Dogville

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Crítica Cineweb

17/05/2003

A grande ousadia do dinamarquês que inventou o Dogma, para depois desinventar, agora foi compor um filme que aposta nos mais puros recursos do teatro pobre - ou seja, sem cenário algum, apenas um chão de madeira, com pouquíssimos objetos de cena, linhas pintadas no chão definindo as ruas e casas, contando acima de tudo com o corpo dos atores e sua força expressiva, além dos diálogos. A cidadezinha de Dogville, onde tudo acontece, não passa de um arcabouço para os olhos de platéias cinematográficas viciadas na profusão de efeitos especiais e montagem de videoclipe. Nada disso acontece aqui. Von Trier constrói sua fábula moral em cima do drama, no sentido que os gregos antigos davam à palavra.

Não há portas nem janelas em Dogville, mas os personagens se comportam como se elas estivessem lá - há mesmo o som, quando um deles entra na casa do outro. E a platéia logo compartilha dessa cumplicidade que é, afinal, o que constrói o fascínio da ficção, a base mesmo de seu contrato com os contadores de história assim que entra numa sala de espetáculos e as luzes se apagam. Mais uma vez na mitologia de von Trier, é uma fábula moral com uma heroína feminina que sofre o diabo, a protagonista Grace (Nicole Kidman, em forma soberba), a fugitiva de gângsters não-identificados que procura refúgio na vilazinha. Um lugar isolado do mundo, em que as pessoas construíram um mundo à parte, de padrões morais estreitos.

Grace (um nome que pode soar bíblico, evocando a graça divina) cai como uma fresta de luz nestas vidas mofadas. E pede refúgio, um pedido a princípio recusado mas finalmente aceito, depois da intermediação de Tomas Edison Jr. (Paul Bettany), o intelectual da aldeia que de certo modo desafia os comportamentos tacanhos ao seu redor. Mas há duas partes na epopéia de Grace. Na primeira, ela é aceita ao se tornar útil a cada um dos moradores, oferecendo sua companhia a um homem cego que não admite a cegueira (Ben Gazzara), colhendo maçãs para um sitiante (Stellan Skaarsgard) ou cuidando do pomar da mal-humorada Ma Ginger (Lauren Bacall). Quando se intensifica a procura da polícia e dos gângsters à fugitiva, a cidade se torna mais avarenta e cobra um preço mais alto de Grace. O filme se torna mais sombrio até o terceiro ato, que cobra escolhas radicais na transformação da heroína.

Em Cannes/2003, onde o filme participou da competição oficial, von Trier explicou que a idéia de um filme sem cenário lhe ocorreu a partir da diversão que observa quando há a simples leitura de um roteiro com os atores. Ele também negou que o filme fosse antiamericano. "Este filme não é um comentário sobre a América. É sobre a América que tenho na cabeça já que eu queria fazer um filme sobre um país onde nunca estive antes. Essa história poderia ter acontecido em qualquer outro lugar. Se há uma moral nela, é sobre o que é certo ou errado e em que circunstâncias isso tudo pode vir à tona".

Cineweb-19/5/2003

Neusa Barbosa


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