O caso Richard Jewell

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Sinopse

Richard Jewell é um ex-policial que vai trabalhar como segurança durante as Olimpíadas de Atlanta, em 1996. Ele descobre uma mochila suspeita, que realmente está lotada de bombas. Sua atitude salva muitas vidas mas, mesmo assim, ele acaba suspeito de terrorismo.


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Crítica Cineweb

17/12/2019

Polêmica respinga na tela - e fora dela - em torno de O caso Richard Jewell, o novo filme de Clint Eastwood que revisita a história de um segurança (Paul Walter Hauser) que passou de heroi a vilão depois de ter encontrado uma bomba caseira num parque em Atlanta, em julho de 1996, durante as Olimpíadas na capital da Geórgia.
 
A história real deste homem, Richard Jewell, fornece material de sobra para que o experiente roteirista Billy Ray crie uma narrativa envolvente em torno das manipulações empreendidas tanto pelo FBI quanto pela mídia da época que, na ânsia de encontrar rapidamente um culpado, tornaram o segurança o principal suspeito do atentado - que custou a vida de duas pessoas e causou cerca de 100 feridos. 
 
Diretor veterano e fascinado por histórias de herois multifacetados - como ocorreu em Sully (2016) - Eastwood cria um filme envolvente quando se apoia na complexidade deste homem comum que é Jewell, um sujeito simplório, solitário, gordinho, que mora com a mãe, Bobi (Kathy Bates), e tudo o que almeja é tornar-se policial. É fascinante como o filme, amparado na interpretação magnífica de Hauser, consegue criar empatia por esta pessoa corriqueira, cujas excentricidades, aliás, o tornaram alvo de uma perseguição implacável por quase 3 meses e que, por pouco, não lhe custou a vida (ele era suspeito de terrorismo, portanto, passível de pena de morte nos EUA).
 
A parte forte e impactante do filme figura aqui, neste insano processo de culpabilização de Jewell, que torna sua vida um inferno a partir da primeira reportagem, de Kathy Scruggs (Olivia Wilde), do jornal Atlanta Journal-Constitution. O que torna tudo mais dramático é como o frágil Jewell parece ter escassas chances de deter essa maré midiática que o impede de pôr os pés na rua, assim como sua mãe, sem ser acossado por uma multidão de câmeras e repórteres, que os coloca no ar noite e dia, num frenético processo de exposição.
 
O filme cria um equilíbrio dramático bastante eficiente na introdução da figura do advogado Watson Bryant (Sam Rockwell), que Jewell conheceu no passado e acaba tornando-se fundamental para empreender sua defesa. Mal-humorado, agressivo e esperto, Bryant mobiliza toda sua energia para contrapor a formidável onda policial e midiática que ameaça tragar seu cliente como o culpado necessário para satisfazer uma opinião pública ávida por aliviar seu choque com o atentado e o brio patriótico ferido por ele. Que o culpado não fosse aquele não parecia abalar, de verdade, nem o agente do FBI pressionado na investigação, Tom Shaw (Jon Hamm), nem, até quase o final, a ambiciosa repórter.
 
Falando na figura da jornalista, aliás, uma pessoa real - falecida em 2001 -, reside em sua caracterização a falha trágica de um filme com tantas outras qualidades. A personagem reúne um arsenal de clichês superficiais e machistas que salta aos olhos e foi, aliás, objeto de severas críticas, até por não se basear fielmente no perfil dela, constante de um famoso livro sobre este caso, The Suspect, de Kent Alexander e Kevin Salwen, que foram consultores do filme. O fato de que Kathy sequer esteja viva para defender-se soma-se ao desgosto com sua representação no filme, cujo maniqueísmo destoa de tudo o mais.
 
A outra personagem feminina do filme, representada por Kathy Bates, no entanto, é tudo o que se poderia esperar desta atriz extraordinária. Na pele da mãe de Jewell, uma vítima subsidiária de todo este turbilhão, ela simplesmente não perde nenhuma oportunidade de resplandecer com a ternura e a tenacidade de uma pessoa comum de muita fibra. A cena em que ela dá seu depoimento sobre o filho numa coletiva de imprensa é simplesmente a síntese do calvário desta pequena família. Só por ela, Kathy já merece a indicação ao Globo de Ouro como coadjuvante, que já obteve, e uma possível indicação ao Oscar que ainda pode vir. 
 
No mais, os produtores e o diretor poderiam ter se contentado em resgatar magnificamente a figura de Jewell, sua mãe e seu advogado e nos poupado do retrato preconceituoso da repórter, ofensivo a qualquer mulher que já foi repórter na vida. Aos 89 anos, Clint Eastwood já devia ter aprendido a conter seus ímpetos machistas - e o mesmo se diga do roteirista Billy Ray. Nenhum dos dois conseguiu explicar direito de onde saiu a cena mais polêmica do filme, em que Kathy avança sexualmente sobre Shaw, que ninguém que a conheceu nem os autores do livro corroboram e, como ficção, é totalmente dispensável.

Neusa Barbosa


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