A Aventura

A Aventura

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 0 votos

Vote aqui


País


Sinopse

Anna mantém há anos um caso com Sandro, mas não se decide a casar com ele, ainda que ele peça. Ela tem como confidente sua amiga Claudia. Um dia, os três e outros amigos partem num cruzeiro pela Sicília. Anna falava em desaparecer. E efetivamente, ela desaparece sem deixar pistas.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

20/05/2020

A partir de seu próprio título, A Aventura sintetiza o cinema de Michelangelo Antonioni (1912-2007), em sua ambiguidade um tanto pessimista diante da teia revolta das relações humanas. Neste filme peculiar, que abre sua chamada “trilogia da incomunicabilidade”, à qual se somam A Noite (1961) e O Eclipse (1962), ele retrata alguns casais estranhos, nenhum deles romântico, o que lhe confere um traço inovador para um filme feito na virada para os anos 1960 - certamente, um dos motivos para uma aguda incompreensão inicial diante da obra, ainda que sua première tenha ocorrido no Festival de Cannes, de onde saiu, afinal, com o Prêmio do Júri.
 
Um dos principais realizadores do cinema italiano, Antonioni era um inimigo dos caminhos óbvios e muito capaz de encontrar imagens poderosas para delinear o percurso atormentado de seus personagens, aqui as paisagens áridas e pedregosas de uma Sicília que parece emparedada num certo primitivismo ancestral, que simboliza a pulsão destes homens e mulheres, movidos pelo desejo e a insatisfação, nenhum idealismo e uma inquietude febril.
 
Há uma proximidade entre este universo de Michelangelo Antonioni e alguns de seus contemporâneos, o mais nítido deles, Ingmar Bergman - que, ironicamente, morreu no mesmo dia que ele (30 de julho de 2007). Mas nunca este parentesco temático deixou de assinalar as grandes diferenças de cada um. Impregnado que fosse do existencialismo de sua época e de uma aguda desconfiança da elite italiana à qual ele mesmo pertencia, o diretor esmerava-se na composição de personalidades em conflito, neste caso, do trio formado por Anna (Lea Massari), o amante Sandro (Gabriele Ferzetti) e a amiga Claudia (Monica Vitti). 
 
Incapaz de decidir-se a uma vida com Sandro, Anna pensa em desaparecer - e efetivamente desaparece, durante um cruzeiro com Sandro, Claudia e outros amigos, ao largo da ilhota Lisca Bianca - cuja paisagem pedregosa, vulcânica, íngreme é uma metáfora visual evidente tanto da aridez emocional de cada um deles quanto dos perigos de suas experimentações.
 
Antonioni não julga estes seus personagens mas os expõe sem máscaras em seus envolvimentos confusos, seus rituais de aparências, como as festas, as visitas, as viagens que não encobrem o tédio, o vazio, a falta de conexão entre eles mesmos e um sentido profundo da vida. Um sentimento assim abalava Anna, desaparecida sem sinais, sem pistas, sem mensagens de conforto para quem ficou atrás.
 
Construído em torno deste desaparecimento, o enredo não se torna uma história policial, embora eventualmente a polícia apareça para fazer buscas de Anna. Aí entra em funcionamento o estilo do diretor, transformando esta ausência numa presença fantasmagórica, que imprime suas pegadas particularmente no comportamento de Claudia e Sandro - outros amigos, como Patrizia (Esmeralda Ruspoli), Giulia (Dominique Blanchar) e o marido Corrado (James Addams) não parecem dar tanta importância ao sumiço, entretidos em suas próprias engrenagens emocionais, às quais não faltam manipulações mútuas e crueldades eventuais.

Correspondendo a uma moldura desta trama principal, a história incorpora incidentes aparentemente fortuitos, como a aparição de Gloria Perkins (Dorothy De Poliolo), uma voluptuosa escritora mística, e a reação dos homens de uma pequena cidade à chegada de Claudia, à procura de Anna. Cada uma destas situações adensa a complexidade do contexto em que patinam estes personagens, riscando caminhos que enriquecem uma história obstinada em abrir-se em múltiplas direções, assinada por Antonioni e os parceiros Elio Bartolini e Tonino Guerra (este um dos mais profícuos roteiristas italianos, parceiro de Fellini em filmes como Amarcord).

Neusa Barbosa


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança