O Senhor dos Anéis: As Duas Torres

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Crítica Cineweb

15/01/2003

Livre do peso das apresentações dos protagonistas, devidamente feitas no primeiro filme (O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel), este novo capítulo da trilogia mantém ao mesmo tempo a adrenalina de uma batalha cujo fim ainda está distante e o sabor da novidade, ao introduzir novas legiões de personagens, que serão cruciais para a definição da saga.

Neste capítulo intermediário, o que estava ruim fica pior. Depois da morte de Boromir (Sean Bean), a comitiva do anel se dispersa - o que cria três focos narrativos paralelos. Rumo a Mordor, o reino do mal, segue com sua missão de conduzir o anel à sua destruição o hobbit Frodo (Elijah Wood), que tentou ficar sozinho, mas não conseguiu desvencilhar-se do seu fiel escudeiro, Sam (Sean Astin). Junta-se aos dois a criatura mais ambígua desta edição, Gollum - um prodígio digital calcado nos movimentos e na voz do ator Andy Serkis.

Gollum foi por 500 anos o detentor do anel e não pensa em outra coisa que recuperar o seu "precioso", como ele o chama. Mesmo sem confiar inteiramente nele, Frodo e Sam são obrigados a incorporá-lo como guia, já que ele é o único entre eles que já esteve realmente dentro dos muros de Mordor. Mesmo endurecido por anos de total solidão na vida selvagem, Gollum sofre o impacto das boas palavras de Frodo, que é capaz de reacender nele a natureza de Sméagol, sua verdadeira identidade no passado. Essa luta entre o bem e o mal dentro dele materializa-se numa cena em que os dois lados "conversam" e que define como nenhuma outra a esquizofrenia do personagem.

Bem longe dali, a outra dupla de hobbits, Merry (Dominic Monaghan) e Pippin (Billy Boyd), vê a morte de perto ao cair nas mãos de uma tropa de Uruk-hai que tem o gosto da antropofagia. Escapam por pouco, no meio de uma sangrenta batalha em que os Uruk são dizimados pelos cavaleiros de Rohan, liderados por Éomer (Karl Urban). Os hobbits refugiam-se na floresta encantada de Fangorn, tornando-se protegidos de Barbárvore (outro ser digital, com a voz emprestada de John-Rhys Davies, intérprete do anão Gimli). Esta criatura especial, idêntica a uma gigantesca árvore que caminha, é um guardião da floresta e torna-se um aliado de peso quando descobre as atrocidades que estão sendo praticadas pelo mago Saruman (Cristopher Lee).

Os primeiros a presenciar o milagre da reaparição de Gandalf (Ian McKellen), que todos supunham morto desde o enfrentamento com o gigante Balrog, são Aragorn (Viggo Mortensen), Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John-Rhys Davies). O mago retorna mais sábio e poderoso, transformado em Gandalf, o branco, com vestes dessa cor, cavalgando um cavalo voador idem chamado Scadufax, que a partir de agora será seu companheiro inseparável. Gandalf encarna um dos aspectos mais instigantes da saga do Senhor dos Anéis, inserindo a magia na trama, mas nunca se tornando o total controlador dos acontecimentos. Esta limitação torna sua atuação sempre imprevisível e deixa espaço para que os outros personagens, sejam elfos, hobbits, homens ou outros, cumpram também os seus respectivos papéis, e, por menores que sejam, nunca menos essenciais do que o de Gandalf. É o máximo da idéia de democracia que esta trilogia tão cheia de reis se permite.

Por meio de sua adaptação primorosa e também criativa do livro de J.R.R. Tolkien, o filme de Peter Jackson consegue atenuar um dos aspectos mais datados da história, a virtual ausência de mulheres, na linha de frente ou fora dela. Este segundo capítulo, por exemplo, aproveita generosamente a presença magnética de duas princesas, a elfa Arwen (Liv Tyler, vista já no primeiro filme) e a humana Éowyn (Miranda Otto) - esta última talvez a personagem feminina mais sofisticada de toda a trilogia. As duas vão duelar na imaginação amorosa de Aragorn, preso a uma promessa com a primeira, mas visivelmente encantado com a segunda, que leva a vantagem, aos seus olhos, de ser mais guerreira.

Aragorn, porém, tem missões mais espinhosas do que decidir para que lado pende seu coração. Uma delas, a de procurar unir as forças dos homens de Rohan e de Gondor - onde, sem que ele saiba, Faramir (David Wenham), irmão do falecido Boromir, aprisionou Frodo e Sam e é instigado por seu pai a apoderar-se do anel.

As volumosas batalhas que ocupam o centro do épico também recebem um reforço extra do setor de efeitos especiais. Nada menos de dez mil guerreiros Uruk foram criados por computação gráfica para a seqüência do assalto à fortaleza Rohan, no abismo de Helm. Há sangue, suor e muita luta em As Duas Torres - que se referem a Orthanc e Barad-dûr, respectivamente as moradias dos vilões Saruman e Sauron. O pacifismo certamente não fazia parte da cartilha que regia o imaginário de Tolkien, que escreveu sua obra magistral bem na época da II Guerra Mundial.

Há algo dos grandes faroestes aqui e, no calor da batalha, algumas suspeitas politicamente corretas podem até surgir - como o fato de que todos os orcs e Uruk têm a pele escura, além da já citada marginalização das mulheres. Mas seria muito redutor olhar uma obra de tão sofisticada elaboração, que chega ao requinte de inventar uma série de línguas para alguns de seus povos, dentro de uma moldura tão estreita. A imaginação, como o humor, não costumam ter freios mas quase sempre são impregnadas por alguns conceitos da época em que viveu seu criador.

Cineweb-27/12/2002

Neusa Barbosa


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