As golpistas

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Sinopse

Destiny é uma stripper sem muito sucesso. Mas quando conhece uma colega de trabalho, Ramona, a sorte parece lhe sorrir. Com o tempo, ao lado de outras mulheres, armam um esquema para pegar dinheiro de homens ricos e distribuir entre elas.


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Crítica Cineweb

09/10/2019

A gente sabia que Jennifer Lopez era capaz de atuar, mas não como em As Golpistas. Quando ela entra em cena, o filme, que começa bem, sobe estratosfericamente. Mais do que uma mera diversão, essa comédia é um comentário sobre a mulher no ambiente de trabalho – e o que tem a dizer é bastante relevante. A diretora e roteirista Lorene Scafaria parte de uma história real, tendo como base um artigo escrito por Jessica Pressler, publicado na New York em 2015 – para investigar a dinâmica de gênero na esfera laboral.
 
A história, a princípio, parece um tanto batida: um grupo de strippers de Nova York, cansadas de serem exploradas por clientes e patrões, organizam seu próprio “negócio”, dando golpes em ricaços. Já vimos isso antes, mas nunca como aqui. O que diferencia esse filme de outras centenas protagonizados por essas moças é o olhar feminino da diretora. Scafaria não apenas não julga, ela também desfetichiza a profissão – não que não haja sensualidade na dança, mas  éapenas o que é: uma profissão como outra qualquer, repleta de problemas e frustrações. Não há glamour, há labuta, exploração e clientes abusivos.
 
A narrativa é emoldurada por uma repórter, Elizabeth (Julia Stiles), investigando as personagens tempos depois que o escândalo dos golpes veio à tona. Esse dispositivo permite a Scafaria jogar com as versões da verdade. A principal entrevistada é Destiny (Constance Wu), que vive com a avó (Wai Ching Ho), trabalha num clube de striptease e ganha pouco. Isso até conhecer Ramona (Jennifer Lopez, favorita na categoria coadjuvante nas premiações), cujo magnetismo atrai não apenas atenção, como também muitos dólares, garantindo-lhe conforto para ela e a filha.
 
Aparentemente, não era suficiente, e elas, com outras colegas de trabalho, vão à luta, transformando-se numa espécie de Robin Hood da terceira onda feminista. Basta notar a abrangência étnica aqui – latina, asiática, afroamericana – indo além da mulher branca de classe média. Mais do que isso, o filme dá histórias, e assim vida, às suas personagens. Elas não são apenas as strippers objeto do desejo; são mães, netas, namoradas, trabalhadoras. Esse respiro traz não apenas veracidade, como nos coloca ao lado dessas figuras na luta de classes.
 
E, ao contrário do que é comum no gênero, não são as mulheres que se transformam em estereótipos ambulantes – mas os homens. Finalmente, em Hollywood, é divertido ver isso. Tolos, fúteis e obcecados por sexo, cegos pelo desejo e sem qualquer senso crítico – um pouquinho de bom senso, e eles não cairiam no golpe –, são presas merecidamente fáceis e ricos (geralmente empresários e gente de Wall Street).
 
Destiny, e seus conflitos éticos e morais, é o nosso olhar para esse mundo do striptease. Como ela é a novata, aprendemos com ela como as coisas funcionam, e como fazer mais piruetas do que um acrobata do Cirque du Soleil num pole. É pelos olhos dela também que compreendemos as dinâmicas – algumas vezes de sororidade, outras de exploração – entre as dançarinas e, entre elas, e os patrões (sim, porque quase inevitavelmente são homens).
 
Scafaria dirige com gosto e sagacidade nesse mergulho num mundo tipicamente masculino, aqui, pautado pela mediação feminina. Muita gente já a comparou com Martin Scorsese, e talvez seja esse o ponto: a diretora toma para si as referências, seja de Os Bons Companheiros ou qualquer outro filme de máfia, e as transforma sob uma nova luz, pós-moderna e interessada na discussão das identidades e do mercado de trabalho. Ainda assim, comparar com Scorsese – ou qualquer outro diretor homem – pode ser reduzir o trabalho da cineasta aqui. Filmado como um videoclipe para a era do Instagram, As Golpistas é banhado em neon e filtros – com uma fotografia de Todd Banhazl, que tira o máximo de proveito da luz artificial do ambiente de trabalho das personagens, o que tem muito a ver com a artificialidade das relações humanas ali.
 
E o resultado é um raro filme ao mesmo tempo divertido e relevante em seu comentário, e a prova de que realismo social no cinema nem sempre precisa ser sisudo e distanciado, e de que pode, e deve, assumir o ponto de vista feminino – afinal, há mulheres na classe trabalhadora. Sem sombra de dúvida, há algo novo acontecendo aqui neste filme, algo que demorou muito a chegar a Hollywood, mas que, tomara, tenha vindo para ficar. 

Alysson Oliveira


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