Entre facas e segredos

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Sinopse

A morte misteriosa de um escritor milionário, apesar de parecer um suicídio, coloca sua família inteira como suspeita do possível crime. Um detetive particular é contratado anonimamente para investigar o caso.


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Crítica Cineweb

04/12/2019

Por debaixo do verniz do figurino de cores sólidas e fortes dos personagens de Entre facas e segredos está acontecendo muito mais do que a aparência do suspense cômico deixa transparecer. O escritor e roteirista Rian Johnson parte de todos os elementos básicos do clássico “whodunit” para extrapolar e investigar a dimensão política do nosso presente. Muito já se comparou o filme a Agatha Christie, mas aqui estamos em outro lugar – talvez até outro patamar, quando se ousa a tirar a alienação e substituir por algo subversivo.
 
Em geral, o gênero é reacionário, uma vez que o objetivo do clímax de um representante de filme sobre assassinato é descobrir a identidade do assassino e, assim, restabelecer a ordem perdida, voltar à vida normal de antes do crime. Johnson quebra essa regra, deixa de lado o que poderia haver de mais regressivo aqui, e coloca os EUA de Trump na tela. O ponto de partida é óbvio: um crime, que aparenta ser um suicídio, mas a polícia investiga, e um detetive particular – o renomado Benoit Blanc (Daniel Craig, no melhor do seu humor cínico) – é contratado anonimamente para participar das investigações.
 
Curiosamente, todo mundo parece suspeito de algo – mesmo que não seja exatamente o assassinato do patriarca da família Thrombey, Harlam (Christopher Plummer), um escritor que fez sua fortuna com suspenses (oh, mundo irônico!). Na manhã seguinte à sua festa de 85 anos, é encontrando morto no seu escritório. Os interrogatórios, na própria casa onde o crime ocorreu, são praticamente protocolares. A família quase toda está lá: Linda (Jamie Lee Curtis), agente imobiliária, seu marido, Richard (Don Johnson); o irmão dela, Walt (Michael Shannon), que administra a editora do pai, seu  filho adolescente, Jacob (Jaeden Martell), cujo celular, uma extensão de seu corpo, é usado para trollar liberais e gente de esquerda na internet; e a nora viúva do patriarca, Joni (Toni Collette), uma guru de lifestyle e saúde (à la Gwyneth Paltrow), e sua filha, Megan (Katherine Langford). A ovelha negra é Ransom (Chris Evans), o filho de Linda, que foi embora da festa logo após brigar com o avô. E há também a antiga cuidadora do escritor, Marta (Ana de Armas).
 
Todo mundo, conforme descobriremos, teria motivos para matar Harlam e ficar com a herança. A maneira como Johnson estrutura seu filme nunca coloca a narrativa à frente do público; não há cartas na manga para serem relevadas num deus ex-machina questionável e inesperado e daí vem boa parte da diversão de Entre facas e segredos. Se, em alguns momentos, Blanc está um passo adiante de nós é por motivos meramente narrativos para que a trama ande. É corajoso do diretor fazer isso, pois suspenses, geralmente, querem ser mais espertos do que quem os assiste e acabam tirando um coelho da cartola – às vezes, uma ninhada inteira – para fazer sentido.
 
A escolha aqui talvez tenha mais a ver com a discussão sobre o estado das coisas do que propriamente com o ‘quem cometeu o crime’. Em cena, uma família cujos membros transitam desde a expressão corrente da extrema direita – na figura do jovem trollador – até o progressista bem intencionado tipicamente americano (Johnson espertamente parece não ousar ir até a extrema esquerda, correndo o sério risco de cair na caricatura), como Joni. Todo mundo aqui é bastante esclarecido e, ao que se mostra, bem intencionado politicamente, mas todos também estão deitados em berço esplêndido, com a chance de herdar uma fortuna podendo transformá-los facilmente.
 
A estranha no ninho aqui é a cuidadora – “praticamente da família”–, cuja origem, cada membro da família diz ser de um país latino: dizem que é uruguaia, paraguaia, brasileira... Ela é a figura invisível que, assim sendo, tem o olhar privilegiado que permite desvendar o que realmente é essa família. Uma personagem virtuosa como ela facilmente cairia no ridículo, mas Ana de Armas faz um trabalho notável – ela é doce, sem ser tola, sua interpretação é sagaz, mas contida. Seu olhar para os Thrombey transita entre o desprezo e a piedade.
 
A questão central que Johnson está colocando aqui é: o que os ricos merecem? Punição ou adoração? Cobrança de impostos por suas fortunas ou redistribuição? O diretor é o esperto o bastante para não responder de maneira assertiva às perguntas, mas também, ao final, é possível perceber de que lado ele está. Não se trata de revanchismo – talvez só até certo ponto – mas de rever o estado das coisas, para que elas mudem e não continuem as mesmas. 

Alysson Oliveira


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