O Fórum

Ficha técnica

  • Nome: O Fórum
  • Nome Original: Das Forum - Rettet Davos die Welt?
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: Alemanha
  • Ano de produção: 2020
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 115 min
  • Classificação: 12 anos
  • Direção: Marcus Vetter
  • Elenco:

País


Sinopse

Documentário percorre, por dois anos, os bastidores do Fórum Econômico Mundial de Davos, identificando seus personagens-chave, como seu fundador e presidente, Klaus Schwab, políticos, empresários e ativistas que o frequentam e questões cruciais de que se ocupa - como a mudança climática e os desafios da tecnologia.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

25/08/2020

Fundador e presidente-executivo do Fórum Econômico Mundial de Davos, o engenheiro e economista Klaus Schwab, 82 anos, tem razões para temer a passagem de alguns brasileiros por lá - ainda que estas memórias tenham sentidos muito diferentes. Uma delas diz respeito a 1973, ano em que o bispo progressista D. Hélder Câmara, convidado por Schwab, fez em Davos um discurso inflamado sobre desigualdade que desagradou muitos dos presentes - alguns, decidindo não mais voltar ali. A outra é a ida do presidente Jair Bolsonaro em 2019, quando consolidou temores sobre sua chegada ao poder, especialmente em relação ao enfrentamento da questão ambiental, o que se tornou ainda mais patente num ano em que uma das estrelas locais foi a jovem ativista sueca Greta Thunberg.

No documentário O Fórum, o experiente diretor alemão Marcus Vetter teve um inusitado acesso irrestrito aos bastidores desta que é uma das mais vistosas caixas de ressonância dos tomadores de decisões globais, reunindo presidentes, ministros, empresários e ativistas de todas as nacionalidades e tendências desde 1971. Por isso, consegue mostrar por dentro o funcionamento de uma máquina bem-azeitada, que produz inúmeros encontros e seminários, não só em Davos, como em vários locais no mundo ao longo de cada ano, intermediando parcerias público-privadas em torno de temas candentes - caso do cultivo sustentável de óleo de palma na Indonésia e da entrega de produtos de saúde através de drones seguros em Ruanda e Gana, dois projetos de sucesso retratados no filme.
 
O segmento que interessa ao Brasil, a passagem de Bolsonaro, está na edição de 2019, quando esteve no auge a discussão da emergência climática que ameaça a própria sobrevivência do planeta. Eufórico com sua recente eleição, o presidente brasileiro protagoniza, no entanto, alguns dos momentos mais constrangedores captados pelo documentário. Um dos alvos de grande atenção justamente por suas declarações bombasticamente negativas sobre a preservação do meio ambiente, da Amazônia e dos direitos indígenas, Bolsonaro fez um dos discursos mais rápidos e inócuos daquela edição, desconcertando seus muitos ouvintes.
 
Mais perplexo ainda ficou o ex-vice presidente norte-americano Al Gore, que se aproxima de Bolsonaro num coquetel, manifestando sua preocupação com a Amazônia - apenas para ouvir dele um desconjuntado feixe de declarações de admiração pelos EUA e a intenção de “explorar a Amazônia juntos” (os EUA e o Brasil). Gore não esconde sua decepção, mas educadamente responde: “Acho que não entendo o que o senhor quer dizer”. E logo se afasta.
 
No mesmo coquetel, Jennifer Morgan, diretora-executiva do Greenpeace, aproxima-se de um Bolsonaro visivelmente isolado, para dar-lhe seu cartão - ele emudece à menção do nome “Greenpeace” - e manifestar o compromisso de sua entidade no Brasil para a proteção da Amazônia e dos indígenas. Uma atitude que uma amiga de Jennifer comemora rindo, já que, àquela altura, todos ali sabiam do desapreço do novo governo brasileiro pelo grande tema da edição 2019 de Davos, que outro notório negacionista climático, o presidente Donald Trump, preferiu esnobar.
 
Outro trecho do documentário acompanha a conversa de centenas de dirigentes empresariais internacionais com o presidente brasileiro e o ministro da Economia, Paulo Guedes - que sustenta que a propalada crise política brasileira e as ameaças à democracia não passam de falsas alegações da “elite política e da mídia tradicional, dos que perderam”. Ato seguinte, manifesta sua intenção de atrair as empresas ali representadas para atender a uma demanda, segundo ele, de US$ 100 bilhões em petróleo e gás, “que as companhias estatais brasileiras não têm condição financeira para atender”. 
 
Em contraste absoluto com esta imagem de um Brasil afoito e antiecológico, a menina sueca Greta Thunberg - que mais tarde seria chamada de “pirralha” por Bolsonaro - ali primou por um carisma e uma segurança notáveis para os seus então 16 anos para cobrar dos participantes de Davos a urgente mudança de rumos capaz  de salvar o planeta. Não só ali - meses mais tarde, ela escreve uma carta bastante incisiva a Schwab, exortando-o a ações mais eficazes no mesmo sentido. 
 
Ao seu lado, Jennifer Morgan, do Greenpeace, também se torna a personagem do filme que melhor personifica a luta por uma atuação ambiental mais forte por parte do Fórum. “Não duvido das boas intenções, nem do compromisso de Klaus (Schwab) para tornar o mundo melhor. Mas acho que ele tem que ser sacudido e sacudir todos os que vêm aqui e correr riscos com sua posição”, afirma ela.  Um desafio nada simples, tendo-se em vista que o Fórum é mantido por empresas parceiras, algumas delas as vilãs das questões ambientais denunciadas por ativistas como Jennifer e Greta.
De todo modo, o documentário mostra-se bastante eficiente em desvendar o funcionamento das engrenagens do Fórum, sua solenidade, seus salamaleques mas também sua seriedade em promover discussões relevantes sobre o mundo contemporâneo. O diretor Marcus Vetter, aliás, revela-se um entrevistador firme e não raro contundente de Schwab, a personalidade fascinante por trás da própria ideia do Fórum, que se preocupa com um mundo que ele ainda não conseguiu mudar. 
 
O próprio Schwab lembra uma das maiores decepções de sua vida, quando reuniu em Davos o então primeiro-ministro israelense, Shimon Peres, e o presidente palestino, Yasser Arafat, em 2001, acreditando que ali se promoveria a paz, o que não ocorreu.

Neusa Barbosa


Trailer


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