Paulo Freire - Um Homem do Mundo

Ficha técnica

  • Nome: Paulo Freire - Um Homem do Mundo
  • Nome Original: Paulo Freire - Um Homem do Mundo
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: Brasil
  • Ano de produção: 2020
  • Gênero: Série documental
  • Duração: 260 min
  • Classificação: 10 anos
  • Direção: Cristiano Burlan
  • Elenco:

Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 2 votos

Vote aqui


País


Sinopse

Minissérie documental em cinco capítulos revê a vida e a obra do educador pernambucano Paulo Freire (1921-1997), através de entrevistas e materiais de arquivo, percorrendo uma trajetória que incluiu experiências pioneiras de alfabetização de adultos e crianças e a publicação de diversos livros de repercussão internacional.


Extras

Série em cinco capítulos, disponível na Sesc TV on demand e na Sesc TV
https://sesctv.org.br/programas-e-series/paulo-freire/


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

24/03/2020

Venerado e criticado com veemência em tempos polarizados, nem sempre com o devido embasamento por trás dessas paixões, o educador Paulo Freire (1921-1997) é o objeto de uma oportuna minissérie da SESC TV, Paulo Freire - Um Homem do Mundo, dirigida pelo cineasta gaúcho radicado em São Paulo Cristiano Burlan. A série está disponível pela Sesc TV on demand desde 17 de março e estará, a partir de 1 de abril, em exibição também na Sesc TV.
 
Documentarista experimentado e premiado, por filmes como Elegia de um crime e Mataram meu irmão, entre outros, Burlan investiga em profundidade, através de uma série de entrevistas e do uso de substanciais materiais de arquivo de várias procedências, aspectos da vida e da obra do influente pedagogo pernambucano, famoso internacionalmente por sua metodologia educacional libertária. 
 
Contando com inúmeras entrevistas interessantíssimas, a série conta com depoimentos saborosos do próprio Freire, colhidos juntos a arquivos como o da Rádio e Televisão Suíça (RTS) - o Consulado Geral da Suíça, aliás, é coprodutor da série. Freire, como se recorda, viveu 15 anos fora do Brasil depois de ser brevemente preso, depois do golpe de 1964, tendo-se radicado parte desse tempo em Genebra. Ninguém melhor do que Freire para descrever os seus métodos de alfabetização e educação, transgressores da tradicional figura de autoridade dos professores, procurando criar na sala de aula uma atmosfera de cooperação mútua, a partir de palavras e conteúdos provenientes da própria experiência dos alunos. O objetivo era não só ensinar a leitura, mas permitir um desenvolvimento intelectual que proporcionasse uma leitura do mundo. Esta filosofia é que garantiu a Freire uma coleção de inimigos ideológicos, enxergando nele um “comunista” pelo caráter emancipador de suas técnicas. Na verdade, o educador, nada ortodoxo nem doutrinário, era fruto de uma série de influências, do catolicismo progressista ao marxismo.  
 
No primeiro episódio, “A formação do pensamento”, começa-se a desenhar a trajetória de Freire, nascido no Recife, mas ainda criança mudando-se para Jaboatão dos Guararapes, onde foi um dos meninos pobres que complementavam a parca alimentação em casa com frutas e até ovos que podiam encontrar ao ar livre - como ele descreve num de seus depoimentos. Nessa cidade, ele vai agarrar com as duas mãos a oportunidade de estudar, mediante uma bolsa de estudos num colégio particular, o Osvaldo Cruz, onde anos mais tarde lecionou Português. Vem daí o começo da reflexão em busca de uma nova pedagogia, que finalmente ele desenvolveu num sentido menos acadêmico e mais vivenciado, e mesmo lúdico. 
 
O foco do segundo episódio, “As 40 horas de Angicos”, recai sobre a pioneira aplicação de seus métodos na cidade do Rio Grande do Norte em 1962, que reunia uma população majoritariamente analfabeta (cerca de 75%). Convocaram-se estudantes de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em férias, que realizaram, a partir de uma pesquisa local de “palavras geradoras”, a experiência bem-sucedida de alfabetização, em apenas 40 horas, de centenas de crianças e adultos. Uma medida da revolução que isto significou foi a inscrição de 300 novos eleitores, por terem deixado de ser analfabetos (na época, analfabetos não podiam votar; hoje, podem mas seu voto é facultativo). O sucesso do programa trouxe à cidade o então presidente João Goulart e membros de seu governo, como o ministro Celso Furtado e o general Humberto de Alencar Castelo Branco - que dois anos depois encabeçaria o golpe contra Jango que levaria também Freire à prisão e ao exílio, objeto do terceiro capítulo da série.

 

Exilado, Freire passa pela Bolívia, depois pelo Chile, deixando os países sul-americanos depois de outros golpes. Seu próximo destino será Genebra, na Suíça, onde se radicou e fez inúmeras amizades. Sua influência se faz notar não só entre intelectuais, como denotam as entrevistas da psicopedagoga Dina Borel, do sociólogo Jean Ziegler, do diplomata Jean-Pierre Gontard e do professor Abdeljalil Akkari, como até na culinária - por sua interferência, a brasileiríssima feijoada foi incluída no cardápio do restaurante português Le Portugais, em Genebra.

O exílio duraria longos 15 anos, encerrados em 1980, quando Freire retorna ao Brasil, um ano após a Lei da Anistia. Como demonstra em entrevista logo após sua chegada, tinha plena consciência de que não voltava para um país igual ao que deixara: “Tenho que reestudar o Brasil”. Mas não mudara sua imensa vontade de transformar a educação brasileira, sob os novos ventos da democracia. A oportunidade se apresentou quando aceitou o convite da prefeita Luiza Erundina para assumir a Secretaria da Educação de São Paulo por dois anos, entre 1989 e 1991. Entre as marcas de sua gestão, introduziu computadores nas escolas municipais, com a assessoria da Unicamp, e incluiu estudos na jornada de trabalho dos professores.
 
O último episódio, “O mundo não é, está sendo”, envereda pela investigação dos frutos do pensamento freiriano que pairam por aí. Nessa classificação, cabem homenagens, como a música “Beradêro”, de Chico César, e o samba-enredo a ele dedicado pela escola paulistana Leandro de Itaquera, no Carnaval de 1999. Mas principalmente observa-se como se multiplica a influência freireana não só na atuação de inúmeros educadores como também na obra de artistas populares - caso de Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante, do Teatro do Tijolo, e do poeta e slammer Emerson Alcalde, entre outros . A partir de experiências tão ricas e distintas, pode-se dizer que Paulo Freire virou semente. E ele gostaria disto. 

Neusa Barbosa


Trailer


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança