O espelho [1975]

O espelho [1975]

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Sinopse

Gravemente doente, Aleksei mergulha nas lembranças de sua vida, revendo situações e seus sentimentos em relação a Masha, sua mãe, e Natalya, sua primeira mulher, mãe de seu filho Ignat.


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Crtica Cineweb

22/07/2020

Em seu quarto longa, O Espelho (1975), Andrei Tarkovsky mergulha como nunca na memória, cuja fluidez determina o ritmo de um filme que será tanto um de seus mais celebrados quanto um dos mais incompreendidos - especialmente na URSS dos anos 1970, o que determinará um futuro exílio para o diretor na Itália. 
 
Partindo de um roteiro escrito pelo próprip Tarkovsky e Aleksandr Misharin, O Espelho foi, na verdade, inteiramente construído nas filmagens, seguindo os sentidos do diretor para uma narrativa que obedecia ao que ele chamava de “esculpir o tempo” - esse, aliás, o título exato do notável livro que ele escreveu sobre seus métodos de filmagem, sobre o que ele acreditava que era cinema e envolvia uma mistura única de uma intensa cultura e uma intuição poética poderosa para criar as imagens que traduziram a visão metafísica, humanista e profunda que foi a marca autoral de seu cinema.
 
Quem se dispuser a entrar em O Espelho, deve deixar de fora toda intenção de encontrar uma história linear - uma das tarefas que o filme propõe é que espectador constitua sua própria jornada dentro dele. São sensações fragmentadas que nutrem as imagens em preto-e-branco, que começam com uma sessão de hipnose de um garoto que sofre de gagueira. Na etapa seguinte, seguiremos uma mulher (Margarita Terekhova) que será, alternadamente, a imagem de Natalya quanto de Masha, respectivamente a mulher e a mãe de um narrador, Aleksei, de quem ouvimos somente a voz (de Innokenty Smoktunovsky).
 
Esta ideia de fundir na mesma atriz as duas figuras femininas centrais, curiosamente, surgiu para o diretor perto do final das filmagens - que foram conturbadas e assumidamente desconcertantes, inclusive para a protagonista. O fato de que, apesar de tudo, toda a equipe se entregasse a essa dinâmica febril de encontrar o filme à medida que ia sendo feito - até porque Tarkovsky rejeitava visceralmente a ideia de ordená-lo na montagem - evidencia a peculiaridade da atmosfera que ele era capaz de instaurar, apesar de todas as inegáveis dificuldades. Por isso, ele mesmo conta em  Esculpir o Tempo, que ao final de O Espelho, teve a nítida sensação de que “sua família tinha aumentado”. Ele tornava todos os envolvidos no filme seus parceiros e cúmplices numa tarefa que era, afinal, encontrar a veia poética de cada fotograma.
 
Não deixa de ser também inusitada esta declaração do diretor sobre a cumplicidade familiar encontrada com todos no set porque se tratava de um filme extremamente pessoal  - há na história elementos de sua própria vida familiar. Mas não era uma verdade documental estrita aquela que Tarkovsky procurava e assim se tornava possível o engajamento de seus parceiros na construção coletiva, que extrai conexões universais e empatia com situações comuns a  todos os seres humanos.
 
Há uma correspondência entre as duas mulheres, Natalya e Masha, que o fato de serem interpretadas - na juventude - pela mesma atriz torna perfeita. Há uma personalidade feminina altiva, independente, intolerante à subjugação do parceiro masculino que se expressa nas duas, num parentesco que, se não é genético, é certamente generacional. E que intérprete refinada é Margarita Terekhova para estas duas mulheres que, em tempos diferentes, cuidaram de sua vida e de seus filhos longe dos respectivos maridos - um deles, este Aleksei que reflete sobre as próprias hesitações e culpas diante delas.
 
Há certamente uma veia psicanalítica inserida nesta narrativa não-linear, que incorpora, em determinados momentos, sequências documentais - como cenas da Guerra Civil Espanhola e do Exército Vermelho atravessando o lago Sivash, um momento dramático do avanço soviético em 1943, na II Guerra. Tanto quanto acontecia, por exemplo, em A Infância de Ivan, os trechos documentais se relacionam aos contextos destes personagens, que em geral vemos tão envolvidos em situações intimistas, retratadas com beleza extrema. Como sempre, não poucas sequências remetem a sentimentos, a sonhos, a climas oníricos, que não têm outro objetivo a não ser expor a grandeza da existência humana e as possibilidades do cinema com toda a liberdade.

Tarkovsky não pôde contar aqui com seu habitual diretor de fotografia, Vadim Yusov, que se recusou a fazer um filme que considerava “pessoal demais”. Substituiu-o, e com talento, Georgi Rerberg, compondo com Tarkovsky sequências como a de uma casa que parece liquefazer-se e de uma mulher levitando. Concluído O Espelho, Yusov deu o braço a torcer: “Detesto lhe dizer, mas é seu melhor filme”. 

Neusa Barbosa


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