A rosa azul de Novalis

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Sinopse

Diante da câmera, sem nenhum pudor, Marcelo Diorio, 40 anos, fala de seus sonhos, desejos, fetiches e traumas, empunhando seu corpo sem censura, num misto de declaração e performance.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

17/12/2019

A partir de sua primeira imagem - um ânus -, é inequívoca a declaração de intenções de A rosa azul de Novalis, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, como uma tomada de posição a favor daquilo, que na velha canção de Chico Buarque, “não tem vergonha, nem nunca terá, do que não tem limite”. Marcelo inicia o filme mostrando sua parte mais íntima, símbolo maior do seu desejo, dos fetiches e, porque não lembrar, de tantos preconceitos vagando por aí que é sempre bom contestar. Dessacralizar essa parte do corpo tão oculta e carregada de culpas, afinal, é saudável - e a provocação é uma das formas mais legítimas da liberdade criativa. 
 
A partir desse momento, Marcelo Diorio está em cena todo o tempo com seu corpo e sua torrente de palavras, num misto de exposição e performance que confere a identidade a este docudrama que já percorreu os festivais de Berlim, Tiradentes, Cinéma du Réel, Indie Lisboa e outros. Aderindo ou não às emoções e opiniões de Marcelo, o filme conduz o espectador a compartilhar de uma intimidade em que ele dita o tom, mergulhando em seus relatos sobre seus pais e avós, suas relações amorosas - assistiremos ao vivo algumas delas - e uma impressionante revelação de incesto, que suscita a inserção de uma cena teatral. Amor e morte andam juntos nesta matéria e o relato de Marcelo é de uma dramaticidade exemplar, sacudindo o tom monocórdico e autorreferente. 
 
Alguns cenários estilizados neste apartamento que é a locação única do filme estão ali para lembrar que, diante da câmera, tudo é, até um certo ponto, performance  - como lembrava até o mestre do documentário, Eduardo Coutinho. Mas nada disso tira a verdade humana deste personagem único.
 
Empoderando o corpo para revelar a alma, Marcelo não sai do personagem. Essa performance sem trégua, por mais que impregnada de uma verdade humana e de uma contemporaneidade inegáveis, termina por tornar-se um pouco cansativa no final, em que se repete, de outra maneira, a evocação do ânus. Trata-se, talvez, de um símbolo desta nossa época de profusão de selfies, em que a auto-exposição se torna matéria de interesse permanente mas, até por isso, também cansa.
 
Novalis, o poeta romântico alemão evocado no título, como uma metáfora da procura incessante da satisfação inalcançável dos desejos, corporificados na mítica rosa azul, é, afinal, apenas um recurso teatral. Ele é citado como uma referência de transcendência, como um daqueles que Marcelo teria encarnado em vidas passadas.

Neusa Barbosa


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