A Passagem

A Passagem

Ficha técnica


País


Sinopse

Arquivos filmados por soldados italianos em junho de 1941, na Ucrãnia, fornecem as imagens deste docudrama, que revisita aquela invasão, durante a II Guerra, quando a Itália era aliada da Alemanha nazista. O fio condutor está nos pensamentos de um dos soldados, filho de uma russa.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

25/08/2020

Ver A Passagem é como estar num trem, não por acaso, o trem da História, a bordo de um dos muitos relatos que nutriram a II Guerra Mundial. 
 
Fundindo na mesma receita documentário, uso de arquivos e um fio ficcional, o magnífico filme de Federico Ferrone e Michele Manzolini, sobrepõe camadas de significado para resgatar o clima da invasão nazista à URSS, em junho de 1941, a partir das memórias de soldados italianos, aliados naquela operação.
 
Especializados no uso de materiais do passado, os diretores mergulharam nos arquivos Home Movies, de Bolonha, e do Instituto Luce, de Roma, para compor esta extraordinária narrativa, que ganha uma estrutura a partir da figura ficcional de um soldado, Romano Ismani - de quem ouviremos apenas a voz compassada, do escritor e músico Emidio Clementi.
 
Filho de mãe russa, Ismani é requisitado para a missão justamente por ter conhecimentos do idioma russo, considerado essencial aos interrogatórios. A perspectiva do futuro próximo inquieta o soldado, cujo fluxo de consciência evidencia traumas com a passada e sangrenta campanha fascista na Etiópia - da qual também se verão algumas imagens.
 
Se a figura deste soldado é uma criação - fruto de um roteiro que teve também a participação de Wung Ming 2, pseudônimo de Giovanni Cattabriga num coletivo de autores italianos -, as imagens são rigorosa e contundentemente documentais. As antigas foram escolhidas entre centenas de horas de diários filmados por vários soldados que viveram a desastrada incursão em território soviético. Eventualmente, o preto-e-branco destas sequências é quebrado por imagens mais recentes, captadas na mesma Ucrânia em tempos recentes, quando a mesma região é palco de outra guerra, o interminável conflito separatista de Donbass.
 
Sendo mudos, os diários filmados dos soldados ofereceram ao compositor Simonluca Laitempergher o mesmo que uma tela em branco para un pintor. É dele a autoria de uma formidável massa sonora, que inclui ruídos e também trechos musicais, que recobrem esta jornada dos italianos de camadas de emoções matizadas e pungentes.
 
Não é menor a importância da montadora Maria Fantastica Valmori na elaboração dos sentidos desta viagem trágica rumo à memória da História, acontecendo diariamente no corpo e na alma dos pequenos indivíduos comuns que a carregam. E cujos nomes, quase sempre, são apagados do quadro das homenagens de um suposto heroísmo.

Neusa Barbosa


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