Doutor sono

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Sinopse

Danny Torrance nunca superou os fantasmas de seu passado de episódios traumáticos no Hotel Overlook. Agora, adulto e problemático, ele tenta dar um rumo em sua vida, até que uma garota chamada Abra o procura telepaticamente. Ela também é uma iluminada e o alerta que uma gangue quer acabar com eles.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

09/10/2019

O filme O Iluminado, de 1980, tem um papel peculiar na história das adaptações literárias para o cinema: é venerado (não sem razão) pelo público e renegado pelo autor do romance original, Stephen King. Talvez ele nunca tenha conseguido lidar direito com as mudanças que Stanley Kubrick (diretor e roteirista, ao lado de Diane Johnson) imprimiu à sua obra. Décadas depois, o escritor lançou uma continuação de seu livro – que, não estranhamente, ignora o filme – Doutor Sono. Mike Flanagan, por sua vez, não destituído de coragem, escreveu e dirigiu esta adaptação. E que estranho animal é esse filme Doutor Sono! Um longa que tenta agradar aos fãs do filme de Kubrick e a King ao mesmo tempo, transformando-se num pastiche de ambos.
 
No filme, encontramos Danny Torrance (Roger Dale Floyd, quando criança nos flashbacks; e Ewan McGregor, adulto) como um alcóolatra desempregado. Ele ainda tem o dom da iluminação, é capaz de ler pensamentos, conversar com outros iluminados e também encontrar objetos perdidos – o que, no fundo, nunca o ajudou a encontrar um rumo na vida. Curiosamente, ele é o personagem mais sem graça do filme, embora seja o nosso elo entre Doutor Sono e O Iluminado.
 
Duas figuras femininas emergem de maneira muito mais forte e interessante. A primeira é Abra Stone (Kyliegh Curran), uma garota também iluminada, cujo poder é ainda mais forte do que o de Danny. A outra é a grande vilã, Rose, a Cartola, interpretada com gosto por Rebecca Ferguson, cuja ausência é sempre sentida quando não está em cena. Quase uma espécie de iluminada do mal, Rose e sua gangue – conhecida como o Nó Verdadeiro – vivem por séculos, se alimentando da energia liberada por iluminados quando estão sendo torturados na hora da morte.
 
Ao longo dos anos, Danny encontrou uma forma de superar os fantasmas e demônios que habitavam o Hotel Overlook: ele criou caixas mentais nas quais fecha cada um de seus medos. Agora, no entanto, Abra, mentalmente, o encontra e pede ajuda, pois ela precisa de alguém mais experiente para a guiar na arte da iluminação. Não apenas isso: ela está sendo perseguida por Rose, ávida pelo poder da menina para alimentar a ela e sua gangue.
 
Flanagan não é novato nas adaptações de King nem ao sobrenatural – ele tem em seu currículo Jogo Perigoso e A maldição da Residência Hill. Por isso, é de se estranhar as opções que ele fez ao adaptar o romance Doutor Sono. Parecem as mais equivocadas. Seu filme carece de força – algo fácil de encontrar na prosa caudalosa de King em suas mais de 600 páginas. Tudo o que é potente no romance se esvazia na tela. O Nó Verdadeiro, por si só, daria um filme, mas aqui é reduzido a um grupo de personagens funcionais com posição marginal na sociedade, perseguindo outros personagens marginais – o que, em alguns momentos, faz o filme mais parecer X-Men do que O Iluminado.  
 
Nem a própria ideia de Danny como o Doutor Sono é bem explorada aqui, deixando tudo meio vago. Ele se torna um personagem sem graça, já que a força da narrativa pouco gravita em sua direção. Ele é mais uma desculpa para a existência do filme do que um personagem bem realizado – não por falta de esforço de McGregor, mas ele não tem como superar a transformação de Danny numa figura quase banal e descartável.
 
Kubrick surge, então, como inspiração e homenagem. Os fãs mais ardorosos chamarão de sacrilégio o fato de que Doutor Sono não se furta um segundo de citar tudo o que puder do filme de 1980, transformando a si mesmo em algo sem personalidade. Ainda assim, é preciso dar crédito a Flanagan por sua coragem. Mexer com dois dos grandes em seus respectivos métiers – Kubrick e King – não é para muitos. O problema talvez seja que, ao invés de tomar O Iluminado e Doutor Sono (o romance) para si e fazer “seu” filme, o diretor quis agradar a todos. Com isso, corre o risco de não agradar a ninguém.

Alysson Oliveira


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