Morto não fala

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País


Sinopse

Stênio trabalha num necrotério e tem o poder de falar com os mortos. Quando um deles faz uma revelação, o rapaz toma uma decisão drástica, da qual nunca poderá voltar atrás, afetando a vida de todos ao seu redor.


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Crítica Cineweb

01/10/2019

Morto não fala é um passo corajoso no cinema brasileiro. Um terror sobrenatural, nos moldes clássicos do gênero, mas capaz de incorporar elementos específicos do país. A boa educação, de Juliana Rojas e Marco Dutra, e A sombra do pai, de Gabriela Amaral Almeida, só para ficar nos mais recentes, já faziam isso –, mas o filme de Dennison Ramalho não apenas flerta com o sobrenatural, como um elemento dúbio, assim como abraça com gosto o outro mundo, e isso o coloca numa posição bastante peculiar.
 
Escrito pelo diretor e Claudia Jouvin, a partir de um conto de Marco de Castro, o enredo parece saído de uma obra de Stephen King, se o americano morasse na periferia de São Paulo. Ao centro, um funcionário do Instituto Médico Legal, Stênio (Daniel de Oliveira), que tem a capacidade de conversar com os mortos. E isso é tomado quase que com naturalidade. Ele mantém conversas, em sua maioria, amistosas com os cadáveres aos quais é responsável por limpar, entre outras coisas, antes de o legista chegar.
 
As conversa são mais variadas. É como se fosse o menino de O sexto sentido, mas mais sem pudor, com gente cravejada de balas, por que, no Instituo, chegam corpos de pobres, boa parte negros, boa parte mortos pela polícia. Stênio tenta acalmar seus interlocutores, ouve pedidos – tenta ajudar – mas também conselhos: ele está marcado do lado de lá, como diz um recém-falecido, é bom tomar cuidado.
 
É claro que uma pessoa levando uma vida assim não tem como ser tranquila e feliz. Sempre tenso e cansado – ele trabalha no turno da noite –, vive em pé de guerra com sua mulher, Odete (Fabiula Nascimento), que reclama da falta de atenção, de carinho e de dinheiro. Ela procura tudo isso junto ao padeiro local, Jaime (Marco Ricca), e a informação logo chega ao protagonista, que toma uma atitude.
 
Morto não fala caminha de maneira inesperada, colocando o protagonista numa situação de culpa profunda que irá reverberar em seus filhos pequenos, Ciça (Annalara Prates) e Edson (Cauã Martins). Mortos que voltam à vida em filmes de terror querem, basicamente, uma coisa: descansar em paz, mas algo ainda os atormenta. E aqui não é diferente, mas a maneira como o fantasma pede o que quer não é nada amigável.
 
É nisso que Morto não fala se destaca: o filme não tem medo de exageros, não se faz de rogado com explicações baratas que visam naturalismo (como, por exemplo, foi apenas um pesadelo ou alucinação), não, o fantástico existe aqui sem pudor. É, obviamente, então um filme de gênero que busca falar com o público fã dele, e consegue com qualidade, sem precisar se valer de estratagemas baratos.
 
Daniel de Oliveira é um dos grandes atores de sua geração, e é difícil imaginar que o filme funcionasse com outro no papel de Stênio. Ele incorpora a fragilidade e a fúria do personagem, preso num dom que mais lhe traz problemas do que benefícios. Sua principal colega de cena é Bianca Comparato, como filha de Jaime, numa personagem também surpreendente, numa atuação corajosa da atriz. O único porém talvez seja o efeito que faz os mortos falarem: é desnecessariamente estranho a ponto de parecer um defeito técnico, numa obra que, fora isso, é bem caprichada. Pode ser uma opção estética do diretor, mas apenas esse elemento, com cara de filme trash, destoa do restante.

Alysson Oliveira


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