India Song

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País


Sinopse

Anne-Marie Stretter é a mulher de um diplomata em Calcutá, nos anos de 1930. Consumida pelo tédio, ela arruma diversos amantes. O roteiro e direção são de Marguerite Duras.


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Crítica Cineweb

10/06/2020

India Song é um filme em total sintonia com a obra literária de sua roteirista e diretora, a francesa Marguerite Duras. De certa forma, é um longa com diálogo com Hiroshima Mon Amour (escrito por ela, e dirigido por Alain Resnais), em sua exposição de uma ferida histórica como mediadora de relações interpessoais. Lá, obviamente, as bombas atômicas da Segunda Guerra, e aqui, a culpa francesa colonial.
 
A grande Delphine Seyrig – que no mesmo ano, 1975, fizera Jeanne Dielman, de Chantal Akerman – interpreta Anne-Marie Stretter, mulher de um diplomata francês na embaixada francesa em Calcutá, na década de 1930. Consumida pelo tédio, ou como dizem os franceses, ennui, ela arruma uma série de amantes para tentar aplacar suas frustrações, especialmente por abandonar a carreira de pianista pelo casamento.
 
A história da agonia emocional dessa mulher não é descrita por diálogos, pois as personagens não falam. Ouvimos apenas vozes aleatórias – que mais parecem um coro de fofocas –, que nos dão conta do que está acontecendo. A atmosfera é chique e blasé, as pessoas que habitam o filme parecem não se dar conta de estar vivendo onde vivem. A fotografia de Bruno Nuytten ressalta esse estranhamento, é o tipo de imagem que parece (propositalmente) ter nascido envelhecida.
 
As pessoas passam o tempo entre festas e taças de champanhe, e os homens que ao redor de Anne-Marie estão sempre à sua disposição. A exceção é um vice-cônsul (Michael Lonsdale) – um personagem cuja história, envolvendo um suicídio e um escândalo, foi contada pela autora no romance O Vice-Cônsul – que tenta seduzir a protagonista, mas é categoricamente esnobado por ela.
 
São fantasmas do passado das personagens que as assombram, tal como uma culpa colonial que pairará sobre a França para sempre. Duras foi uma francesa nascida no Vietnã, e essa questão da identidade é ora força motora, ora catalizador em sua obra. Basta ver um de seus livros mais famosos, O Amante, sobre uma jovem francesa vivendo na Indochina que se envolve com um chinês mais velho do que ela. Em India Song não é diferente. Os europeus aquartelados em suas festas intelectualizadas poderiam estar em qualquer país pobre que dominassem politica, econômica, culturalmente. Seria, então, Marie-Anne a única com uma consciência capaz de perceber o seu lugar nesse mundo? Ela, afinal, se destaca das demais personagens.
 
India Song é um filme que apresenta como uma série de quebra-cabeças, tanto no campo da imagem quanto do som, e assim desafia seu público a organizá-lo. Talvez, organizar também seja uma tarefa vã, pois memória, como aqui se vê, é uma construção sócio-histórica e cultural, e não um processo natural e, dessa forma, passível de manipulação. O que as figuras aqui lembram está condicionado àquilo que querem lembrar – num processo que pode envolver omissão e culpa, tudo embalado por uma trilha belamente pegajosa do franco-argentino Carlos D’Alessio.

Alysson Oliveira


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