porque, no fundo, Daniel não rompeu todos os vínculos com sua fé.

Por incrível que pareça, o protagonista do filme inspira-se numa pessoa real, Daniel Burros, um judeu do Queens novaiorquino que militou no Partido Nazista Americano e na Ku Klux Kan e, quando teve exposta sua verdadeira origem numa reportagem do The New York Times, cumpriu a ameaça feita ao repórter, suicidando-se horas depois de o jornal ter ido às bancas, em 1965.

Com certeza, o personagem é intrigante e o filme consiste basicamente de um mergulho em seu caráter sem procurar explicá-lo ou julgá-lo. Compartilhando de sua existência conturbada, a história embarca numa viagem de risco calculado. Alguns, como boa parte dos espectadores de uma sessão realizada em 2001 para platéias judaicas no Centro Simon Wiesenthal, o rejeitaram completamente - uma atitude que afugentou distribuidores de grande porte na América. O filme chegou a ter uma exibição cancelada no canal a cabo Showtime, depois do 11 de setembro de 2001, para finalmente ser mostrado, aí mesmo, em março de 2002. Só em maio do mesmo ano chegaria aos cinemas americanos, ainda assim, numa veiculação reduzida, apesar do Grande Prêmio do Júri recebido no Festival de Sundance 2001. No Brasil, o filme foi exibido pela primeira vez no 6º Festival de Cinema Judaico de São Paulo, também em 2001.

Justamente por não explicar demais nem psicologizar coisa alguma, o roteiro de Henry Bean dá munição a um consistente estudo de personagem, que ganha uma energia poderosa na interpretação empenhada do jovem ator canadense Ryan Gosling (que foi visto em Cálculo Mortal, ao lado de Sandra Bullock). É no olhar angustiado e nos músculos bombados do jovem intérprete que Daniel ganha uma dolorosa e sinistra consistência.

Alguns críticos americanos - caso de Roger Ebert, do Chicago Sun Times - enxergaram a possibilidade de conversão de algum incauto à pregação anti-semita do jovem protagonista, dono de um discurso bastante articulado. O diretor e roteirista Henry Bean, ele mesmo judeu, porém, preferiu apostar no discernimento do público e sua capacidade de enxergar o inferno moral de alguém como Daniel.

Neusa Barbosa


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