Ce Jour-là

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Crítica Cineweb

17/05/2003

Chileno há muito radicado na França, Raoul Ruiz é um desses cineastas veteranos (tem 61 anos) que não se pauta nem pelo classicismo, nem pelo conformismo. Costuma fazer filmes que desafiam a lógica, não raro a compreensão do grande público e às vezes até mesmo a sua paciência. Oscila bons e maus momentos numa carreira pontual. Seu último trabalho, Ce Jour-là, primeiro candidato exibido na competição oficial do Festival de Cannes de 2003, é um desses bons. Sinistramente divertido, com um clima de estranheza à la Luis Buñuel, o roteiro (do próprio Ruiz) delineia a história de Livia (Elsa Zylberstein), uma jovem rica, de comportamento um tanto bizarro. Desde o início, ela está convencida de que no próximo 28 de dezembro viverá o dia mais feliz e o mais importante de sua vida. Um estranho que passa adverte-a de que felicidade e importância não são necessariamente a mesma coisa. Mesmo admitindo essa diferença, o futuro próximo comprova que Livia tem toda a razão.

A família da moça, liderada com mão de ferro por seu pai, o milionário Harald (Michel Piccoli, outro veterano que sempre se arrisca em produções audazes) querem sua morte para apoderar-se de uma herança. Livia é a herdeira da fortuna de sua mãe, que acumulou bilhões com o lucro da venda de um tempero muito popular, o Salsox. A morte da jovem é encomendada a um louco de hospício, Emil Pointpoirot (Bernard Giraudeau), acometido por surtos freqüentes e obcecado pela medição do nível de açúcar do próprio sangue - bem como de suas vítimas. Circunstâncias particulares fazem com que Emil, solto do hospital especialmente para o "serviço", não mate a moça e sim seus parentes. Um aniquilamento progressivo que dá margem a cenas de humor negro puro e a uma seqüência de jantar que Buñuel não ousaria colocar em seu O Discreto Charme da Burguesia - mas que poderia até caber nesse filme do mestre espanhol, de tão surrealista, embora no limite do grotesco.

Sem ser Buñuel, Ruiz é um esteta refinado e um crítico da burguesia, a seu modo. Esta sua história, que ele mesmo classifica no começo como um "filme helvético de Raoul Ruiz", flerta com a fantasia que passa pela cabeça de muita gente em torno da Suíça, país conhecido por abrigar bancos superpoderosos onde gângsters, políticos e milionários desonestos (alguns deles, brasileiros) costumam esconder lucros suspeitos em contas numeradas. Mas não deixa de introduzir também sua idéia sobre a estranha intuição dos loucos ou simplesmente daqueles que fogem à normalidade instituída, como Livia. E daí extrai um filme que pode não agradar a todo mundo mas com certeza não matará ninguém de tédio.

Cineweb-15/5/2003

Neusa Barbosa


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