Estou pensando em acabar com tudo

Ficha técnica


País


Sinopse

A caminho de conhecer os pais do seu namorado, uma jovem percebe que o relacionamento não está indo bem e cogita separar-se dele. Tudo piora quando chega na fazenda em que o namorado cresceu e conhece os estranhos pais dele.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

08/09/2020

Estou pensando em acabar com tudo não é uma ideia original de Charlie Kaufman. Seu roteiro é baseado no romance homônimo de Ian Reid, mas nele o diretor encontrou terreno fértil para sua mente igualmente fértil. O filme, que não poderia ser mais kaufamaniano, é um delírio sobre a existência, povoado por gente esquisita presa a um mundo pouco convencional. Ao centro, tal qual Brilho eterno de uma mente sem lembranças (que ele roteirizou e Michel Gondry dirigiu) está a questão da memória: mais do que o que lembramos, como lembramos.
 
A história começa com uma jovem (Jessie Buckley) – a personagem é creditada apenas como Young Woman – e seu namorado, Jake (Jesse Plemons), em viagem para a casa dos pais dele, para que ela os conheça e vice-versa. É uma sequência longa, coberta de neve e ilustrada pelos pensamentos da protagonista, que logo decreta: "Estou pensando em acabar com tudo". Jake é estranho, e sua família, como se revelará depois, é ainda mais. Não poderia ser diferente, ele é fruto da criação de seus pais, interpretados por Toni Collette e David Thewlis.
 
Nessa viagem, ela rumina pensamentos. Os diálogos entre o casal são esparsos e truncados – não raras vezes, sem sentido. Eles falam sobre Wordsworth, Mussollini, o musical Oklahoma!, entre outras coisas. São duas pessoas emocionalmente problemáticas, que parecem procurar um no outro o consolo e apoio que não são capazes de dar-se mutuamente. Isso é claro para a gente, e também para a jovem. Então por que não acabar logo com tudo? Boa pergunta! Tudo só piora quando chegam à casa dos pais, uma fazenda onde Jake cresceu. A mãe e o pai – que também não têm nome – transitam entre o comportamento efusivo e o grosseiro.
 
O filme entra num estado de ruptura quando, finalmente, chegam à fazenda. Futuro e presente se misturam sem muita explicação, criando uma espécie de redemoinho metafísico e existencial das personagens. Fora isso, o zelador (Guy Boyd) da escola de Jake começa a aterrorizar os sonhos do rapaz. Kaufman não está se importando muito em criar algo que siga a lógica. Seu desafio é desafiar o público a perder horas tentando compreender o que viu. Momentos parecem desconexos e aleatórios – como uma longa sequência musical bela no clímax –, mas é preciso pensar que o filme todo é um pesadelo, e os acontecimentos não precisam ser concatenados a ponto de serem compreensíveis.
 
Estou pensando... forma um díptico com Brilho eterno..., até na forma – com a neve constante, a narração sussurrada da protagonista que externa tudo o que pensa num fluxo pouco concatenado . E, em ambos, Kaufman pergunta como uma experiência molda a nossa memória, e a vida que virá depois. Aqui, cinematograficamente, o resultado não é tão bem resolvido como no outro filme, mas, ainda assim, pode ser instigante.

Alysson Oliveira


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