O Irlandês

Ficha técnica


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Sinopse

Próximo ao fim da vida, o mafioso Frank Sheeran relembra sua ascensão e envolvimento com o desaparecimento do sindicalista Jimmy Hoffa, em meados dos anos de 1970.


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Crítica Cineweb

11/11/2019

“Ouvi dizer que você pinta casas”. É uma frase recorrente nos primeiros minutos do monumental O irlandês, de Martin Scorsese. Tal qual seu protagonista, Frank Sheeran (Robert De Niro), logo descobriremos que pintar uma casa não envolve pincel e tinta, mas uma arma e sangue – um sangue que espirra e mancha a parede, provavelmente para todo o sempre. Esse é, num nível mais imediato, um filme de máfia, seguindo a gramática do gênero, e fazendo uma coleção dos momentos mais vintage que o tipo permite.
 
Mas Scorsese já redefiniu o gênero, por isso gangsterismo é o que menos interessa a ele aqui – claro que há armas, mortes, conversas em restaurantes italianos à meia-luz, mas isso tudo é mero verniz para que o diretor, trabalhando com um roteiro assinado por Steven Zaillian (a partir de um livro de não-ficção de Charles Brandt), faça uma obra sobre o peso do presente sobre os homens e mulheres de seu tempo. Não deixa de ser também uma fantasia sobre o destino do sindicalista Jimmy Hoffa, vivido por Al Pacino. Mas é, acima de tudo, sobre as pessoas tomamarem consciência de classe diante do preço cobrado pela narrativa histórica.
 
Sheeran, aka O Irlandês, é o centro do qual irradia a trama do filme. Ele é o narrador, mas não o ponto de consciência. Nós o encontramos, na primeira cena, idoso e combalido, mas ainda dotado de uma memória clara de seu passado – ou talvez não, mas só o tempo dirá – numa casa de repouso onde resgata, exclusivamente para nós, falando para a câmera, sua relação com Hoffa, a partir de uma viagem feita com seu amigo, Russell Bufalino (Joe Pesci), e as mulheres deles. Dentro desse flashback, surge outro: de como esses dois se conheceram quando Sheeran ainda jovem era motorista de caminhão, e foi acusado por um roubo.
 
Scorsese constrói tudo isso meticulosamente, sem pressa. Sua estratégia narrativa é a de dilatar o tempo e justapor dois momentos do passado do protagonista. É a maneira como diretor investiga o surgimento da consciência de classe em seu personagem. É também como O irlandês questiona a honestidade dessa consciência. As idas e vindas no tempo são facilmente detectáveis – o rejuvenescimento dos atores digitalmente contribui para isso –, mas a linha que separa o homem puro daquele consciente é bastante tênue e até esfumaçada.
 
Diz o crítico cultural norte-americano Fredric Jameson que “são aqueles nos degraus mais altos da escada social que tendem a formular a visão da ordem social, olhando para baixo, como um estrato separado” e “aqueles mais no final da escada olham para cima e tendem a mapear sua experiência social em termos de uma oposição rígida de ‘eles’ e ‘nós’”. Acontece que Sheeran tem a oportunidade rara de escalar essa escada, e o caminho para o topo equivale à perda de sua humanização, e o surgimento nele da consciência de uma classe que não é a sua. E para se manter onde chegou, ele faz coisas impensáveis. Ele tem a chance de olhar de cima para baixo, mas a disputa entre “eles” e “nós” também não foi deixada para trás.
 
Nesse processo todo, uma personagem tem um papel central. Trata-se de Peggy (interpretada por Lucy Gallina, na infância, e Anna Paquin, adulta), filha de Sheeran que abomina Bufalino, mas coloca Hoffa numa posição de figura paterna de tanto que o venera – sem perceber que há uma equiparação entre esses dois homens. As personagens femininas raramente são o forte dos filmes de Scorsese, mas aqui, essa, apesar de atuar em poucas cenas, tem um papel pontual: é a bússola moral do filme, os olhos que julgam o protagonista, a consciência de toda a narrativa. E isso desde a infância, quando tem um desentendimento com um quitandeiro, e depois presencia o pai se vingando por ela. O filme a coloca num papel peculiar na filmografia do diretor: a mulher que se sente agredida pelo homem que foi limpar sua honra. Ela cresce à sombra do paradoxo do pai amoroso a quem teme (como, mais tarde saberemos, todas as outras filhas).
 
A presença dessa personagem nos aproxima do filme. Somos, em certa medida, Peggy, assustados com esse mundo de masculinidade tóxica, no qual a violência é sua expressão máxima. Se em Os bons companheiros o protagonista começa dizendo que até onde se lembra sempre quis ser um gângster, Sheeran não percebeu que estava sendo levado para dentro desse mundo. Quando se deu conta, já estava pintando paredes. Mas isso não faz do filme “Os maus companheiros”- ou talvez até o faça.
 
O irlandês poderia facilmente cair numa elegia para um mundo que não mais existe, seu olhar melancólico para o passado permitiria isso. Mas a narrativa da história pode atropelar qualquer impulso nostálgico que Scorsese ou seus personagens pudessem ter. Entram em cena Kennedy, Nixon e o próprio Hoffa, um personagem fascinante no plano histórico e pessoal feito com brio por um Pacino como há muito não se via. Ele surge aqui como uma espécie de mito em formação, cujo desaparecimento misterioso em 30 de julho de 1975 é uma questão central do filme. Há uma especulação sobre o que aconteceu, e, bastante plausível, é quando a narrativa histórica se fratura.
 
Peggy se torna, simbolicamente, então, uma fantasmagoria a partir do desaparecimento de Hoffa. Sua ausência por todo o resto do filme perpetua nosso olhar de indignação e incredulidade, nossa vontade de desviar os olhos desse horror físico e emocional em que se transforma O irlandês – mas, ao contrário dela, não podemos. Scorsese faz de nós cumplices. Nas mãos de um diretor menos capaz, isso tudo cairia facilmente num sensacionalismo barato, num banho de sangue desenfreado e destituído de significado. Mas, aqui o cineasta se reencontra – não apenas porque lida com um material que lhe é caro, mas porque investiga dinâmicas de manutenção social como faz em seus melhores filmes. A época da inocência é, ao seu modo, um “filme de gângster”, assim como A última tentação de Cristo. Obras sobre um mundo particular de pequenas gangues (no sentido de grupo), e fechado em suas próprias regras.
 
É preciso baixar a guarda e se deixar levar pelo charme mastodôntico de O irlandês. É um filme vigoroso em sua cadência morosa, que busca uma investigação emocional e política de um mundo sempre prestes a ruir, mas que se reinventa na velocidade do disparo de um tiro. É uma saga que acompanha até o final, quando as duas pontas de uma vida se juntam – e a escolha de um caixão verde-Irlanda é claramente significativa. A interpretação de De Niro é grande – na devida complexidade do personagem – que quase nos toma para o lado de Sheeran, mas somos Peggy. Ainda bem.

Alysson Oliveira


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