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Sinopse

Bernadette Fox vive reclusa em sua casa, em Seattle, pouco saindo, a não ser para buscar a filha, Bee, na escola. Poucos ali sabem que ela foi uma das maiores revelações da arquitetura nos últimos anos, tendo-se retirado de cena por um trauma profissional. O desejo da filha de uma viagem à Antártida põe à prova seu desejo de isolamento.


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Crítica Cineweb

30/10/2019

Cate Blanchett e o diretor Richard Linklater afastam-se de sua zona de conforto para compor esta comédia dramática, baseada no romance de Maria Semple. Seu grande risco é centrar a história numa protagonista, Bernadette (Cate) que, por boa parte do tempo, não se consegue entender, nem empatizar com. Não fosse Cate a extraordinária atriz que é, talvez saíssemos correndo do cinema. Mas, com esta rainha da interpretação na tela e um diretor sensível como Linklater no comando, lançam-se pistas suficientes de que algo melhor vem logo adiante.
 
Por todos os motivos, a história é estruturada como um estudo de uma personalidade em conflito, a arquiteta Bernadette Fox. A narrativa a apresenta numa prolongada e profunda crise, já que, há anos, ela se encastelou numa grande casa, em Seattle, de onde praticamente não sai, exceto para buscar a filha, a adolescente Bee (Emma Nelson), na escola. Para tudo o mais, ela recorre a uma assistente digital, baseada na Índia, a quem ela encomenda praticamente tudo via celular.
 
Vendo-a assim, não dá para imaginar que ela foi a grande sensação da arquitetura, 20 anos atrás, a única mulher num círculo de feras da prancheta. Um grande trauma envolvendo um de seus grandes projetos a colocou em fuga. A dificuldade de engravidar e o nascimento da filha deslocaram sua energia - e ela se deixou absorver totalmente por uma vida doméstica bem estranha. 
 
Interpretada pela estreante em longas Emma Nelson, a filha Bee é um encanto - e dá para entender com quanto amor da mãe ela foi alimentada. As duas, aliás, são grandes amigas. O pai, Elgie Branch (Billy Crudup), um técnico digital, gravita em torno delas, mas um tanto distante. Há muito tempo ele não consegue conectar-se verdadeiramente com a mulher - a filha é o elo de ligação entre os dois. E, neste momento, a garota quer viajar com eles para a Antártida, antes de cursar o ensino médio num colégio interno longe de casa.
 
A viagem apavora a mãe, em pânico pela possibilidade de abandonar o círculo onde se isolou. Na verdade,um isolamento diariamente desafiado pela cultura suburbana de suas vizinhas, rainhas do lar, como Audrey (Kirsten Wiig), contra quem ela mantém guerras que começam pela poda das raízes das amoreiras na divisa de suas casas.
Os problemas cotidianos e corriqueiros não apelam à sensibilidade de Bernadette, que pode comportar-se de maneira esnobe e agressiva - a um passo de ser odiosa, se suas vizinhas não o fossem ainda mais.
 
Assinado por Linklater, Holly Gent e Vince Palmo, o roteiro lança Bernadette numa série vertiginosa de incidentes e aventuras, quase sempre em grande conflito - exceto seu encontro com um velho amigo do passado, o também arquiteto Paul Jellinek (Laurence Fishburne). Na conversa com ele, finalmente se pode perceber que Bernadette tem um lado racional completamente obliterado por sua vida reclusa dos últimos anos. Essa mulher talentosa e incrível vai finalmente criar coragem de romper sua gaiola dourada antes que mecanismos de contenção - como remédios e psiquiatras - acabem de aniquilar o que resta de humano e criativo em Bernadette ? 
 
Essa é a torcida dos espectadores que conseguirem conectar com a alma dessa mulher maravilhosa, ainda que em estado caótico. Só um diretor com a sensibilidade de Linklater conseguiria extrair este suco de uma personagem assim difícil, potencialmente antipática - mas aí está o desafio que deve ter levado Cate Blanchett a encarnar este turbilhão humano, cujas fibras ela desdobra uma a uma tão bem.

Não é pouca coisa que estas histórias se situem em lugares tão peculiares quanto Seattle, a Groenlândia e a Antártida - valorizadas pela fotografia de Shane F. Kelly, um colaborador habitual do diretor, em seus filmes Boyhood - da infância à juventude (2014) e Jovens, Loucos e mais Rebeldes (2016). 

Neusa Barbosa


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