I May Destroy You

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Sinopse

Arabella é uma jovem escritora que começa a fazer sucesso, mas um evento em seu passado recente a intriga: o que aconteceu no banheiro de um bar. Ela foi estuprada ou sua memória a está enganando?


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Crítica Cineweb

20/07/2020

Linguagem é uma construção social que responde às demandas do presente. Uma palavra é criada no momento em que se torna necessária para nomear um fato, um ato, um objeto. A negação de inventar uma palavra para alguma coisa é, também, uma resposta a alguma coisa. Exemplo: por que não existe uma palavra em português para “date rape”? Porque não nomear é uma maneira de negar a existência desse tipo de assalto sexual. I may destroy you é uma série britânica, escrita, codirigida e protagonizada por Michaela Coel, tendo ao centro um estupro - mas a linguagem do audiovisual é capaz de lidar com isso honestamente?
 
Aparentemente, não, por isso, Coel precisa reinventar o formato para poder dar conta de nomear o, até então, inominável. Sua personagem, Arabella, é uma jovem de 20 e poucos anos, vivendo no mundo hiperconectado do presente. Aspirante a escritora, ela tem um trauma com o qual não consegue lidar: ela foi dopada e estuprada num bar? A questão é que ela é incapaz de confiar em sua memória. Alguns elementos dão conta de que algo aconteceu: a tela quebrada do celular, flashes de lembranças, seu corpo respondendo estranhamente.
 
Com comando total da série (produzida pela BBC, e exibida fora da Inglaterra pela HBO), Coel é uma estrela que nasceu pronta. Seu olhos e seu sorriso são hipnotizantes, mas é sua destreza em dar vida a Arabella a força da série. Temos diante de nós uma jovem em um mundo que, sistematicamente, a nega. No começo do capítulo 7, num grupo de vítimas de abuso, ela diz: "Antes de ser estuprada, nunca me dei muito conta de ser mulher. Eu estava ocupada sendo negra e pobre". Essa frase resume bem a personagem e traz à tona os três elementos em jogo aqui: gênero, raça e classe.
 
Não poderia haver uma discussão mais contemporânea do que uma evidenciando essas três variáveis. O que define a identidade de uma pessoa? Outra questão tão em voga desde os anos de 1960, mas, especialmente, no presente. I may destroy you testa os limites da constituição de nossa pós-modernidade, quando apenas a identidade pode não ser capaz de definir o/a sujeito/a. Arabella não é exclusivamente mulher, ou negra, ou jovem, ou escritora, entre outras coisa. É a junção de tudo isso, num tempo histórico, que a constitui. Mas como compreender a própria subjetividade numa mente na qual houve uma cisão diante de um evento traumático?
 
O esforço da série – dirigida por Coel e Sam Miller – é construir, ao longo de 12 episódios, uma nova subjetividade (com a qual Arabella poderá lidar com o trauma) e uma nova linguagem para contar isso. A direção de fotografia, assinada por Adam Gillham, é límpida, priorizando o tom realista da série, acompanhando as personagens que se movem pela selva de concreto londrina dia e noite. A forma como a narrativa se estrutura, por sua vez, é uma espécie de fluxo de consciência que navega entre o presente e o passado, em busca de resposta para os traumas e ansiedades da personagem que, além do estupro, sofre de um bloqueio criativo e não consegue escrever o livro para o qual já recebeu boa parte de seu pagamento.
 
A questão central é abuso e consentimento. Arabella teve outro episódio traumático em seu passado, quando um parceiro removeu o preservativo durante o ato sexual sem perguntar a ela se concordava. Esse fato transformou-a num poço de desconfiança, a ponto de, depois do estupro, desconfiar de si mesma, de sua memória, dos relances que vinham à sua mente. O assunto é discutido também por meio do principal personagem masculino da série: Kwame (Paapa Essiedu), melhor amigo da protagonista, que, depois de uma relação sexual consentida com um desconhecido, também sofre um estupro, o que o faz questionar também sua sanidade: foi um estupro ou o que se passou estava dentro dos limites de seu consentimento? Racionalidade, emoção, sentimentos (especialmente de culpa) estão em jogo aqui.
 
Cada capítulo acrescenta uma nova camada de compreensão sobre a personagem, seu passado e presente, e as pessoas que a cercam. Arabella torna-se uma espécie de celebridade quando vem à tona nas redes sociais contar sobre abusos que sofreu. Desconhecidos a param na rua para agradecer por isso, e que, graças à atitude dela, tiveram coragem de falar e encarar seus próprios traumas.
 
O crítico e teórico cultural norte-americano Fredric Jameson, cuja teorização da pós-modernidade (como um período histórico, mais do que uma série de elementos estéticos) elenca como uma das características desse momento aquilo a que chama de esmaecimento da história, ou seja, quando passado, presente e futuro são indistinguíveis. I may destroy you joga com isso o tempo todo, na medida em que questiona ações e consequências, até que, finalmente, chega a uma inevitável cisão em seu último capítulo. Um trauma, parece dizer, só pode ser resolvido num plano simbólico. A vítima terá de conviver com essa marca, essa ferida na alma, para sempre. Jamais será apagada, mas precisará, para seguir em frente, lidar com ela. Por isso, a dolorosa busca de Arabella não é para destruir o culpado, mas reconstruir a si mesma.

Alysson Oliveira


Trailer


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